Em todo o reino animal, ter filhotes requer um grande esforço físico e metabólico das mães. No caso dos mamíferos vivíparos (que geram o filhote dentro do corpo), primeiro vem a gestação, período em que o organismo trabalha intensamente para formar o bebê. Depois do parto, o esforço ainda não acaba: é seguido pela amamentação, durante a qual a fêmea produz um leite riquíssimo em nutrientes, capaz de sustentar o crescimento dos filhotes.
Esse é o caso da baleia-franca-austral, conhecida pelas protuberâncias brancas na cabeça, chamadas calosidades. As fêmeas grávidas passam o verão na Antártica se alimentando intensamente para acumular reservas de energia. Depois, viajam para o norte, chegando às águas mais quentes da Argentina, Austrália, Brasil e África do Sul, onde dão à luz e criam os filhotes. Durante esse período, permanecem em jejum, sobrevivendo apenas das reservas acumuladas.
Uma nova pesquisa, publicada em julho no periódico científico Mammalian Biology, estudou esses animais e descobriu um comportamento curioso de algumas mães de baleia-franca-austral: elas flutuam periodicamente de barriga para cima. A principal hipótese é que essa posição funcione como uma forma de fazer uma pausa na amamentação.
“Até onde sabemos, esse comportamento não foi registrado em nenhuma outra espécie de baleia de grande porte”, afirma Renae van Noort, uma das autoras do estudo, em comunicado.
Nessa posição, elas ficam com a barriga voltada para cima, a cabeça para baixo, as nadadeiras erguidas e os espiráculos (estruturas usadas para respirar) submersos. Em compensação, as fendas mamárias ficam acima da água, impedindo que os filhotes consigam mamar.
Para desvendar esse comportamento, os pesquisadores utilizaram drones para acompanhar 59 pares de mães e filhotes na baía de Head of Bight, na Austrália. Após analisar mais de 75 horas de filmagens, perceberam que as mães passavam cerca de 33% do tempo descansando. Os filhotes, porém, não acompanhavam esse ritmo e repousavam por apenas 13% do tempo.
Isso ocorre devido à fisiologia das mães durante a criação dos filhotes. Ao mesmo tempo que permanecem em jejum, seus organismos trabalham intensamente para produzir leite. Por isso, precisam descansar o máximo possível para poupar energia. Durante essa temporada, elas podem perder cerca de um quarto do peso corporal.
Curiosamente, cerca de 25% das mães observadas descansavam de barriga para cima em alguns momentos. Os cientistas analisaram esse comportamento mais a fundo e perceberam que ele ocorria majoritariamente durante o período de lactação. Além disso, quanto mais tempo as baleias permaneciam nessa posição, menos tempo os filhotes conseguiam mamar.
Ou seja, o comportamento provavelmente funciona como uma estratégia de economia de energia. Ao limitar temporariamente a amamentação, as mães preservam parte de suas reservas energéticas. Ainda não está claro, porém, por que esse comportamento ocorre apenas em algumas delas.

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Outra hipótese levantada pelos pesquisadores é que as baleias virem de barriga para cima para ajudar na regulação da temperatura corporal, aumentando a exposição à brisa e ao ar.
A sobrevivência da baleia-franca-austral
A caça predatória quase provocou a extinção da espécie entre os séculos XIX e XX. A população começou a se recuperar a partir da década de 1980 e hoje é estimada em cerca de 12 mil a 15 mil indivíduos.
Mas isso não significa que a espécie esteja livre de ameaças. Ela ainda enfrenta problemas como poluição química, emalhamento em redes de pesca, mudanças climáticas e colisões com embarcações – e esse é um dos pontos de atenção destacados pelo estudo.
Quando as mães ficam de barriga para cima, tornam-se mais vulneráveis a colisões com barcos. Isso acontece porque elas precisam primeiro girar o corpo para a posição normal, emergir para respirar e só então conseguem nadar para fugir.
Na baía de Head of Bight, na Austrália, a navegação é proibida durante a temporada reprodutiva das baleias. Em outras regiões, porém, não há normas desse tipo. Por isso, os pesquisadores reforçam a necessidade de medidas de proteção à espécie e recomendam que embarcações mantenham distância e reduzam a velocidade sempre que houver baleias nas proximidades.
Fonte: abril





