O acordo entre o Mercosul e a União Europeia tende a influenciar menos pelo volume imediato de comércio agropecuário e mais pela exigência de critérios regulatórios, comprovação de conformidade e evidências em sustentabilidade, rastreabilidade e análises climáticas. A avaliação foi destaque no seminário on-line promovido pela Embrapa, que reuniu especialistas para discutir os impactos do acordo na agenda de pesquisa e no futuro do agronegócio brasileiro.
Realizado na manhã de sexta-feira (6), o evento marcou a abertura da agenda 2026 dos Debates em Socioeconomia e reuniu mais de 120 participantes. O painel contou com a participação do professor Marcos Jank, do Insper, do ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo, do professor Antônio Márcio Buainain, da Universidade Estadual de Campinas, e do pesquisador Bruno Capuzzi, também do Insper. A mediação foi feita pelo pesquisador Décio Luiz Gazzoni, da Embrapa Soja.
Acordo traz oportunidades e desafios para o agronegócio
Na abertura do debate, Décio Gazzoni contextualizou o acordo como um marco comercial pela escala e pela complexidade regulatória envolvida. Segundo ele, o tratado está ligado a interesses econômicos e assimetrias de competitividade entre os blocos, indo além da discussão tradicional sobre tarifas e cotas.
Gazzoni destacou que, com a implementação do acordo, a tendência é que a União Europeia amplie as exportações de produtos de maior valor agregado. Já para o Mercosul, especialmente para o Brasil, o agronegócio aparece como principal setor com potencial de expansão no comércio exterior.
Apesar das oportunidades, ele alertou que produtores e instituições precisam compreender as salvaguardas e condicionantes impostas pelos setores agrícolas europeus, que podem influenciar diretamente o acesso ao mercado.
Debate técnico e dados científicos ganham importância
Durante o seminário, o professor Marcos Jank criticou parte das salvaguardas previstas no acordo, especialmente aquelas relacionadas às cotas adicionais para exportação ao mercado europeu.
Segundo ele, mesmo quando há ampliação das cotas, mecanismos de segurança podem ser acionados caso o volume de negócios cresça além de determinados limites ou se os preços sofrerem queda significativa.
Para o especialista, o debate técnico precisa ganhar mais protagonismo nas negociações e na defesa do agronegócio brasileiro.
“Espero que agora a gente consiga, talvez através da Embrapa e da pesquisa, colocar números que tenham base científica e que possam melhorar as condições de cooperação nesses temas essenciais para que o acordo avance”, afirmou.
Infraestrutura e dependência de mercados são vulnerabilidades
O ex-embaixador Rubens Barbosa destacou que o aproveitamento das oportunidades do acordo depende também de avanços internos no Brasil, especialmente em competitividade.
Entre os principais gargalos citados estão problemas de infraestrutura logística, como estradas, portos e capacidade de armazenagem, fatores que impactam diretamente os custos de produção e exportação.
Ele também chamou atenção para a concentração das exportações brasileiras em poucos produtos e mercados, com destaque para a dependência da China nas vendas de soja.
Segundo Barbosa, as salvaguardas previstas no acordo não inviabilizam o comércio, mas podem elevar custos operacionais e aumentar a incerteza para empresas exportadoras.
Sustentabilidade e dados ambientais serão decisivos
Na avaliação do professor Antônio Márcio Buainain, o acordo representa um “choque de realidade” para o agronegócio brasileiro e para a organização da agenda científica do país.
Ele destacou que dados ambientais e sistemas de monitoramento serão essenciais para comprovar a conformidade da produção brasileira com exigências internacionais.
Um dos exemplos citados foi o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que, segundo o especialista, precisa se consolidar como um banco de dados robusto e transparente para demonstrar o cumprimento das normas ambientais.
Para Buainain, o acordo também pode ser usado como um instrumento de promoção da inovação e da competitividade sustentável no agronegócio.
Disputa por valor e identidade de produtos
O pesquisador Bruno Capuzzi abordou o tema das indicações geográficas e da disputa internacional por valor agregado nos produtos agrícolas.
Ele explicou que o acordo restringe novas alusões a denominações europeias em produtos brasileiros, mas também abre espaço para que o Brasil fortaleça a identidade de produtos próprios no mercado internacional.
Entre os exemplos citados está o Queijo Canastra, cuja valorização pode representar oportunidade de posicionamento no mercado europeu.
Capuzzi também mencionou o caso do açaí, cujo consumo tem crescido em cidades da Europa, muitas vezes por meio de redes comerciais controladas por capital estrangeiro, o que reforça a importância de estratégias para garantir a valorização da origem brasileira.
Ciência e inovação para garantir competitividade
No encerramento do seminário, o analista Job Lúcio Gomes Vieira destacou que a discussão trouxe reflexões importantes para orientar a agenda de pesquisa da Embrapa.
Segundo ele, a instituição pode contribuir diretamente com a demonstração da sustentabilidade da agricultura brasileira por meio de ciência, tecnologia e produção de evidências técnicas.
As contribuições apresentadas no evento serão sistematizadas para orientar a programação de pesquisa relacionada ao acordo Mercosul–União Europeia, com foco em áreas como certificação climática, redução de emissões na pecuária, rastreabilidade, conformidade regulatória, bioinsumos e agregação de valor na produção agropecuária.
Rede de Socioeconomia da Embrapa
O seminário foi promovido pela Rede de Socioeconomia da Agricultura (RSA) da Embrapa, iniciativa criada em 2024 para fortalecer a produção de análises socioeconômicas dentro da instituição.
A rede reúne atualmente mais de 250 profissionais de diferentes áreas, como economia, sociologia, agronomia, estatística e ciência da computação. O objetivo é integrar pesquisa e inteligência estratégica para apoiar políticas públicas, desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis e inovação no setor agropecuário brasileiro.
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Fonte: cenariomt






