Isso tem ficado nítido na resposta à enchente registrada na fronteira com o Nepal na última quarta-feira (26). Por ora, foram confirmadas 987 mortes e 3.916 pessoas estão desaparecidas no Nepal, enquanto outras 16 morreram e 546 estão desaparecidas no Tibete, na China.
Uma reportagem da agência alemã DW relatou que um texto do influencer local Matou Qingnian na plataforma WeChat, descrevendo o cenário caótico devido à chegada da lama ao Porto de Gyirong, foi removido, bem como imagens da destruição.
“As imagens em si não continham violência explícita, protestos ou slogans políticos”, afirmou uma editora do China Digital Times (CDT), órgão de monitoramento independente que acompanha a censura na internet chinesa, à DW.
“O alvo da censura era o próprio símbolo: o Portão Nacional”, acrescentou, citando o complexo fronteiriço entre o Nepal e o Tibete, onde o Porto de Gyirong foi devastado pelas enchentes da semana passada.
Analistas digitais ouvidos pela DW afirmam que hoje o aparato da repressão digital chinesa utiliza tecnologias que incluem imagens sobre determinados assuntos em uma lista negra, que acabam interceptadas antes mesmo de serem publicadas.
Em artigo para a revista americana The Diplomat, Ryan Fioresi, diretor executivo da ONG Campanha Internacional pelo Tibete, escreveu que as restrições de longa data impostas pelo Partido Comunista Chinês (PCCh) ao acesso e às informações sobre a região representam outro obstáculo na resposta ao desastre.
“Há anos, Pequim controla rigorosamente o acesso ao Tibete para jornalistas estrangeiros, diplomatas, pesquisadores e organizações independentes. Em tempos normais, essas restrições impedem que o mundo veja o Tibete. Em situações de desastre, elas podem impedir que o mundo compreenda as necessidades dos tibetanos e, potencialmente, que os ajude. É por isso que Pequim deveria abrir as áreas tibetanas afetadas ao mundo exterior”, afirmou Fioresi.
A divulgação de informações sobre o desastre no lado tibetano da fronteira tem ficado restrita aos canais de comunicação oficiais da ditadura da China.
Nesta terça-feira (1º), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, disse em entrevista coletiva que as restrições ao acesso de jornalistas estrangeiros à região do Tibete atingida pelas enchentes são necessárias porque “as estradas e as comunicações na área atingida pelo desastre estão interrompidas, e há riscos significativos de desastres secundários”.
“Organizações humanitárias precisam ter condições de chegar às comunidades com segurança e avaliar as necessidades de forma independente. Os jornalistas precisam ser capazes de apurar o que está acontecendo para além das versões oficiais. Governos estrangeiros precisam de informações oportunas sobre seus cidadãos e, quando necessário, de acesso consular. As famílias precisam saber o que aconteceu com seus entes queridos desaparecidos. E os próprios tibetanos precisam poder contar ao mundo o que aconteceu com suas comunidades e do que necessitam”, escreveu Fioresi.
Nesta terça-feira, a Human Rights Watch (HRW) também criticou o apagão de informações imposto pela China sobre as enchentes.
“Controles sobre a informação podem dificultar que as famílias localizem seus entes queridos e prejudicar a compreensão do desastre e de qualquer resposta futura. As autoridades também restringem severamente as liberdades de associação e reunião”, alertou a ONG em comunicado.
“Assim como em desastres anteriores, a coreografia é conhecida: restringir informações, controlar a narrativa e exaltar a determinação das autoridades e os esforços de resgate. A IA pode aprimorar a performance, mas o roteiro permanece inalterado”, denunciou a HRW.
Fonte: gazetadopovo





