“A Odisseia”, o novo longa de Christopher Nolan, é a mais nova adaptação do poema épico de Homero, uma das histórias mais antigas e conhecidas da humanidade. Na trama, o herói Odisseu, rei de Ítaca, passa dez anos tentando voltar para a casa após a vitória na guerra de Tróia.
Partes do lendário conflito entre gregos e troianos são narradas tanto na Odisseia como na Ilíada, o outro grande poema épico homérico. Outras histórias sobre esse evento, conhecidas coletivamente como Ciclo Épico, existiam durante a Grécia Antiga, mas hoje só restam fragmentos destes outros poemas.
A história sobre a Guerra de Troia circulou de forma oral por, provavelmente, séculos até ser registrada por Homero, no século 8 a.C. Hoje, há um debate sobre se Homero de fato existiu – é possível que ele tenha sido uma pessoa específica ou o nome usado por um grupo de escritores diferentes. De qualquer modo, quando os poemas nascem, a história já era antiga. A Guerra de Troia, segundo a narrativa, aconteceu por volta de 1.200 a.C.; a Ilíada e a Odisseia, por sua vez, foram escritas cerca de 500 anos depois.
Segundo a lenda, a guerra começou quando Paris, um príncipe da cidade de Troia, sequestrou Helena, a mulher mais bonita do mundo e esposa de Menelau, rei de Esparta. (Em outra versão, Helena foge com Paris por vontade própria.) Os gregos, que viviam em reinos independentes, então se juntam numa aliança para invadir Troia e resgatar Helena.
O exército grego conta com heróis como Aquiles e o próprio Odisseu, rei de Ítaca, sob o comando central de Agamenon, o rei de Micenas.
Troia, uma cidade murada, resiste aos ataques dos gregos; um cerco de dez anos se segue. A guerra só tem fim com o famoso truque do Cavalo de Troia, que leva guerreiros gregos escondidos para o lado de dentro da cidade. Com a artimanha, os micênicos vencem o conflito, resgatam Helena e destroem Troia.
As narrativas troianas são repletas de elementos mágicos e mitológicos – os deuses do Olimpo são personagens frequentes, que chegam a interferir diretamente na guerra. Obviamente, são obras de ficção. Mas teriam elas sido inspiradas em eventos reais?
Troia realmente existiu?
Na Grécia Antiga, os poemas eram interpretados como narrativas fantásticas, mas baseadas na vida real. A Guerra de Troia, então, teria sim acontecido, e sua história ficou imortalizada nos épicos homéricos.
Essa posição continuou até a Idade Média (a Odisseia e a Ilíada foram obras lidas ao longo de toda a história). Mas a opinião mudou na Idade Moderna. A partir do século 17, estudiosos passaram a questionar a veracidade das histórias. E não só sobre a guerra em si, mas inclusive sobre a própria existência da cidade. A interpretação majoritária era que Troia era um lugar lendário, que nunca existiu.
Essa visão mudou, porém, no final do século 19, graças a um rico empresário chamado Heinrich Schliemann. O alemão era um dos ávidos defensores da historicidade das obras homéricas, e foi atrás de buscar as ruínas de Troia para provar sua tese – mesmo sem ter treinamento formal em arqueologia, um campo de estudos que estava em suas fases iniciais.
Schliemann viajou até o sítio arqueológico de Hisarlik, na costa oeste da Turquia, onde já circulavam rumores sobre a existência de ruínas antigas. Ele começou a escavar o local na década de 1870.
Surpreendentemente, o alemão descobriu que havia sim uma cidade perdida no local. Aliás, não apenas uma cidade, mas nove delas – cada uma construída sobre as ruínas das outras. O local foi ocupado por incríveis três milênios, e cada fase de ocupação gerou uma cidade que foi enterrada sob a seguinte, gerando nove “camadas” arqueológicas que os historiadores conseguem datar com certa precisão.
Schliemann, portanto, declarou que havia descoberto Troia. E não só: ele chegou a apontar a camada 2, a segunda mais antiga, como a cidade específica que foi palco da guerra.
Hoje, a maioria dos historiadores e arqueólogos concordam que o alemão de fato descobriu Troia (tanto que esse nome é usado como sinônimo do sítio de Hisarlik). Mas com uma diferença específica: a segunda camada, que Schliemann acreditava ser a da guerra, era antiga demais, mil anos mais velha do que o suposto conflito.
Análises subsequentes, porém, mostraram que a camada que condiz temporalmente com a história da Ilíada e da Odisseia é a camada 7. Se uma guerra de fato aconteceu, é lá que estão seus resquícios. (A sexta camada, que veio logo antes, também pode ter inspirado Homero, já que era bem mais rica e poderosa do que a sétima, mas foi destruída por um aparente terremoto).
Um dos grandes problemas é que Schliemann foi uma figura para lá de controversa na história da arqueologia. Ele tinha métodos bastante questionáveis, até mesmo para a época: usava dinamites para “escavar” o sítio, explodindo o solo para chegar a camadas mais profundas (e destruindo muita coisa no caminho). Além disso, ele não documentava tudo em detalhes, como fazem estudiosos hoje, e tendia a ignorar itens que considerava de menor importância, como cerâmicas (que podem revelar bastante sobre como era a vida no dia a dia do local).
Como o empresário focou seus esforços na camada 2, acabou danificando ou destruindo muita coisa das outras camadas arqueológicas acima, incluindo a camada 7, associada hoje com a Guerra de Troia. Mesmo assim, pesquisadores conseguiram escavá-la – e descobriram coisas interessantes.

Guerra de Troia: o que diz a arqueologia
Além de preencher o critério temporal, a camada 7 de Troia de fato mostra sinais de uma guerra ocorrida por volta de 1.200 a.C. Há estruturas destruídas por fogo, diversos cadáveres que não foram enterrados em tumbas (sinal de uma catástrofe ou uma carnificina) e pedaços de flechas e outras armas.
Não dá para saber exatamente quem foi o responsável pela destruição, e, infelizmente, nenhum cavalo de madeira gigante foi encontrado. Mas a hipótese de que houve de fato uma guerra em Troia que inspirou as histórias orais posteriores é bastante forte.
Não há consenso entre historiadores, porém. Os achados arqueológicos foram poucos, e ainda há a possibilidade da cidade ter sido destruída por um desastre natural.
Guerra de Troia: o que dizem as fontes escritas?
Infelizmente, nenhum documento escrito foi encontrado em Troia. Também não há fontes primárias micênicas da época sobre o evento. Mas há uma outra fonte importante.
Na Anatólia, no oeste da atual Turquia, existia um poderoso e rico império: o Império Hitita. Os hititas, junto com os egípcios, formavam as grandes potências econômicas e militares do fim da Era do Bronze. E, felizmente, escreviam bastante.
Troia provavelmente não era parte do Império Hitita diretamente, mas, ao que tudo indica, era um estado vassalo a ele, ou pelo menos estava na área de influência desse poder. No oeste da Turquia, Troia ficava entre os Hititas e os Micênicos (a civilização que existia na Grécia durante a Era do Bronze, uma espécie de “proto-gregos”) e ocupava uma região importante, especialmente para o comércio daquela região.
Hoje, a maioria dos historiadores concorda que Troia está citada em documentos hititas, mas com outro nome: Wilusa.
Se essa interpretação estiver certa, temos uma segunda comprovação de que a cidade de fato existiu.
Os documentos hititas citam conflitos ocorridos em Wilusa. No entanto, até hoje nunca encontramos uma menção direta a uma guerra entre micênicos e troianos. Ou seja, apesar de haver registros da existência de Troia e de batalhas na cidade, não há comprovação por escrito de que a guerra homérica aconteceu.
Um documento hitita particularmente valioso cita o nome de um rei de Troia: Alaksandu. Curiosamente, ele se parece muito com Alexandre, o outro nome usado por Homero para se referir a Paris – o príncipe troiano que, segundo a história, sequestrou Helena de Esparta e deu início à guerra.
Esse relato, no entanto, não é suficiente para comprovar que a Guerra de Troia aconteceu, por dois motivos: o Alaksandu/Alexandre do documento existiu por volta do ano 1.300 a.C., um século antes da suposta Guerra de Troia. Além disso, ele era um rei, enquanto Paris, segundo os poemas, era um príncipe (e nunca ascendeu ao trono, já que morreu antes).
Mesmo assim, esse documento comprova que o nome Alexandre existia e era usado pela realeza de Wilusa/Troia, o que pelo menos reforça a possibilidade de que Paris tenha existido.
No fim das contas, não há consenso sobre a existência da Guerra de Troia ou não. A cidade, ao contrário do que se pensava há 200 anos, de fato existiu, e há indícios de que um ou mais conflitos ocorreram nela, inclusive por volta do ano 1.200 a.C. Infelizmente, não sabemos mais detalhes sobre eles, nem arqueologicamente nem por análise de documentos hititas.
Uma possibilidade é que, de fato, uma guerra entre micênicos e troianos tenha existido e que sua história foi preservada oralmente, ganhando contornos míticos ao longo dos séculos até ser registrada por Homero.
Outra é que o poeta grego tenha se inspirado em vários conflitos diferentes para compor seus épicos.
Fonte: abril





