Mundo

Avanços e Impasses dos EUA no Conflito com o Irã Após um Mês de Guerra

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026

Ao atacar o Irã ao lado de Israel em 28 de fevereiro, os Estados Unidos justificaram a ofensiva como um esforço para enfraquecer o poderio militar iraniano, conter seu programa nuclear e reforçar a segurança dos aliados no Oriente Médio. Um mês depois, americanos e israelenses somam avanços no campo de batalha, mas ainda lidam com impasses estratégicos, econômicos e políticos que dificultam a definição de um desfecho para a guerra.

Do ponto de vista militar, autoridades dos EUA afirmam que a campanha aérea em curso conseguiu degradar significativamente a estrutura de defesa do Irã. Segundo o Pentágono, mais de 80% dos lançadores de mísseis do regime islâmico já foram destruídos, reduzindo em aproximadamente 90% a capacidade de lançamento de mísseis balísticos do Irã.

O Comando Central dos EUA (Centcom), que lidera as operações em curso no Oriente Médio, informou que mais de 90% das maiores embarcações da Marinha do Irã foram destruídas ou danificadas.

A ofensiva também atingiu mais de 10 mil alvos no Irã – entre eles diversas instalações industriais – e eliminou figuras centrais do alto escalão político e militar do regime, como o líder supremo Ali Khamenei e o então chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani. Além disso, os EUA também estabeleceram superioridade aérea em partes do território iraniano.

Neste mês de guerra, 13 militares americanos morreram e 303 ficaram feridos em combate, segundo o Comando Central dos EUA (Centcom). Em Israel, ataques do Irã já deixaram 18 mortos, de acordo com levantamento do jornal Times of Israel. Já no Irã, ao menos 3,3 mil pessoas – entre civis, militares e autoridades – morreram em decorrência dos bombardeios de EUA e Israel, conforme dados da organização Human Rights Activists in Iran (HRANA), sediada em solo americano.

Apesar das perdas militares e de lideranças, o Irã continua operando. O regime ainda realiza ataques com mísseis e drones contra Israel e aliados dos EUA no Oriente Médio, também contra bases americanas fora da região, e mantém ações contra a infraestrutura energética de países do Golfo, que abastecem boa parte do mundo.

Além disso, o Irã tem preservado sua capacidade de bloquear o Estreito de Ormuz, a rota estratégica responsável pela passagem de cerca de 20% do petróleo mundial. Analistas afirmam que, diante deste cenário, ainda não é possível cravar uma vitória dos EUA e de Israel na guerra.

Para o professor de Direito Internacional do Centro Universitário FAPI Cássio Eduardo Zen, a capacidade de reação iraniana, especialmente o bloqueio do Estreito de Ormuz, amplia o poder de barganha do regime islâmico e mostra que o conflito ainda está longe de ser encerrado.

A continuidade dos ataques iranianos evidencia os limites da estratégia adotada por Estados Unidos e Israel nesta guerra. Segundo a doutora em Relações Internacionais Bárbara Neves, coordenadora de internacionalização da Universidade Positivo (UP), o uso de poder aéreo tem sido eficaz para impor custos e desgastar capacidades específicas do regime islâmico, mas não foi suficiente para alterar de forma decisiva o comportamento do Irã.

O professor de Direito Internacional e diretor do Ibmec Brasília Ricardo Caichiolo afirma que, enquanto o Irã tiver meios para realizar ataques surpresa com armas mais baratas, como drones, conseguirá prolongar a guerra e desgastar os recursos americanos, impedindo um desfecho militar claro.

Bloqueio de Ormuz é principal ponto de pressão do Irã

O Irã tem utilizado a ameaça de ataques contra navios na rota estratégica como forma de impedir a passagem de embarcações pela região e elevar o custo econômico da guerra para os Estados Unidos, Israel e todos os seus aliados. Ao manter o Estreito de Ormuz sob risco, Teerã pressiona diretamente o mercado global de energia.

Desde o início da guerra, o petróleo já acumulou alta de mais de 70%, pressionando países a tomar medidas para conter os preços da energia. Além disso, o regime intensificou ameaças contra instalações energéticas no Golfo, ampliando o risco regional. Diversas cadeias de abastecimento estão sendo afetadas.

Durante este período, para tentar conter a crise do petróleo, os EUA e aliados decidiram liberar milhões de barris de petróleo de suas reservas estratégicas, tentando conter a escalada dos preços. Os EUA também flexibilizaram temporariamente sanções contra o petróleo russo e iraniano embarcado.

Para o professor Zen, o impasse envolvendo a rota estratégica se tornou o principal ponto de pressão da guerra. “Do ponto de vista do Irã, ficou claro que, mesmo com limitações em sua Marinha, eles ainda conseguem bloquear ou tornar extremamente arriscado o trânsito na região, o que impacta diretamente a economia global”, afirmou.

