O Japão foi um dos países que ajudaram a definir a história da robótica humanoide, mas agora enfrenta uma mudança no equilíbrio do setor. Empresas japonesas passaram a comprar e adaptar máquinas produzidas na China enquanto buscam recuperar espaço na próxima geração de robôs.
Em 1973, pesquisadores da Universidade Waseda apresentaram o WABOT-1, considerado o primeiro humanoide completo em escala humana. A máquina conseguia caminhar sobre duas pernas, manipular objetos e se comunicar, em um período no qual essas funções representavam um grande desafio de engenharia.
Décadas mais tarde, o ASIMO, desenvolvido pela Honda, ampliou a visibilidade japonesa no segmento. Apesar dos avanços, muitos projetos permaneceram caros e experimentais, o que dificultou sua transformação em produtos comercializados em larga escala.
China amplia presença na robótica
O cenário começou a mudar quando fabricantes chineses passaram a oferecer humanoides que podem ser adquiridos por empresas e pesquisadores. Um exemplo é o G1, da Unitree Robotics, lançado comercialmente em 2024 com preço inicial anunciado de cerca de US$ 16 mil.
A diferença de escala também ficou evidente no Humanoids Summit, realizado em Tóquio. Segundo dados citados pela IEEE Spectrum, havia aproximadamente três robôs chineses para cada máquina japonesa apresentada no evento. Empresas japonesas também utilizavam equipamentos importados.
Na robótica industrial, a China já possui uma vantagem ainda mais ampla. Dados da International Federation of Robotics indicam que o país recebeu 295 mil novos robôs industriais em 2024, o equivalente a 54% das instalações registradas no mundo naquele ano.
O estoque chinês superou 2 milhões de robôs industriais. O Japão, por sua vez, tinha cerca de 450,5 mil máquinas em operação e registrou 44,5 mil novas instalações em 2024, mantendo a segunda maior posição no mercado mundial.
Humanoides chineses chegam a Haneda
Em junho de 2026, a GMO AI & Robotics tornou-se distribuidora autorizada da Unitree no Japão. A estratégia não se limita à venda dos equipamentos. A empresa também pretende adaptar softwares, movimentos e sistemas para as necessidades de clientes japoneses.
Uma das primeiras aplicações práticas ocorreu no aeroporto de Haneda, em Tóquio. A GMO e a JAL Ground Service iniciaram um experimento com humanoides voltado para operações aeroportuárias, incluindo o carregamento e descarregamento de bagagens e cargas.
O movimento mostra uma mudança importante na robótica japonesa: em vez de depender apenas do desenvolvimento interno de máquinas, empresas passaram a incorporar plataformas estrangeiras e concentrar esforços na adaptação de software, inteligência artificial e aplicações específicas.
Japão aposta em inteligência artificial
Outra frente de reação é liderada pela AI Robot Association, organização comandada pelo professor Tetsuya Ogata, da Universidade Waseda. A iniciativa reúne pesquisadores e empresas para compartilhar dados de treinamento e desenvolver tecnologias que possam funcionar em diferentes plataformas.
Segundo Ogata, o grupo já acumulou cerca de 80 mil horas de dados de teleoperação de manipuladores móveis. Esse material é usado para desenvolver modelos capazes de integrar visão, linguagem e ação.
Disputa vai além do hardware
A competição atual não depende apenas de construir robôs capazes de andar. O desafio é criar plataformas generalistas que usem inteligência artificial para aprender tarefas variadas e atuar em ambientes reais.
A China avançou ao combinar hardware de menor custo, produção rápida e treinamento em grande escala. O Japão tenta responder usando sua experiência acumulada, sua base industrial e iniciativas para ampliar o compartilhamento de dados.
O resultado dessa disputa poderá definir quais empresas terão maior influência na próxima fase da robótica humanoide, marcada pela integração entre máquinas físicas e sistemas de inteligência artificial.
Fonte: cenariomt





