Em 1998, um grupo de cientistas mapeou toda a rede de nervos do pênis humano. Os achados permitiam traçar as estruturas internas do órgão, informações anatômicas valiosas para cirurgias e tratamentos de doenças. Quase três décadas mais tarde, o feito se repete em uma das estruturas sexuais femininas, o clitóris.
Trata-se de um dos órgãos menos estudados do corpo humano – e não é à toa: responsável pelo prazer feminino, ele foi historicamente deixado de lado devido ao tabu histórico em torno da sexualidade feminina.
O mapeamento das terminações nervosas é importante para ampliar o conhecimento anatômico – tanto das pacientes, quanto dos médicos. Sem conhecer por onde passam os nervos numa região, é fácil danificá-los em procedimentos simples, por exemplo. Esse tipo de erro pode causar consequências no prazer sexual das pacientes que são pouco discutidas, mesmo nos livros de medicina. Além disso, o mapeamento produz informações especialmente úteis para cirurgias reconstrutivas após mutilação genital feminina.
As práticas de mutilação genital ainda ocorrem em 30 países da África, do Oriente Médio e da Ásia, segundo a OMS. Nesses contextos, jovens mulheres têm partes do clitóris e dos lábios vaginais mutilados, o que compromete seu prazer sexual e gera diversos problemas de saúde.
Agora um novo estudo, desenvolvido por pesquisadores de universidades do Reino Unido, França e Holanda, realizou pela primeira vez um mapeamento detalhado dos nervos desse órgão. O trabalho ainda não foi revisado por pares, mas foi pré-publicado no dia 20 de março no bioRxiv.
Com raios X de alta energia gerados por um síncrotron (um tipo de acelerador de partículas), os cientistas produziram imagens tridimensionais de duas pelves femininas doadas para pesquisa. A técnica permitiu visualizar, com um nível de detalhe inédito, os nervos internos do clitóris.
Assim, eles descobriram que muito do que se pensava sobre o órgão estava errado. O nervo dorsal do clitóris, principal responsável pela sensibilidade, se ramifica como uma árvore e não se limita à glande (a ponta do clitóris). Ele se estende ao monte pubiano (região acima da vulva) e ao capuz do clitóris.
Esse trajeto vai além das chamadas “zonas de risco” das cirurgias genitais – áreas com maior concentração de nervos e, portanto, mais delicadas para intervenção.
Além disso, observou-se que o nervo dorsal do clitóris não diminui de espessura conforme se aproxima da glande. Ao contrário, ele mantém ramificações fortes nessa região.
Já o nervo labial posterior, responsável por inervar os lábios vaginais, se estende para regiões ao redor do clitóris, sendo mais complexo do que se sabia.
Entendendo as imagens
Uma das imagens mostra uma visão panorâmica do clitóris, com a trajetória do nervo dorsal, o percurso da rede venosa (responsável pela vascularização) e a posição dos corpos cavernosos e esponjosos, tecidos eréteis que se enchem de sangue durante a excitação sexual. Se reparar bem, na pontinha há um tom de cinza translúcido, que representa a glande – a única parte externa e visível do clitóris.

O vídeo detalha o percurso dos nervos no interior da glande, revelando suas ramificações. Os maiores “troncos” observados tinham entre cerca de 0,2 e 0,7 milímetro de diâmetro. Foi com base nessas imagens que os pesquisadores mostraram que o nervo dorsal não afina ao longo do trajeto.

Encontrar e mapear as ramificações anatômicas é um passo importante – e, com o perdão do trocadilho, pode provocar ramificações por várias outras áreas da saúde. Já de início, urologia, ginecologia, obstetrícia e ortopedia poderão se beneficiar de conhecer melhor a estrutura que está no centro de metade dos corpos humanos do mundo.
Fonte: abril





