Saúde

Identificação de cerâmicas falsas: método inovador aproveita campo magnético terrestre

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026

Imagine que você encontra um vaso de cerâmica na beirada de um rio. Você não sabe quem fez, não há detalhes específicos, nem assinatura. Esse tipo de cena não é incomum na Ilha de Marajó, por exemplo, onde cerâmicas de até 1.600 anos são encontradas sem esforço há séculos.

Como saber a idade daquele material? Será que ele foi feito há 5 mil anos, por um povo tão distante que sequer sabemos o nome? Será que foi feito há alguns anos, por uma tia ou avó distraída? Ou, pior, será que foi feito por um falsificador, interessado em comercializar artefatos arqueológicos?

Há formas de datar artefatos humanos, é claro. A datação por Carbono-14, comumente usada para materiais orgânicos, só funciona com coisas muito antigas, com mais de 50 mil anos. A maioria dos objetos deixados por humanos é mais recente do que isso. Por isso, existem outros métodos – como a datação por termoluminescência e por rehidroxilação.

Agora, um novo estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, aponta um novo método para estimar a idade de cerâmicas, usando um aspecto inusitado de sua composição: o alinhamento magnético das partículas. 

Romanos usavam fóssil de trilobita como joia

Vamos do começo: as cerâmicas são feitas de argila. A argila, por sua vez, é feita de água e partículas extremamente finas de terra, incluindo minerais ferromagnéticos. Para se tornar duro e resistente, o material precisa passar por uma queima – assar em um forno, como um bolo. 

Nessa hora, os minerais ferromagnéticos se orientam em direção ao polo norte magnético terrestre, como se fossem bússolas microscópicas. Esse sinal fica ali mesmo depois do esfriamento da peça, e é chamado de TRM (magnetização remanescente térmica, na sigla em inglês).

Acontece que a localização do polo magnético da Terra está em constante mudança por causa dos fluxos contínuos de ferro e cobre derretidos no centro do planeta. Assim, a TRM de uma peça antiga aponta para uma direção ligeiramente diferente daquela da cerâmica fabricada hoje.

Há ainda um outro pulo do gato: ao longo do tempo, a cerâmica é exposta a um campo geomagnético em uma direção diferente. Ao longo dos séculos, alguns dos minerais da argila adquirem um segundo sinal, mais fraco, chamado de VRM (magnetização remanente viscosa, na sigla em inglês).

Esse fenômeno já é estudado há mais de um século, mas seu sinal é tão fraco que as tentativas anteriores de usá-lo para datar eventos geológicos foram frustradas. Em geral, a VRM é tratada como um ruído que obstrui a compreensão da TRM. 

Pessoa idosa com boné e camisa de peixes vermelhos em fundo azul, concentrada, manuseia um componente cilíndrico com fios e peças brancas, em uma oficina
A geocientista Lisa Tauxe insere amostras em um desmagnetizador térmico. (UC San Diego’s Scripps Institution of Oceanography/Reprodução)

No novo estudo, 45 amostras de cerâmica foram analisadas: 19 peças e fragmentos antigos escavados, 6 vasos de cerâmica modernos queimados em fornos tradicionais, 16 impressões de selos de argila queimadas em fornos modernos e 4 vasos de cerâmica vendidos como souvenir. 

Quando são reaquecidas, as peças perdem esse sinais, aos poucos. Os pesquisadores queimaram essas amostras gradativamente, tentando analisar em que ponto os sinais de VRM de cada peça desapareciam, deixando apenas os TRMs.

Os pesquisadores determinaram que qualquer amostra com mais de um milênio precisava ser aquecida a pelo menos 112 ºC para que seu VRM, o registro magnético mais recente, fosse apagado. Já as amostras de cerâmica mais novas podiam ter seus VRMs apagados em temperaturas mais baixas. Por enquanto, o método não foi usado para datações precisas, e sim para dizer se um artefato é antigo ou moderno.

A equipe já testou seu novo método em três “artefatos de autenticidade questionável”, confiscados pela Autoridade de Antiguidades de Israel, e constatou que todos foram, de fato, assados na antiguidade. Isso destaca outra aplicação do método: localizar e identificar artefatos autênticos que foram saqueados e comercializados ilegalmente – outra batalha constante para os pesquisadores.

É difícil provar que um artefato contrabandeado é verdadeiro, justamente porque os métodos científicos de análise são públicos. “

“Há um problema no campo da autenticação: de um lado estão os cientistas que publicam suas descobertas e, do outro, os falsificadores que atuam secretamente”, disse Yoav Vaknin, coautor do estudo, em entrevista ao Haaretz. “Por isso, é difícil para nós estarmos à frente dos falsificadores, já que eles podem ler nossos artigos e descobrir maneiras de burlar nossos métodos.”

“Espero que nosso novo método seja útil para os curadores de museus, que desejam exibir apenas artefatos autênticos; para arqueólogos e historiadores, que estudam as sociedades que os criaram; e para as autoridades responsáveis pela aplicação da lei, em seus esforços para eliminar o comércio ilícito de antiguidades, que envolve o saque de sítios arqueológicos e a falsificação”, disse Vaknin, em comunicado.

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo