Ciência & Saúde

Cães têm um senso de localização mais apurado do que de cor ou forma quando reconhecem objetos

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Há uma diferença fundamental entre a cognição de crianças humanas e de cachorros (ainda que, muitas vezes, eles pareçam idênticos em seu apego a brinquedos, rs): quando você aponta uma bola, os bebês sabem se tratar de um objeto que está a uma certa distância, enquanto os cães, em geral, entendem a mão da pessoa como instrução sobre em qual direção eles devem andar.

Escrevemos “em geral” porque essas características são o que os cientistas cognitivos denominam vieses, e não verdades constantes. Ou seja: os cachorros também conseguem navegar o mundo em termos de objetos, e não de direções. É só que, nesse caso, o aprendizado é mais lento e menos intuitivo. 

Um estudo com 82 peludos publicado por pesquisadores da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, não só comprovou a dificuldade canina com o conceito de objeto como descobriu que ela é um ó indicador de inteligência: cãezinhos mais espertos, em geral, também tem uma concepção de objeto mais parecida com a humana. O artigo científico foi publicado no periódico Ethology, especializado em comportamento animal. 

Essa não é uma boa curiosidade sobre pets: também é um passo importante para entender como se deu a evolução da inteligência ímpar exibida pelo ser humano, e em quais aspectos cruciais a nossa cognição difere da de outros animais.  

O artigo chegou, ainda, a uma outra conclusão inédita. Não se sabia antes se a preferência dos cães era resultado de uma limitação sensorial (eles enxergam muito mal em comparação a nós, do mesmo jeito que cheiramos pior do que eles) ou de um viés no processamento de informações no cérebro (ou seja: se a orientação espacial tem preferência sobre o processamento de objetos individualmente).

 

Calhou que é um pouco de cada coisa. Por um lado, cães com visão mais acurada são, de fato, melhores em discernir objetos – o que significa que o viés é parcialmente sensorial. (Não que eles tenham ido ao oftalmologista para testar, claro. Sabemos se um cachorro enxerga melhor ou não graças a um indicador peculiar: o comprimento do focinho. Os pets de cara achatada vêem melhor que os de cara comprida, porque a mesma alteração anatômica que mexe com a forma do crânio interfere na retina.)

Por outro lado, também há algo no cérebro em si. Em um dos experimentos, cada cachorro teve, no máximo, 50 tentativas para aprender em qual estava um – o prato da direita ou o prato da esquerda. Os dois pratos eram idênticos, ou seja: não havia nenhuma diferença entre os objetos em si, toda a distinção dizia respeito à posição deles no espaço. Nesse teste, como era de se esperar, os cachorros – mesmo os mais burrinhos (rs) – aprenderam a correr diretamente para o prato correto após poucas tentativas. 

Depois, passaram a haver dois pratos: um branco e redondo, outro preto e quadrado. O petisco sempre estava em apenas um deles. Mas os pratos mudavam de posição. Nessa situação, o cachorro não pode mais contar com a orientação espacial para obter comida: ele precisa reconhecer qual objeto costuma contê-la, independentemente de onde ele estiver. 

Nessa versão adaptada, os cachorros mais inteligentes aprendiam a usar o pote certo mais rápido, independentemente do tamanho do focinho. Ou seja: não há apenas acuidade visual em jogo; também existem diferenças em como o cérebro de cada cãozinho processa as informações colhidas do ambiente. 

Essas descobertas são fascinantes porque se acredita que um processo importante no cognitivo de uma criança seja a transição da compreensão do mundo só em termos de direções para a compreensão também em termos de objetos. A capacidade de isolar coisas de seu entorno (saber onde termina uma árvore ou uma casa e onde começa o chão, por exemplo), está na base da capacidade humana de relacionar sequências de sons a objetos – as palavras. 

E no campo mais prático, fica a dica: se o seu cachorro não é nenhum Einstein, talvez seja uma boa deixar o banheiro sempre no mesmo lugar. É possível que ele não reconheça exatamente o , e sim o caminho que ele deve percorrer até o local em que o jornal está.  

Fonte: abril

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