No último dia 31 de julho, Chapada dos Guimarães completou 275 anos de uma trajetória tão fascinante quanto as paisagens que a emolduram.
Situada a mais de 800 metros de altitude e a pouco mais de 60 quilômetros da capital, Cuiabá, a cidade que hoje atrai milhares de visitantes em busca de clima ameno, cachoeiras e paredes de rocha canga guarda, em suas fundações, episódios marcados pelo desafio ao poder colonial, lutas territoriais e ciclos de superação.
A gênese clandestina: caça a perdizes e plantações proibidas
A história do povoamento da serra começou logo após a chegada do bandeirante paulista Pascoal Moreira Cabral à região de Cuiabá, em 1718. Em 1720, Antônio de Almeida Lara, integrante da bandeira paulista, subiu a serra de Chapada sob o pretexto de “caçar perdizes”. Na verdade, Lara buscava terras propícias para instalar uma propriedade rural longe dos olhos das autoridades portuguesas.
Na época, as Cortes de Portugal proibiam a abertura de fazendas em áreas de garimpo. O temor da Coroa era duplo: evitar que os trabalhadores trocassem as minas pela agricultura — o que reduziria a arrecadação do quinto do ouro — e impedir a concorrência com o monopólio das “monções”, expedições fluviais que vendiam alimentos e insumos a preços abusivos aos garimpeiros.
Contando com a complacência do então governador de São Paulo, Rodrigo Cesar de Menezes, Lara fundou a Fazenda Burity Monjolinho — primeira propriedade de cana-de-açúcar de Mato Grosso, localizada onde hoje funciona a histórica Escola Evangélica de Burity. A cachaça ali produzida tornou-se remédio e alento para a população garimpeira, frequentemente castigada pela malária e por epidemias.
Isolamento, rotas de fuga e a chegada do gado
Entre 1731 e 1737, uma aliança entre os índios Paiaguás e Guaicurús bloqueou a navegação pelo Rio Paraguai, cortando o abastecimento das monções. O povoamento de Cuiabá e Chapada sobreviveu graças às lavouras “clandestinas” da serra.
Para romper o isolamento, os colonizadores desobedeceram novamente as ordens reais e abriram a primeira rota terrestre ligando Cuiabá a Goiás Velho, passando por Chapada dos Guimarães. O caminho permitiu a introdução das primeiras cabeças de gado vacum na região. Por segurança contra os frequentes ataques indígenas da época, a pequena vila original foi inteiramente cercada por muros de pedra canga.
De “Chapada de Santana” a “Guimarães”
Em 1751, com o desmembramento de Mato Grosso da Capitania de São Paulo e o envio do primeiro governador português acompanhado por Jesuítas, foi criada a missão de Aldeia Velha, sob o comando do Padre Estevão de Castro. A primeira capela, coberta de palha, homenageava Nossa Senhora de Santana do Sacramento.
Após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, em 1759, o povoado ficou abandonado até 1778, quando o juiz de fora Dr. José Carlos Pereira ergueu uma nova e suntuosa igreja em taipa de pilão — a atual Igreja de Nossa Senhora de Santana, inaugurada em julho de 1779.
Já em 1782, por determinação legal para distanciar a toponímia das terras de domínio espanhol, o povoado deixou de ser “Chapada de Santana” e adotou o nome Guimarães, em homenagem à histórica cidade do norte de Portugal. O complemento “dos Guimarães” viria apenas no século XX.
Crises, recomeço e a chegada da Missão Evangélica
O século XIX trouxe prosperidade com os engenhos que abasteciam a região e comercializavam com o território espanhol. No entanto, o pós-Guerra do Paraguai e a epidemia de varíola devastaram quase um terço dos habitantes. Com a abolição da escravidão em 1888, a economia local colapsou, e Chapada entrou no século XX com apenas 10% da sua população original.
A virada começou em 1923, quando missionários presbiterianos norte-americanos adquiriram a antiga Fazenda Buriti e fundaram a Escola Evangélica do Buriti. O colégio agrícola em regime de internato tornou-se referência na formação de jovens para a vida no campo em todo o Brasil Central.
Na década de 1960, Chapada chegou a ostentar o título de maior município do mundo em extensão territorial, com mais de 204 mil km² (área superior à da Alemanha pré-unificação), estendendo-se até a Serra do Cachimbo, na divisa com o Pará — território que mais tarde seria desmembrado em novos municípios.
O despertar do gigante turístico do Centro-Oeste
A pavimentação da rodovia que liga Cuiabá à serra nos anos 1970 conectou Chapada ao mapa do turismo nacional. O pequeno povoado de mil habitantes deu lugar a um próspero município de cerca de 18 mil moradores que, todos os fins de semana, chega a receber mais de quatro mil visitantes em busca de seu clima frio e de sua riqueza ecológica.
Segunda cidade mais alta de Mato Grosso (811 metros de altitude), Chapada dos Guimarães ostenta um recorde histórico: em 18 de julho de 1975, cravou -4,0°C, uma das menores temperaturas já registradas na história do estado.
O mosaico de atrativos de Chapada dos Guimarães
O município reúne um acervo natural e cultural impressionante que justifica seu título de capital do ecoturismo mato-grossense:
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Patrimônio Natural: 3.300 km² de Parque Nacional, 2.518 km² de Área de Proteção Ambiental (APA), duas Reservas Estaduais e dois Parques Municipais.
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Recursos Hídricos: 59 nascentes e 487 cachoeiras catalogadas.
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Geologia e História: 157 km de paredões rochosos, 46 sítios arqueológicos e 2 sítios paleontológicos.
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Cultura e Arquitetura: 42 imóveis tombados pelo IPHAN e 38 espécies de fauna e flora endêmicas.
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Artesanato Vivo: Tradicional feira de artesãos na praça central de terça a domingo, com projeto em debate para a criação da futura “Rua do Artesanato”.
Celebrar os 275 anos de Chapada dos Guimarães é reconhecer o papel crucial de uma cidade que soube reinventar sua própria identidade: da audácia dos que desafiaram a Coroa em busca do solo fértil ao orgulho de ser o refúgio verde, cultural e histórico do coração do Brasil.
Fonte: cenariomt





