EstĂĄ valendo no Brasil de hoje uma nova modalidade de âenfrentamentoâ, palavra requerida pelo vocabulĂĄrio polĂtico da moda, a tudo que o regime considera como ameaça Ă democracia. A lei, no entendimento do e do seu pĂșblico, tornou-se um estorvo para a defesa do Estado democrĂĄtico.
HĂĄ ali direitos para os acusados e deveres para a polĂcia â e a soma dessas duas exigĂȘncias pode trazer todo o tipo de inconveniĂȘncias para o ministro Alexandre de Moraes e suas esquadras de repressĂŁo Ă s prĂĄticas golpistas. A solução para a charada, na visĂŁo da autoridade suprema, tem sido simples: a lei continua valendo, mas nĂŁo para todos. Para os que sĂŁo definidos como indesejĂĄveis, sĂł vale o que o STF diz.
Digamos que vocĂȘ seja um ladrĂŁo confesso do Tesouro Nacional e que tenha concordado em devolver o que roubou para nĂŁo ser trancado numa penitenciĂĄria. A recomendação Ă© ir para o STF, de preferĂȘncia ao ministro , e dizer que os seus direitos foram violados: vocĂȘ na verdade nĂŁo queria pagar nada, mas foi constrangido a aceitar o acordo. A âSuprema Corteâ vai zerar o que vocĂȘ deve â e lhe entregar de volta quaisquer valores que tenha pagado. Digamos, agora, que vocĂȘ seja e opere a maior plataforma de comunicação social do Brasil â onde cada um pode escrever o que quiser e a junta de governo STF-Lula estava debaixo de pancadaria grossa. A rede X se vĂȘ expulsa do Brasil, por ânĂŁo cumprimento de ordens judiciaisâ, e leva R$ 18 milhĂ”es de multas no lombo. As âordens judiciaisâ sĂŁo despachos de Moraes, sem processo legal e sem direito de defesa para os acusados, mandando o X praticar censura. A lei proĂbe isso â mas nĂŁo no caso de Musk, segundo a ciĂȘncia jurĂdica ora em vigor no paĂs.
Da mesma forma, estĂĄ escrito na lei que uma empresa nĂŁo pode ser obrigada a pagar dĂvidas de outra sĂł porque tĂȘm ligaçÔes entre si. NĂŁo passa pela cabeça de ninguĂ©m, por exemplo, que o tire dinheiro do ItaĂș para pagar obrigaçÔes devidas pela Alpargatas, ou dinheiro da Ambev para pagar o rombo das Lojas Americanas. Mas o X nĂŁo Ă© nem o ItaĂș nem a Ambev e, portanto, a lei nĂŁo vale para ele. Alexandre de Moraes, por conta disso, expropriou depĂłsitos bancĂĄrios da Starlink e transferiu para o governo, para pagar multas que ele mesmo aplicou no X. SĂŁo do âmesmo grupo econĂŽmicoâ, decidiu ele. E daĂ?

Isso sĂł poderia ser feito em caso de fraude â e fraude Ă© coisa que tem de ser apurada em processo penal regular, com provas e a plena defesa do acusado por seus advogados. Mas a lei, aĂ, Ă© um estorvo para o STF. Tudo bem que ela proteja o ItaĂș ou a Ambev. Tudo mal que ela proteja o . Azar do X, entĂŁo.
Fonte: revistaoeste