As redes sociais estão cheias de casas impecáveis, ambientes minimalistas e móveis que viram desejo de consumo da noite para o dia. Mas será que essas referências combinam com a realidade de quem mora em Cuiabá, onde o calor exige soluções diferentes das adotadas em outras regiões do país? Para a jornalista especializada em decoração Lucila Zahran Turqueto, criadora do perfil Casa de Valentina, o desafio é justamente não deixar que as tendências digitais apaguem a identidade de cada casa.
Em passagem pela capital mato-grossense, Lucila conversou com o Primeira Página sobre arquitetura, decoração, consumo e a valorização do design brasileiro. Ela participou de um evento na Artefacto Mato Grosso, que reuniu mais de 20 ambientes assinados por profissionais da arquitetura de Cuiabá e de cidades do interior, como Sinop e Nova Mutum.
Conhecida pelo trabalho à frente do perfil @casadevalentina, onde compartilha referências, tendências e novidades do mercado de arquitetura e decoração, Lucila acredita que as redes sociais ampliaram o acesso a diferentes estilos de morar. Ao mesmo tempo, porém, os algoritmos podem acabar limitando as escolhas.
“Existe um algoritmo. E o algoritmo é muito cruel em alguns casos, porque ele faz com que a gente consuma conteúdos que estão dentro de uma bolha, pode ser uma bolha de pensamento ou pode ser uma bolha estética também”, explicou.
Segundo ela, o problema aparece quando as pessoas passam a reproduzir ambientes que não têm relação com a própria história, a cultura da região ou até mesmo o clima da cidade onde vivem.
A jornalista cita como exemplo casas construídas em condomínios que repetem os mesmos padrões arquitetônicos, independentemente das condições ambientais de cada lugar.
“Como se aqui em Cuiabá eu construísse uma arquitetura que dependesse 12 meses do ano de ar-condicionado”, exemplificou.
Para Lucila, a arquitetura precisa considerar não apenas a aparência, mas também o modo de vida de quem vai ocupar aquele espaço. Isso inclui ventilação, materiais, referências culturais e características locais.
A tendência agora é ter uma casa com história
Em meio à popularização de ambientes padronizados, Lucila observa um movimento contrário: a valorização de móveis antigos, objetos herdados e peças que carregam memórias familiares.
Uma cristaleira da avó, um baú guardado por gerações ou uma cadeira antiga podem dividir espaço com móveis contemporâneos, sem que toda a decoração precise seguir um único estilo.
Ela cita o conceito New Found Heritage, identificado pela plataforma de tendências Fashion Snoops, que valoriza a incorporação de objetos com significado pessoal aos ambientes atuais.
“É como se o arquiteto ou o dono da casa fosse um curador de memórias”, comentou.
Na avaliação da jornalista, esse interesse também ajuda a explicar a procura por móveis de segunda mão, brechós e leilões. Mais do que adquirir uma peça diferente, muitas pessoas querem levar para casa objetos que tenham uma história.
Lucila também questiona a ideia de que a decoração precise mudar a cada nova tendência apresentada pelo mercado.
“Eu não acredito nessa tendência ser estética, mais uma tendência de comportamento”, afirmou.
Para ela, mudanças na maneira de morar são mais relevantes do que a escolha de uma cor ou de um revestimento da moda. A pandemia, por exemplo, mostrou como ambientes integrados nem sempre atendem às necessidades de famílias que passaram a trabalhar, estudar e conviver por mais tempo dentro de casa.
Móveis falsificados preocupam o mercado de decoração
Outro assunto abordado por Lucila foi a falsificação de móveis assinados, especialmente peças do design moderno brasileiro, que ganharam valorização no mercado internacional.
Segundo a jornalista, a procura por esses móveis abriu espaço para a comercialização de reproduções não autorizadas, muitas vezes vendidas como originais.
A identificação pode ser difícil até para compradores experientes. Há casos em que as peças recebem selos envelhecidos e madeiras trabalhadas para imitar materiais antigos.
O problema não se limita aos móveis históricos. Criações contemporâneas também são copiadas, prejudicando designers, fabricantes e detentores dos direitos autorais.
Lucila explica que o consumidor deve pesquisar a procedência das peças, procurar galerias de confiança e verificar se as lojas são autorizadas a comercializar determinado produto.
Como exemplo, ela cita o designer Sérgio Matos, natural de Cuiabá, conhecido por suas criações autorais.
Para quem deseja comprar uma peça de um profissional específico, a recomendação é procurar o próprio criador e confirmar quais estabelecimentos têm autorização para vendê-la.
Ela também destacou a expectativa de novos mecanismos de certificação para ajudar a identificar a autenticidade de móveis antigos e contemporâneos.
Arquitetura e arte de Mato Grosso
A passagem de Lucila por Cuiabá também colocou em evidência o trabalho de arquitetos e artistas que atuam no estado.
O evento realizado na Artefacto Mato Grosso reuniu mais de 20 ambientes desenvolvidos por profissionais da capital e do interior. Além dos projetos de interiores, o espaço recebeu obras de artistas plásticos mato-grossenses, entre eles Gervane de Paula e Dalva de Barros.
A presença dessas produções locais dialoga com uma das principais reflexões feitas pela jornalista durante a entrevista: a importância de reconhecer a identidade brasileira na arquitetura e na decoração, em vez de apenas reproduzir padrões que ganham popularidade nas redes sociais.
Para Lucila, uma casa não precisa acompanhar todas as novidades do mercado para ser atual. Mais importante é que faça sentido para a rotina, o clima e a história das pessoas que vivem nela.
Fonte: primeirapagina