Dessa maneira, a reabertura do Estreito de Ormuz passou a ser uma prioridade estratégica para os Estados Unidos. Na avaliação do especialista, garantir o fluxo de petróleo e conter os impactos econômicos da guerra permitiria ao presidente Donald Trump apresentar esse resultado como uma conquista concreta no conflito.

EUA avaliam envio de tropas para operações em solo

Nos últimos dias, o Pentágono enviou para o Oriente Médio mais de 2 mil fuzileiros navais e mais de 3 mil soldados da 82ª Divisão Aerotransportada, força de elite do Exército dos Estados Unidos especializada em resposta rápida e operações em zonas de conflito. Também foi noticiado nesta sexta-feira (27) que o Pentágono avalia enviar outros 10 mil soldados americanos para a região.

Com os novos deslocamentos, o contingente militar dos EUA na região já ultrapassaria 50 mil soldados, além de incluir também mais navios de guerra, unidades anfíbias e apoio aéreo. Segundo autoridades ouvidas pela imprensa americana, o objetivo dessa medida é ampliar a capacidade operacional dos EUA e preparar o terreno para possíveis cenários futuros.

Embora o presidente Trump tenha afirmado que não pretende realizar uma invasão terrestre em larga escala no Irã, o envio de tropas para o Oriente Médio indica que essa opção não está totalmente descartada.

A analista Bárbara Neves avalia que uma invasão terrestre ao Irã envolveria riscos elevados, potencial de escalada regional e alto custo político doméstico para o governo de Donald Trump. “Apesar das ameaças e da retórica mais dura, o cenário mais provável é a continuidade de uma estratégia de contenção militar limitada, combinada com pressão política e econômica, e não uma invasão em larga escala”, disse.

Por outro lado, uma estratégia baseada exclusivamente em bombardeios aéreos apresenta limitações. O emprego de tropas em solo, como forças especiais, poderia ocorrer com o objetivo de proteger o Estreito de Ormuz e garantir a passagem de navios petroleiros, segundo avaliação do especialista em Oriente Médio Gabriel Schorr, ex-soldado das Forças de Defesa de Israel (FDI).

Uma das ações que vêm sendo estudadas pelo Pentágono é a tomada ou o bloqueio da ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo do país.

Negociações com o Irã estão em andamento

Nesta semana, os Estados Unidos enviaram ao Irã um plano de cessar-fogo estruturado em 15 pontos, por meio de intermediários como o Paquistão. A proposta inclui restrições ao programa nuclear iraniano, mecanismos para reabrir o Estreito de Ormuz e possíveis flexibilizações de sanções.

Trump afirmou na terça-feira (24) que já há “pontos importantes de concordância” nas negociações em curso e chegou a mencionar uma possível “resolução total” do conflito. Segundo ele, o secretário de Estado, Marco Rubio, e o vice-presidente, J.D. Vance, estão diretamente envolvidos nas conversas com representantes iranianos.

O Irã, no entanto, já rejeitou os termos iniciais do plano americano e apresentou uma contraproposta, condicionando qualquer acordo ao fim total das hostilidades, garantias de que não haverá novos ataques e pagamento de reparações pelos danos causados durante o conflito.

Segundo Bárbara Neves, o cenário mais realista para o fim da guerra em curso passa por uma saída política que reduza os custos do conflito, já que o desgaste político interno que a guerra impõe a Trump limita a margem de manobra do governo americano nas negociações.

Na avaliação da analista, o desfecho da guerra deve ocorrer sem mudança de regime no Irã e sem uma derrota explícita de nenhuma das partes, em um cenário que ela define como “uma acomodação pragmática que permita aos EUA reduzir seu envolvimento direto e apresentar o conflito como ‘contido’, mesmo sem resolver todas as tensões estruturais da região.”

O custo político e econômico da guerra para Trump nos EUA

A decisão de iniciar o conflito contra o Irã gerou impactos políticos negativos para o presidente Trump, tanto no cenário geral interno dos EUA quanto na base eleitoral republicana.

O custo direto da guerra já ultrapassa US$ 20 bilhões (cerca de R$ 104,6 bilhões), segundo estimativas baseadas em dados do governo e de centros de análise. Além disso, a Casa Branca deve solicitar ao Congresso um novo pacote de mais de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1,4 trilhão) para financiar a continuidade das operações militares.

Ao mesmo tempo, o impacto econômico começa a atingir diretamente o cidadão americano, a poucos meses das eleições de meio de mandato, que devem definir o controle do Senado e Câmara dos EUA. Desde o início do conflito, os preços da gasolina subiram cerca de 30%, pressionando o custo de vida e ampliando o desgaste político do governo.

A guerra também expôs divisões dentro do próprio campo conservador. Parte da base ligada ao movimento “Make America Great Again” (MAGA), de Trump, passou a questionar o envolvimento dos Estados Unidos em mais um conflito no Oriente Médio, enquanto pesquisas indicam que a maioria dos americanos desaprova a condução da guerra.

Fonte: gazetadopovo

Sobre o autor

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.