A histórica associação dos gatos pretos a crenças de azar e bruxaria, originada na Idade Média, continua a impactar diretamente a vida desses animais na sociedade atual. Além de enfrentar longas esperas por adoção, com levantamentos de ONGs de proteção animal apontando que cerca de 56% a 60% dos felinos que demoram mais para conseguir um lar possuem pelagem escura, esses animais ficam expostos a sérios riscos de maus-tratos em datas comemorativas específicas, como o Halloween, o Dia dos Mortos e o Dia de Finados, que ocorrem neste final de semana.
Durante essa época, o volume de solicitações de adoção costuma mudar de maneira atípica, exigindo cautela redobrada de quem doa e resgata animais. A ONG Lunnar, de Cuiabá, relata que possui mais de 30 gatos pretos adultos sob seus cuidados e destaca que, enquanto o público em geral costuma preferir filhotes de cores claras, os pedidos em datas sensíveis exigem verificação criteriosa. Por conta disso, a entidade chega a evitar a doação nesses períodos, caso não haja total certeza sobre as intenções do adotante.
O alerta sobre a busca seletiva por felinos é reiterado por profissionais da área veterinária, que reforçam a necessidade de manter a atenção voltada para perfis específicos de solicitação. Conforme explica o médico veterinário Guilherme Motta Soare, “não é tão fácil doar um animal. E o que a gente tem que tomar cuidado nessas épocas mais específicas”.
“É justamente nesse período que vemos o aumento de pedidos de adoção de pessoas indo atrás de animais e, mais importante ainda, especificando cores, né? Principalmente os gatinhos pretos”, detalha.
Ele pontua ainda que a busca por características específicas acende o sinal vermelho nas redes e feiras de adoção. Para mitigar os riscos e garantir que as doações sejam definitivas e seguras, a recomendação é rigor na seleção dos novos tutores, incluindo a coleta de dados de contato, vistorias no imóvel e o acompanhamento pós-adoção.
A proteção não deve se restringir apenas aos animais que estão em processo de adoção, estendendo-se integralmente aos felinos que já possuem um lar. Manter as janelas e varandas devidamente teladas e impedir o acesso à rua é a principal medida para evitar acidentes, fugas, envenenamentos e capturas mal-intencionadas por terceiros. Segundo Motta, a ideia de que os gatos necessitam passear externamente é um equívoco que coloca a integridade do animal em risco:
“Animal não tem que ter acesso à rua. Ele não tem que ter acesso à rua de forma alguma. Pode ser gato, cachorro, principalmente gato, que as pessoas ainda têm essa ideia de que gato tem que ir para a rua e tudo mais, não tem isso. O gato não precisa ir para a rua, se ele tiver tudo em casa, ele vai ter vontade de ir para a rua, vai ter curiosidade de ir para a rua. Se ele não tiver acesso, ele vive tranquilo”.
O que diz a legislação?
Em termos legais, a legislação brasileira estabelece punições severas para quem comete maus-tratos contra animais domésticos. Com o advento da Lei nº 14.064/2020, que alterou a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), as condutas de abusar, maltratar, ferir ou mutilar cães e gatos passam a ser punidas com pena de reclusão de 2 a 5 anos, além de multa e proibição da guarda. Nos casos em que a violência resulta na morte do animal, a pena é aumentada de um terço a um sexto.
Em Cuiabá, a Lei Municipal nº 436/2017 complementa as diretrizes de proteção, atribuindo ao guardião a responsabilidade direta pelo abrigo, saúde e integridade do animal. A negligência com alojamento insalubre ou a exposição do pet a intempéries como sol excessivo e chuvas torrenciais também é passível de sanções administrativas e notificação.
Em casos de urgência ou suspeita de violência e abandono, a população pode acionar a Polícia Militar pelo 190, o Disque-Denúncia no 181, a Delegacia Especializada do Meio Ambiente (DEMA) ou registrar a ocorrência por meio da Delegacia Eletrônica.
Fonte: primeirapagina






