Saúde

Como a Análise Química das Árvores Combate a Exploração Ilegal de Madeira

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Maíra Fasciotti é pesquisadora da Divisão de Metrologia Química do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). O texto a seguir foi originalmente publicado no site The Conversation, que reúne artigos escritos por pesquisadores. Vale a visita.

O Brasil é o país com a maior biodiversidade do planeta. Entre os 17 países considerados megadiversos, ocupa o primeiro lugar. E abriga, segundo estimativas, entre 15% e 20% de toda a diversidade biológica mundial. Boa parte dessa riqueza está nas nossas árvores — e na madeira que elas produzem.

A madeira é um material extraordinário até em escala cósmica. Ouro, ferro e até diamantes existem fora da Terra. Madeira, até onde sabemos, não.

Não conhecemos outro planeta onde árvores tenham evoluído. Cada pedaço de madeira que conhecemos foi produzido pela vida na Terra. E algumas madeiras são ainda mais raras. Há árvores que só existem naturalmente no Brasil. O pau-brasil (Paubrasilia echinata), por exemplo, é uma espécie exclusivamente brasileira.

Séculos de exploração e perda de habitat contribuíram para uma redução estimada em mais de 80% de suas populações nas últimas três gerações. Hoje, a espécie que deu nome ao país é classificada como criticamente em perigo de extinção.

Outras árvores de enorme valor econômico também foram intensamente exploradas. O mogno (Swietenia macrophylla), uma das madeiras mais valiosas da Amazônia, sofreu exploração tão intensa que levantamentos em áreas exploradas chegaram a registrar a retirada de 90% a 95% dos indivíduos adultos disponíveis.

O pau-rosa (Aniba rosaeodora), por sua vez, foi derrubado durante décadas para a obtenção do óleo essencial rico em linalol utilizado pela indústria de perfumes. A exploração levou ao esgotamento de estoques naturais acessíveis em diferentes regiões da Amazônia.

Qual espécie é transportada?

Quando perdemos uma dessas árvores, não perdemos apenas madeira. Perdemos uma combinação de história evolutiva, informação genética e diversidade química que a natureza levou milhões de anos para produzir.

E aí nos deparamos com um problema. Quando um caminhão carregado de madeira é parado numa rodovia, uma pergunta aparentemente simples pode decidir o rumo da fiscalização: que espécie está sendo transportada?

No papel, pode haver um nome. Na carga, porém, há toras ou tábuas sem folhas, flores ou frutos — características que ajudam os botânicos a reconhecer uma árvore. Espécies diferentes também podem parecer muito semelhantes a olho nu. E, quando a madeira já foi serrada ou processada, parte das características usadas na identificação anatômica pode se tornar mais difícil de observar.

Esse é um dos desafios conhecidos da fiscalização do comércio de madeira.

Essa dificuldade não é apenas técnica. Ela abre um enorme espaço para fraudes.

Em operações recentes no Brasil, agentes encontraram cargas com divergências entre as espécies ou volumes declarados e a madeira efetivamente transportada, além de documentação ambiental falsa ou inexistente.

Em agosto de 2025, uma operação da Polícia Rodoviária Federal apreendeu 2.043 m³ de madeira e apontou, entre as principais irregularidades, justamente divergências de espécie e volume. Em junho de 2026, outra operação, no Pará, apreendeu 153 m³ de madeira transportada irregularmente.

O Brasil possui sistemas para controlar a origem e o transporte de produtos florestais. O Documento de Origem Florestal (DOF), por exemplo, é uma documentação obrigatória para o transporte e armazenamento de determinados produtos e subprodutos florestais nativos e registra informações sobre sua procedência.

O Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor) também foi criado para integrar informações sobre a origem da madeira.

Mas um documento não elimina a necessidade de verificar o material que está diante do fiscal. Um outro caso ocorrido, agora em outubro de 2026, no Maranhão, mostra bem o problema: em uma carga de aproximadamente 100 m³ os policiais identificaram diferenças entre a quantidade de madeira transportada e a informada nos documentos. Dentre as espécies de madeira observadas na carga, havia uma ameaçada de extinção.

Ineditismo do Inmetro

Foi diante desse cenário desafiador que desenvolvemos no Laboratório de Análise Orgânica, do Instituto Nacional de Metrologia do Brasil (Inmetro) e com parceiros de outras instituições brasileiras, como o Serviço Florestal Brasileiro, uma abordagem para diferenciar espécies de madeira por com base nas suas composições químicas. O estudo foi publicado em março de 2026 na revista científica ACS Omega.

