Combate ao Mosquito
Ciência & Saúde

Cientistas revelam descoberta de nova classe de antibióticos que promete revolucionar tratamentos

2025 word3
Grupo do Whatsapp Cuiabá

As bactérias são organismos que desempenham um papel importante nas interações com plantas e animais, estabelecendo relações que podem ser tanto benéficas quanto simbióticas.

É o caso, por exemplo, das bactérias que ajudam no metabolismo dos organismos hospedeiros e oferecem proteção contra doenças infecciosas causadas por outros microrganismos.

No entanto, também existem diversas espécies bacterianas patogênicas que podem causar doenças graves, como cólera, sífilis, antraz, hanseníase e peste bubônica. Essas infecções bacterianas frequentemente são tratadas com o uso de antibióticos, que ajudam a controlar a proliferação das bactérias no organismo e a prevenir complicações maiores.

O problema é que as bactérias são seres adaptáveis por natureza e transmitem informações genéticas para suas próximas gerações, permitindo que consigam driblar as barreiras dos medicamentos. Esse fenômeno é chamado de resistência antimicrobiana — ou RAM — e é uma das maiores ameaças globais à saúde pública, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Cerca de 4,5 milhões de pessoas morrem todos os anos devido a infecções resistentes a antibióticos, e isso só está piorando”, explica em comunicado Gerry Wright, professor do Departamento de Bioquímica e Ciências Biomédicas da Universidade McMaster (Canadá). Por isso, os antibióticos também precisam estar em constante mudança.

Wright integra o grupo de cientistas que pode ter descoberto um novo candidato a antibiótico que pode matar uma ampla gama de bactérias, incluindo aquelas resistentes aos medicamentos já existentes. Vamos entender mais sobre essa pesquisa.

Os antibióticos são organizados em classes — as mais comuns você já deve ter tomado, como a penicilina e a tetraciclina. A última vez que uma nova classe de antibióticos chegou às prateleiras das farmácias foi em 2003, com a daptomicina. Desde então, cientistas tentam encontrar novas formas de destruir patógenos em constante alteração.

 Wright e um grupo de pesquisadores da Universidade McMaster identificaram uma nova molécula que desafiaria as bactérias mais resistentes conhecidas hoje em dia: a lariocidina. As descobertas foram publicadas na revista Nature no último dia 26.

“Tem sido muito raro encontrar moléculas que agem de maneira diferente”, diz Frederico Gueiros-Filho, professor associado do departamento de bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP).  “É uma descoberta valiosa porque essa molécula, que age de uma maneira diferente, vai funcionar contra bactérias que são resistentes aos antibióticos que já são usados”.

A lariocidina é um peptídeo lasso, moléculas biologicamente ativas que possuem uma estrutura enredada única. Esse peptídeo é produzido pela bactéria Paenibacillus, encontrada em uma amostra de solo coletada em um jardim, e gera uma substância com forte atividade contra outras bactérias, incluindo aquelas resistentes a antibióticos.

Os cientistas tiveram uma abordagem diferente para encontrar essa bactéria, e por isso a descoberta é tão especial. Mas, para entender a particularidade do caso, vale uma breve retrospectiva sobre a descoberta dos antibióticos.

A era de ouro dos antibióticos

“Os antibióticos não são uma criação humana”, explica o professor Gueiros-Filho. Pelo contrário, eles são moléculas produzidas pelas próprias bactérias, desenvolvidas como uma arma para disputar espaço na natureza e matar o competidor. “Antibióticos, na verdade, tem uma origem natural: são instrumentos da guerra química das bactérias”.

Quando pesquisadores descobriram e aperfeiçoaram os conhecimentos sobre esses microorganismos, começou-se uma caça ao tesouro por parte de farmacêuticos procurando nos solos novas bactérias que pudessem produzir novos antibióticos. Esse período se estendeu dos anos 1950 a 1970 e ficou conhecido como a era de ouro dos antibióticos. Nessa época, apareceram a maioria dos antibióticos que usamos hoje em dia.

O processo funcionava – e funciona, ainda – mais ou menos assim: o cientista pega uma quantidade de terra de algum local e incentiva o crescimento das bactérias presentes para ver se elas produzem alguma substância que elimina suas concorrentes.

Acontece que, depois desse período, um declínio gradual na descoberta e no desenvolvimento de antibióticos e a evolução da resistência aos medicamentos em muitos patógenos humanos levaram à atual crise de resistência antimicrobiana. “É como se tudo que tinha para ser encontrado já tivesse sido descoberto”, disse o professor. “Por isso o novo estudo é especial: ele usa estratégias para encontrar coisas raras”.

Uma bactéria rara, por exemplo, seria aquela que se reproduz mais devagar do que as que formam colônias rapidamente. O trabalho de Wright buscava esses organismos mais lentinhos. Assim desenvolveram uma estratégia para encontrar bactérias que crescem em meio de cultivo no período de um ano, e encontraram: a Paenibacillus. “Foi a partir dessa bactéria que os pesquisadores encontraram um novo antibiótico”, explica Gueiros-Filho.

Como fármaco, a lariocidina atacaria as bactérias de maneira diferente dos demais antibióticos: não apenas inibiria a síntese de proteínas, mas também induziria erros de tradução, o que lhe confere um mecanismo duplo de ataque às bactérias. Além disso, não é tóxica para as células humanas, funciona em animais e não é suscetível aos mecanismos existentes de resistência a antibióticos.

“A descoberta inicial — o grande momento de ‘eureka!’ — foi impressionante para nós, mas agora o verdadeiro trabalho árduo começa”, diz Wright. “Estamos trabalhando para desmontar essa molécula e remontá-la para torná-la uma melhor candidata a medicamento.”

De acordo com Gueiros-Filho, a descoberta tem um benefício importante, afinal um novo antibiótico é uma coisa boa. Porém, o professor ressalta que, como qualquer outro antibiótico, surgirão bactérias também resistentes a ele.

Ainda deve demorar um bom tempo para que a lariocidina chegue ao mercado. A última classe de antibióticos, a daptomicina, foi descoberta em 1987, mas ela só foi comercializada 16 anos depois. Isso porque a fase clínica é longa e depende de diversos fatores, como a segurança e a eficiência do produto, fatores que levam tempo para analisar.

Mesmo assim, ainda é uma notícia digna de comemoração.

Fonte: abril

Sobre o autor

Avatar de Redação

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.