Um estudo publicado este ano na revista científica The Lancet Regional Health, baseado em dados do Global Burden of Disease (2023), demonstrou que os transtornos de ansiedade são a principal causa de incapacidade entre crianças e jovens brasileiros de 5 a 29 anos, liderando o ranking em todas as faixas etárias avaliadas. Entre crianças de 5 a 9 anos, cerca de 12,6% já apresentam algum transtorno diagnosticável, um número que sobe progressivamente até atingir quase um quarto dos jovens de 25 a 29 anos.
No total, a pesquisa estima que 15,6 milhões de brasileiros nessa faixa etária convivam com algum transtorno como ansiedade, depressão e TDAH. Estes números são um retrato estatístico de uma geração que cresce sob pressão constante, sem espaço psíquico para o tédio, o erro ou o descanso.
Importante ressaltar que o burnout – um estado de esgotamento emocional, mental e físico que, diferente do cansaço comum, não desaparece com uma noite de sono – não tem idade para começar. Seus sinais incluem fadiga persistente, irritabilidade, queda de rendimento escolar, isolamento social e uma ansiedade que, muitas vezes, é confundida com déficit de atenção ou hiperatividade, quando na verdade tem sua origem na sobrecarga emocional.
A ansiedade infantil liderando as causas de incapacidade entre os mais jovens não é apenas uma estatística de saúde pública. É um sinal de que estamos formando adultos treinados, desde cedo, a temer a própria imperfeição
O burnout infantil não é apenas um excesso de tarefas, é um peso emocional causado pela exaustão diante da impossibilidade de falhar. Hoje muitas crianças vivem rotinas tomadas por atividades extracurriculares, avaliações precoces e uma lógica de desempenho que trata a infância como um projeto de investimento para o futuro. Crianças que vivem essas rotinas acabam tendo pouco espaço para o que, paradoxalmente, é insubstituível no desenvolvimento infantil: o brincar sem propósito, o ócio, a experiência do erro.
Em conjunto com este cenário, temos também a hiperexposição às telas, que oferece uma válvula de escape falsa, uma vez que substitui as cobranças do mundo real pelas cobranças, igualmente intensas, do mundo virtual, reforçando imediatismo, comparação social e a sensação de nunca ser suficiente.
É aqui que os dois retratos se encontram. Uma criança que aprende cedo demais que errar é perigoso não desenvolve apenas ansiedade, desenvolve também uma forma de se “proteger” que empobrece sua relação com o mundo. Diante de frustrações, diferenças e conflitos que fazem parte de qualquer convívio humano, a resposta mais disponível deixa de ser o enfrentamento elaborado e passa a ser o entorpecimento: a tela que distrai, o silêncio que evita, a indiferença que protege.
O resultado é uma sociedade em formação que aprende a lidar com o desconforto anestesiando-o, em vez de atravessá-lo. Frustrações que antes seriam processadas com apoio, tempo e espaço para o erro, passam a ser evitadas ou suprimidas. E o que deveria ser exceção, como resposta a um estresse pontual, corre o risco de se tornar regra, uma camada permanente sobre a experiência de crescer. Períodos como o Setembro Amarelo nos fazem refletir sobre o que pode estar causando pressão em nossa sociedade a ponto de os indivíduos perderem o apreço à vida.
Para amenizarmos estes efeitos negativos no desenvolvimento das futuras gerações, é preciso devolver à infância o direito ao tempo ocioso, ao erro sem culpa e ao descanso sem produtividade embutida. Isso significa rever, na escola e em casa, o quanto se cobra desempenho precoce, o quanto se preenche a agenda infantil e o quanto se naturaliza a tela como substituta do convívio.
A ideia de desvincular o erro da culpa e da perspectiva da sociedade performática não é relativizar o erro, pelo contrário, é assumi-lo como parte do processo de aprendizagem, de criatividade e amadurecimento. É corrigir o erro e cuidar de quem errou.
A ansiedade infantil liderando as causas de incapacidade entre os mais jovens não é apenas uma estatística de saúde pública. É um sinal de que estamos formando adultos treinados, desde cedo, a temer a própria imperfeição, e isso tem custo para toda a sociedade, não apenas para quem adoece.
Ricardo Mariz é pedagogo, mestre em educação, doutor em sociologia e assessor da União Marista do Brasil.
Fonte: gazetadopovo





