Cenário Agro

Acordo UE-Mercosul: Aprosoja alerta para impacto negativo na indústria nacional

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O presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Beber, analisa com pessimismo o acordo comercial firmado entre União Europeia e Mercosul. Isto porque, segundo ele, tende a gerar efeitos negativos ao Brasil no curto prazo. Para ele, as exigências ambientais impostas pelos europeus criam barreiras ao agronegcio brasileiro e podem reproduzir no comércio exterior as restrições vivenciadas internamente com a chamada moratória da soja.

“No curto prazo sim, será negativo. Depois as coisas se adaptam”, afirmou. Ele citou o regulamento europeu EUDR, aprovado em 2020, que proíbe a importação de commodities provenientes de áreas desmatadas após esse marco temporal, ainda que o desmate seja legal segundo a legislação brasileira. “Isso nos coloca em desvantagem, porque ignora que o produtor brasileiro preserva reserva ambiental dentro da própria propriedade”, disse.

A declaração ocorre no momento em que o Conselho da União Europeia aprovou, em 9 de janeiro de 2026, o pilar comercial do acordo com o Mercosul, encerrando um processo de anos marcado por disputas ambientais, resistência de setores agrícolas europeus e negociações diplomáticas. A assinatura oficial está prevista para 17 de janeiro, no Paraguai.

O avanço do pacto exigiu rearranjos internos na Europa. Após o anúncio preliminar em 2019, o texto ficou paralisado pela oposição de duas frentes: produtores agrícolas, temerosos da concorrência sul-americana, e organizações ambientais, críticas à situação da Amazônia. Com a guerra na Ucrânia, a rivalidade entre EUA e China e a busca europeia por diversificação econômica, a Comissão Europeia passou a tratar o acordo como instrumento estratégico.

Mesmo assim, países como França, Polônia e Irlanda seguiram resistindo. A Itália de Giorgia Meloni, antes favorável, adotou posição ambígua e sua abstenção bloqueou a aprovação em dezembro de 2025. Posteriormente, Roma reviu o voto após compensações ligadas à Política Agrícola Comum e à criação de salvaguardas automáticas para produtos sensíveis. O acordo acabou aprovado por maioria qualificada, apesar da oposição de parte dos governos europeus. O foco agora se desloca à ratificação no Parlamento Europeu, onde o tema ainda enfrenta divisões.

Para o agronegócio brasileiro, esses movimentos acendem o alerta. Beber afirma que, embora o impacto direto sobre a soja seja restrito (o bloco europeu representa cerca de 14% das exportações brasileiras do setor), há risco para indústrias de proteína e laticínios, mais expostas à concorrência. “Nossa indústria pode ser prejudicada, principalmente a pecuária e a láctea, por causa da entrada de produtos sem barreiras e de restrições daqui para lá”, avaliou.

Ele também defendeu que o Brasil não repita, no comércio exterior, o que considera os “erros” da moratória da soja — pacto privado firmado entre grandes tradings para restringir compras de áreas amazônicas. Segundo o presidente da Aprosoja, mecanismos de rastreabilidade fiscal, uso de imagens de satélite e logística paralela permitiriam atender o mercado europeu sem impor restrições amplas ao produtor.

“O que é construído sempre é o diálogo. Temos que trabalhar a imagem do Brasil no exterior para desfazer essa narrativa”, disse. Para ele, parte das exigências ambientais da UE funcionam como barreiras econômicas travestidas de preocupação ambiental, ignorando particularidades regulatórias do Brasil, como a obrigatoriedade de manutenção de reservas legais dentro das propriedades.

Apesar da avaliação negativa inicial, Beber reconhece a tendência de adaptação ao longo do tempo. Já no âmbito institucional, especialistas apontam que a principal incerteza do acordo reside na própria Europa: além do Parlamento Europeu, ações judiciais podem atrasar a ratificação, ao passo que Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai enfrentam menos resistência doméstica.

Na Europa, nem todos os países estão satisfeitos com o acordo, dentre eles, a França, que lidera o movimento, ao lado da Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda. A resistência parte dos agricultores europeus que alegam concorrência desleal.

Fonte: leiagora

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