O estudo foi publicado em julho na revista científica Scientific Reports [https://www.nature.com/articles/s41598-026-60684-7], em julho deste ano, e analisou amostras oficiais coletadas do Sudário em 1978.
A pesquisa, no entanto, não determina a idade do tecido [https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/tubo-de-ensaio/resposta-cicero-moraes-sudario-de-turim/]. O que os cientistas fizeram foi usar ferramentas modernas de genética forense para investigar as marcas biológicas acumuladas durante o contato do Sudário com pessoas e ambientes ao longo do tempo.
“O Sudário representa um rico arquivo de informações genéticas que se acumulou ao longo de séculos de interação humana e exposição ambiental”, afirmou Noemi Procopio, professora de Ciência Forense da Universidade de Lancashire, no Reino Unido, em comunicado sobre a pesquisa [https://www.lancashire.ac.uk/news/shroud-of-turin].
DNA no Santo Sudário tem material genético humano e um microbioma diversificado
A análise identificou diferentes linhagens de DNA mitocondrial humano. Entre elas estão K1a1b1a, H2a2, H1b e H33, que possuem distribuições distintas entre populações da Eurásia Ocidental e do Oriente Médio.
Um dos resultados exige atenção especial. A linhagem K1a1b1a identificada em três amostras também foi encontrada no material genético de Pierluigi Baima Bollone, professor e médico que participou da coleta do Sudário [https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/tubo-de-ensaio/nova-hipotese-imagem-sudario-de-turim/] em 1978. A análise de parentesco indicou uma relação próxima entre os DNAs encontrados nas três amostras e o genoma do coletor.
O achado ilustra uma das principais dificuldades da análise genética no Santo Sudário: distinguir vestígios antigos daqueles deixados por pessoas que tocaram, examinaram ou manipularam o tecido posteriormente.
Os pesquisadores encontraram sinais compatíveis com DNA moderno e ressaltam que o contato humano acumulado dificulta a identificação de uma eventual assinatura genética original.
Além do DNA humano, foi reconstruído um microbioma formado por bactérias, fungos e arqueias. Entre as bactérias aparecem espécies frequentemente associadas à pele humana. Já as arqueias pertencem principalmente a grupos capazes de tolerar altas concentrações de sal.
Segundo Andrea Squartini, pesquisador da Universidade de Pádua [https://www.unipd.it/news/presentati-i-risultati-di-nuove-ricerche-basate-sul-sequenziamento-del-dna-rinvenuto-sulla], foi identificado “um microbioma rico”, com microrganismos da pele e comunidades adaptadas a ambientes salinos.
Plantas, animais e coral do Mediterrâneo na amostra de DNA do Santo Sudário
A diversidade biológica encontrada no tecido se estende também ao reino vegetal. Os pesquisadores identificaram material genético de cenoura, trigo, milho, banana e amendoim, além de outras espécies cultivadas, como tomate, batata, pimentas e frutas.
A cenoura apresentou um dos sinais mais abundantes entre as plantas identificadas. O estudo aponta que os vestígios encontrados são geneticamente mais próximos de variedades antigas e desenvolvidas na Europa Ocidental, o que pode indicar uma contaminação relativamente recente.
Também foram identificados animais domésticos. Cães e gatos apareceram entre os principais grupos, acompanhados por galinhas e bovídeos, além de porcos, cavalos, cervos e coelhos. Vestígios de ratos e camundongos também foram encontrados e podem estar relacionados à contaminação ambiental.
A análise genética do Sudário identificou vestígios de DNA humano, plantas,
animais e microrganismos preservados nas fibras do tecido.
Um dos achados mais marcantes foi o DNA do coral-vermelho (Corallium rubrum), espécie endêmica do Mediterrâneo. “Detectamos DNA de coral vermelho endêmico do Mediterrâneo”, afirmou Giovanni Gabelli, pesquisador da Universidade de Pádua, ao apresentar os resultados.
A presença dessas espécies não significa necessariamente que o tecido tenha entrado diretamente em contato com cada uma delas. Os pesquisadores consideram a possibilidade de contaminação secundária, na qual o material genético chega ao Sudário por meio de pessoas que tiveram contato com animais, plantas ou outros objetos.
O que o DNA revela sobre a história do Sudário?
O conjunto dos resultados sugere que o Sudário esteve exposto a diferentes pessoas, [https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/tubo-de-ensaio/exposicao-santo-sudario-atualizada-2026-brasil/] ambientes e regiões ao longo de sua história. Alguns dos vegetais identificados têm origem na Ásia ou nas Américas e chegaram posteriormente à Europa e ao Mediterrâneo, o que ajuda a indicar que parte da contaminação ocorreu em períodos relativamente recentes.
Os autores discutem, por exemplo, a presença de espécies que se espalharam pelo Velho Mundo depois das viagens de Marco Polo e Cristóvão Colombo. A hipótese pode ajudar a reconstruir a circulação posterior do tecido, mas não permite determinar quando ou onde ele foi produzido.
“Estas evidências genéticas integram as investigações forenses e os dados históricos e radiométricos já disponíveis”, afirmou Gianni Barcaccia, professor da Universidade de Pádua e um dos coordenadores do estudo. Segundo ele, os resultados também precisam ser interpretados com cautela porque o DNA encontrado representa a sobreposição de sinais biológicos acumulados ao longo do tempo.
A pesquisa atual se soma a outros estudos realizados sobre o Sudário. Em 1988, três laboratórios independentes utilizaram datação por radiocarbono e chegaram a uma faixa de 1260 a 1390, resultado interpretado como indicativo de origem medieval. O próprio artigo de 2026, entretanto, menciona questionamentos posteriores sobre a homogeneidade dos dados utilizados naquela análise e a necessidade de novos testes.
Também houve uma análise genética publicada em 2015, que identificou DNA humano e de plantas em amostras do tecido. O novo trabalho utiliza uma abordagem diferente: o sequenciamento metagenômico de nova geração sem amplificação por PCR, aplicado a uma coleção de amostras oficiais de 1978. Foram analisados 12 itens, incluindo filamentos de linho, amostras de poeira coletada por aspiração e um pequeno fragmento biológico.
Para os pesquisadores, essa mistura é justamente o que torna o objeto tão interessante para a ciência: ela permite investigar como a peça foi manuseada, conservada e exposta ao ambiente, ainda que não seja possível separar com segurança um eventual DNA original de tudo aquilo que foi acumulado posteriormente.
Fonte: gazetadopovo





