As bactérias são organismos que desempenham um papel importante nas interações com plantas e animais, estabelecendo relações que podem ser tanto benéficas quanto simbióticas.
É o caso, por exemplo, das bactérias que ajudam no metabolismo dos organismos hospedeiros e oferecem proteção contra doenças infecciosas causadas por outros microrganismos.
No entanto, também existem diversas espécies bacterianas patogênicas que podem causar doenças graves, como cólera, sífilis, antraz, hanseníase e peste bubônica. Essas infecções bacterianas frequentemente são tratadas com o uso de antibióticos, que ajudam a controlar a proliferação das bactérias no organismo e a prevenir complicações maiores.
O problema é que as bactérias são seres adaptáveis por natureza e transmitem informações genéticas para suas próximas gerações, permitindo que consigam driblar as barreiras dos medicamentos. Esse fenômeno é chamado de resistência antimicrobiana — ou RAM — e é uma das maiores ameaças globais à saúde pública, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Cerca de 4,5 milhões de pessoas morrem todos os anos devido a infecções resistentes a antibióticos, e isso só está piorando”, explica em comunicado Gerry Wright, professor do Departamento de Bioquímica e Ciências Biomédicas da Universidade McMaster (Canadá). Por isso, os antibióticos também precisam estar em constante mudança.
Wright integra o grupo de cientistas que pode ter descoberto um novo candidato a antibiótico que pode matar uma ampla gama de bactérias, incluindo aquelas resistentes aos medicamentos já existentes. Vamos entender mais sobre essa pesquisa.
Os antibióticos são organizados em classes — as mais comuns você já deve ter tomado, como a penicilina e a tetraciclina. A última vez que uma nova classe de antibióticos chegou às prateleiras das farmácias foi em 2003, com a daptomicina. Desde então, cientistas tentam encontrar novas formas de destruir patógenos em constante alteração.
Wright e um grupo de pesquisadores da Universidade McMaster identificaram uma nova molécula que desafiaria as bactérias mais resistentes conhecidas hoje em dia: a lariocidina. As descobertas foram publicadas na revista Nature no último dia 26.
“Tem sido muito raro encontrar moléculas que agem de maneira diferente”, diz Frederico Gueiros-Filho, professor associado do departamento de bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). “É uma descoberta valiosa porque essa molécula, que age de uma maneira diferente, vai funcionar contra bactérias que são resistentes aos antibióticos que já são usados”.
A lariocidina é um peptídeo lasso, moléculas biologicamente ativas que possuem uma estrutura enredada única. Esse peptídeo é produzido pela bactéria Paenibacillus, encontrada em uma amostra de solo coletada em um jardim, e gera uma substância com forte atividade contra outras bactérias, incluindo aquelas resistentes a antibióticos.
Os cientistas tiveram uma abordagem diferente para encontrar essa bactéria, e por isso a descoberta é tão especial. Mas, para entender a particularidade do caso, vale uma breve retrospectiva sobre a descoberta dos antibióticos.
A era de ouro dos antibióticos
“Os antibióticos não são uma criação humana”, explica o professor Gueiros-Filho. Pelo contrário, eles são moléculas produzidas pelas próprias bactérias, desenvolvidas como uma arma para disputar espaço na natureza e matar o competidor. “Antibióticos, na verdade, tem uma origem natural: são instrumentos da guerra química das bactérias”.
Quando pesquisadores descobriram e aperfeiçoaram os conhecimentos sobre esses microorganismos, começou-se uma caça ao tesouro por parte de farmacêuticos procurando nos solos novas bactérias que pudessem produzir novos antibióticos. Esse período se estendeu dos anos 1950 a 1970 e ficou conhecido como a era de ouro dos antibióticos. Nessa época, apareceram a maioria dos antibióticos que usamos hoje em dia.
O processo funcionava – e funciona, ainda – mais ou menos assim: o cientista pega uma quantidade de terra de algum local e incentiva o crescimento das bactérias presentes para ver se elas produzem alguma substância que elimina suas concorrentes.
Acontece que, depois desse período, um declínio gradual na descoberta e no desenvolvimento de antibióticos e a evolução da resistência aos medicamentos em muitos patógenos humanos levaram à atual crise de resistência antimicrobiana. “É como se tudo que tinha para ser encontrado já tivesse sido descoberto”, disse o professor. “Por isso o novo estudo é especial: ele usa estratégias para encontrar coisas raras”.
Uma bactéria rara, por exemplo, seria aquela que se reproduz mais devagar do que as que formam colônias rapidamente. O trabalho de Wright buscava esses organismos mais lentinhos. Assim desenvolveram uma estratégia para encontrar bactérias que crescem em meio de cultivo no período de um ano, e encontraram: a Paenibacillus. “Foi a partir dessa bactéria que os pesquisadores encontraram um novo antibiótico”, explica Gueiros-Filho.
Como fármaco, a lariocidina atacaria as bactérias de maneira diferente dos demais antibióticos: não apenas inibiria a síntese de proteínas, mas também induziria erros de tradução, o que lhe confere um mecanismo duplo de ataque às bactérias. Além disso, não é tóxica para as células humanas, funciona em animais e não é suscetível aos mecanismos existentes de resistência a antibióticos.
“A descoberta inicial — o grande momento de ‘eureka!’ — foi impressionante para nós, mas agora o verdadeiro trabalho árduo começa”, diz Wright. “Estamos trabalhando para desmontar essa molécula e remontá-la para torná-la uma melhor candidata a medicamento.”
De acordo com Gueiros-Filho, a descoberta tem um benefício importante, afinal um novo antibiótico é uma coisa boa. Porém, o professor ressalta que, como qualquer outro antibiótico, surgirão bactérias também resistentes a ele.
Ainda deve demorar um bom tempo para que a lariocidina chegue ao mercado. A última classe de antibióticos, a daptomicina, foi descoberta em 1987, mas ela só foi comercializada 16 anos depois. Isso porque a fase clínica é longa e depende de diversos fatores, como a segurança e a eficiência do produto, fatores que levam tempo para analisar.
Mesmo assim, ainda é uma notícia digna de comemoração.
Fonte: abril