A ideia é relativamente simples de explicar. Assim como uma impressão digital ajuda a distinguir uma pessoa de outra, diferentes espécies de árvores apresentam conjuntos característicos de substâncias químicas, moléculas orgânicas resultantes do metabolismo das árvores. Esses conjuntos de moléculas podem produzir uma espécie de “assinatura química” da madeira. Estudos anteriores já demonstraram que esse princípio pode ser usado na identificação forense de madeiras protegidas.

Para ler essa assinatura, usamos uma técnica chamada espectrometria de massas, que é uma técnica já amplamente utilizada em outros setores, como na indústria farmacêutica, de alimentos ou para análise de petróleo, por exemplo.

Em nosso trabalho, analisamos as madeiras de mogno, cedro, andiroba e jatobá, espécies tropicais de importância comercial. O mogno (Swietenia macrophylla) e o cedro do gênero Cedrela estão sujeitos ao controle de comércio pela da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção, a Cites. Trabalhamos com 60 amostras de cerne provenientes de diferentes localidades da região amazônica, obtidas a partir de coleções científicas brasileiras, as importantes xilotecas.

Em nosso estudo, o modelo alcançou aproximadamente 95% de acerto na validação cruzada. Em um teste cego com 12 amostras que não foram utilizadas para a construção do modelo, conseguimos 100% de acerto para as quatro espécies analisadas no estudo.

Isso ainda não significa que hoje já seja possível colocar qualquer madeira brasileira no equipamento e descobrir automaticamente sua espécie.

Nosso trabalho é uma prova de conceito. Essa distinção é fundamental.

O próximo desafio é ampliar a biblioteca com amostras de referência. Quanto maior o número de espécies, indivíduos e origens geográficas representados, melhor poderemos testar até onde o método funciona.

O que muda com um equipamento compacto é a possibilidade de aproximar a análise do lugar onde a decisão precisa ser tomada.

O instrumento usado em nossa pesquisa não é portátil como um aparelho de mão. É importante deixar isso claro. Mas é menor e operacionalmente muito mais simples do que plataformas de espectrometria de massas de alta resolução, além de custar cerca de somente 20% do valor do equipamento mais amplamente utilizado atualmente.

Nosso estudo mostrou a possibilidade de uso dessa técnica com preparação mínima de amostras, classificação automatizada e um minuto de análise por amostra. O equipamento também não requer condições laboratoriais tão controladas.

O que abre caminho para testar futuramente a tecnologia em postos de fiscalização como portos, aeroportos, bases policiais ou até mesmo em laboratórios móveis.

Essa possibilidade é relevante porque o comércio ilegal de madeira não termina na árvore derrubada. Para chegar ao mercado, a madeira percorre cadeias de transporte, documentação, armazenamento e venda.

E os crimes ambientais não existem necessariamente de forma isolada. O Ministério da Justiça aponta que extração ilegal de madeira, grilagem, garimpo e tráfico de fauna podem compartilhar infraestrutura e logística com outras atividades criminosas na Amazônia. Combater essas redes é também uma questão de capacidade do Estado de conhecer e controlar seu território [16].

Há um dado recente que ajuda a colocar o problema em perspectiva. A taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal foi de 5.731 km² em 2025, uma redução de 12,07% em relação ao ano anterior.

No ciclo de agosto de 2025 a julho de 2026, os alertas do Deter também caíram 36%. São avanços importantes, mas ainda distantes da meta de desmatamento zero que o Brasil almeja alcançar.

Ao mesmo tempo, operações realizadas em 2026 continuam encontrando madeira extraída ou transportada ilegalmente em diferentes pontos da Amazônia. A redução do desmatamento, portanto, não torna a fiscalização desnecessária. Ao contrário: mostra por que capacidades institucionais que funcionam precisam ser mantidas e aperfeiçoadas.

Ciência não protege uma floresta sozinha. Um espectrômetro não prende criminosos, não substitui fiscais e não corrige falhas de governança. Mas a ciência produz algo sem o qual políticas públicas se tornam mais frágeis: a evidência científica.

Soberania científica

E existe aqui também uma dimensão de soberania nacional. Afinal, ciência é soberania nacional.

Desenvolver no Brasil métodos e bancos de referência capazes de analisar materiais relacionados à nossa própria biodiversidade significa ampliar a capacidade do país de produzir evidências sobre seu patrimônio natural.

O trabalho também evidenciou a importância da colaboração científica entre instituições. A pesquisa contou ainda com parceiros da UnB, do INPA, do Museu Paraense Emílio Goeldi e da empresa Waters Technologies do Brasil. Ressalta-se a importância do fomento dados pela Faperj e CNPq.

Quando uma tábua de madeira chega a um posto de fiscalização, ela já perdeu a copa, as folhas e quase toda a história visível da árvore de onde veio. A química, porém, ainda é testemunha dessa história. Aprender a ler essa informação pode ajudar o Brasil a proteger melhor aquilo que é seu.

Fonte: abril

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Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo