Saúde

Brasil: De Vasos de Avós a Centro Global de Orquídeas – Estudo Revela Transformação

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026 word1



  • As orquídeas são um dos símbolos mais populares da botânica, sobretudo no Brasil. Estão em vasos de sala das avós, coleções de jardinagem e também no alto de árvores em florestas tropicais. Mas essa família de plantas, hoje associada a flores grandes e exuberantes, começou de um jeito bem mais discreto.

    Estudos genéticos sugerem que as primeiras orquídeas surgiram há cerca de 83 milhões de anos e tinham flores pequenas, mais parecidas com as da cebola. Eram plantas que viviam no chão, à sombra de florestas temperadas no hemisfério Norte.

    A origem, portanto, não foi no nosso país. Ainda assim, foi aqui que essa linhagem antiga encontrou alguns dos ambientes mais favoráveis do planeta para se multiplicar em espécies.

    Siga

    Uma revisão publicada na revista Plants ajuda a entender como isso aconteceu. Liderado por Edlley Max Pessoa, professor adjunto da Universidade Federal do ABC (UFABC), o trabalho reuniu 43 pesquisadores de diferentes regiões do País para organizar quase quatro séculos de estudos sobre orquídeas brasileiras.

    “A ideia desse trabalho é devolver esse conhecimento para os brasileiros, especialmente para quem é apaixonado por orquídeas”, afirma Pessoa à Super.

    Diversificação recente

    Apesar de serem antigas, a variedade de formas de orquídeas que existe hoje se consolidou muito mais tarde. Boa parte dessa “explosão” de espécies ocorreu nos últimos 5 milhões de anos, quando diferentes linhagens passaram a se diversificar rapidamente nos trópicos.

    A América Central aparece como uma das regiões onde esse processo foi mais intenso, porque o surgimento de cadeias montanhosas separou populações em altitudes distintas. Esse isolamento reduziu o cruzamento entre elas e favoreceu o surgimento de novas espécies adaptadas a condições específicas de clima e altitude.

    Essa capacidade de adaptação ajudou as orquídeas a se espalhar por quase todo o planeta, com exceção das regiões mais extremas, como desertos muito secos e áreas polares. Hoje, elas formam uma das maiores famílias de plantas com flores do mundo, com algo entre 28 mil e 31 mil espécies descritas globalmente.

    No Brasil, os números impressionam. Segundo a revisão da Plants, o país tem 2.515 espécies de orquídeas consideradas válidas pela ciência, distribuídas em 202 gêneros nativos.

    Destas, cerca de 1.540 são endêmicas, isto é, não existem em nenhum outro lugar do mundo. Isso coloca o Brasil como o segundo país com mais espécies exclusivas de orquídeas, atrás apenas do Equador.

    Uma história tardia

    Pessoa conta que a primeira orquídea associada ao território brasileiro aparece em registros do início do século 17, durante a ocupação holandesa no Nordeste. Coletada por volta de 1600, a planta foi incluída no herbário Edelstir, um dos mais antigos do mundo. A descrição científica formal, porém, só ocorreria no século 19.

    Depois desse registro inicial, o país passou quase 200 anos praticamente fechado à pesquisa científica estrangeira. Entre meados do século 17 e o início do 19, nenhuma nova orquídea foi oficialmente coletada em território brasileiro. “Do ponto de vista da ciência europeia, o Brasil parecia abrigar apenas uma única espécie conhecida”, afirma o pesquisador. 

    Nesse intervalo, a principal exceção foi o naturalista brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira, enviado pela Coroa portuguesa à Amazônia no fim do século 18. Ele coletou plantas, animais e produziu aquarelas detalhadas, incluindo orquídeas. As plantas físicas levadas para Portugal se perderam ao longo do tempo, especialmente após as invasões napoleônicas; apenas um exemplar sobrevive hoje no herbário de Paris.

    O que restou de forma mais consistente foram cerca de 12 ilustrações de orquídeas, hoje preservadas em acervos internacionais e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

    Ilustração de uma Orquídea.
    Uma das aquarelas feita por Alexandre Rodrigues Ferreira.Alexandre Rodrigues Ferreira (Biblioteca Nacional/Reprodução)

    A virada ocorreu no início do século 19, com a chegada da corte portuguesa ao Brasil e a abertura dos portos, em 1808. A partir desse momento, coletores passam a atuar regularmente no país. 

    Por volta de 1822, surgem as primeiras orquídeas descritas oficialmente com base em material brasileiro, ambas de Pernambuco. “Uma é um Oncidium, conhecido como chuva-de-ouro, e a outra é uma Cattleya labiata, uma das plantas mais famosas do Brasil, com flores grandes e rosadas”, diz Pessoa.

    A descrição sistemática se consolidou com o trabalho de João Barbosa Rodrigues, responsável por 541 espécies novas. Esse esforço se refletiu no projeto Flora Brasiliensis, financiado pela imperatriz Maria Leopoldina, que registrou 1.795 espécies associadas ao Brasil. 

    Após o encerramento do projeto, em 1906, os estudos entraram em um período de menor atividade. Só décadas depois surgiu a revisão do botânico Guido Pabst, que reconheceu 2.356 espécies, número próximo das estimativas atuais.

    Distribuição no Brasil

    As orquídeas brasileiras vêm de muitos “ramos” diferentes da história evolutiva do grupo. Entre os biomas, a Mata Atlântica é o principal centro de diversidade. Ela reúne 1.398 espécies, mais da metade de todas as orquídeas registradas no Brasil. Destas, 964 só existem ali.

    A explicação está na variedade de paisagens. Ao longo de milhares de quilômetros, a Mata Atlântica combina diferenças de clima, altitude, chuvas e solo. Isso cria muitos nichos ecológicos, onde espécies diferentes conseguem se especializar.

    A maioria vive como epífita, ou seja, cresce sobre troncos e galhos de árvores, sem parasitar a planta hospedeira. Cada árvore funciona como um conjunto de microambientes, do tronco sombreado à copa mais iluminada.

    O problema é que a Mata Atlântica também é o bioma mais degradado do país. Restam cerca de 11% de sua cobertura original, geralmente em fragmentos pequenos e isolados. Isso afeta diretamente as orquídeas, principalmente as que dependem de árvores grandes e maduras para se fixar e se reproduzir. Com menos floresta, sobra menos espaço adequado, as populações ficam mais separadas e o risco de extinção aumenta.

    Já a Amazônia tem 784 espécies registradas, o que é menos do que a Mata Atlântica, apesar de ser muito maior em área. O estudo sugere duas explicações principais para isso: diferenças naturais entre as florestas e a falta de pesquisa em muitas regiões.

    Uma parcela importante das orquídeas amazônicas vive no alto das árvores, a dezenas de metros do chão, o que dificulta a coleta. Por isso, os autores alertam que a diversidade real da Amazônia pode ser maior do que os números indicam hoje.

    No Cerrado, o levantamento contabiliza 656 espécies. Ali, muitas orquídeas vivem no solo ou em áreas mais abertas, enfrentando seca, calor e solos pobres. Esse ambiente exige adaptações diferentes das florestas úmidas e ajuda a explicar por que o Brasil reúne orquídeas tão diversas, em formas de vida muito distintas.

    O estudo também traz dados para a Caatinga (146 espécies), o Pantanal (87) e o Pampa (78), biomas menos diversos em orquídeas e ainda pouco estudados, mostra a revisão.

    O que falta saber

    Segundo Pessoa, ainda falta muito para entender esse grupo por completo. Um sinal disso é a confusão histórica de nomes: quase 10 mil nomes científicos já foram usados para orquídeas no Brasil, mas a maior parte acabou descartada ou reunida, após revisões, em um número menor de espécies aceitas.

    Isso ocorre porque a mesma planta pode ter sido descrita mais de uma vez ou porque análises posteriores mostram que duas “espécies” eram, na verdade, a mesma.

    Mesmo em temas populares, como polinização, há grandes lacunas. De acordo com a revisão, estudos completos que acompanham tanto o modo de reprodução quanto os polinizadores reais na natureza existem para apenas 134 espécies brasileiras.

    Essa falta de informação é preocupante porque as orquídeas exibem estratégias reprodutivas complexas. Cerca de 60% das espécies enganam seus polinizadores, imitando flores que oferecem néctar ou outras recompensas. O inseto não encontra o que procura, mas acaba transportando o pólen. 

    Em outros casos, a relação é altamente especializada, como nas catacetíneas. Essas orquídeas são polinizadas exclusivamente por machos de abelhas-das-orquídeas, as euglossinas, que coletam fragrâncias para rituais de acasalamento, não alimento.

    Sem esse tipo de informação, fica mais difícil prever como as orquídeas vão reagir às mudanças climáticas, à perda de florestas e ao declínio de insetos polinizadores.

    Na conservação, o cenário é semelhante. Dados compilados no artigo mostram que apenas 447 espécies brasileiras foram avaliadas oficialmente quanto ao risco de extinção, e 211 já aparecem em alguma categoria de ameaça. Ou seja, a maioria ainda nem sequer foi analisada formalmente.

    E, apesar da enorme diversidade nativa, a maior parte das orquídeas vendidas no Brasil é de origem asiática. Para Pessoa, incentivar o cultivo de espécies brasileiras poderia reduzir o tráfico ilegal, fortalecer produtores locais e contribuir diretamente para a conservação.

    Fonte: abril

    Sobre o autor

    Avatar de Redação

    Redação

    Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.