Mundo

Cais do Valongo será transformado em museu em prédio histórico

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026

O Cais do Valongo, na região portuária do Rio de Janeiro, ganhará um novo espaço dedicado à preservação e à interpretação da história da presença africana no Brasil. A cerimônia que marcou a entrega de um prédio histórico para a futura instalação do museu começou nesta terça-feira (18), com um cortejo do Afoxé Filhos de Gandhi.

O imóvel, conhecido como Edifício Docas André Rebouças, fica em frente ao sítio arqueológico do Cais do Valongo. Apenas uma rua separa a construção do local onde foram encontrados vestígios relacionados à chegada de africanos escravizados às Américas.

Descoberto em 2011 durante obras de revitalização da região, o Cais do Valongo foi construído em 1811. O local reúne evidências históricas da chegada de cerca de 1 milhão de africanos escravizados que desembarcaram nas Américas.

Atualmente, o sítio arqueológico pode ser visitado a céu aberto e conta com placas informativas. A criação de um espaço fechado pretende ampliar a experiência dos visitantes e oferecer estrutura para a apresentação de informações e peças relacionadas à história do local.

Novo centro terá acervo histórico

O presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Deyvesson Gusmão, afirmou que o novo espaço permitirá aprofundar a narrativa sobre a importância do sítio arqueológico para o Brasil e para o mundo.

“É importante que essa narrativa sobre o sítio arqueológico e a importância dele para o Brasil e para o mundo seja contada também dentro desse prédio”, afirmou.

O futuro Centro de Interpretação da Herança Africana do Cais do Valongo deverá receber um acervo estimado em mais de 1 milhão de itens encontrados no próprio sítio e em áreas próximas da zona portuária, conhecida como Pequena África.

O Cais do Valongo é reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como patrimônio cultural da Humanidade. Uma lei federal também reconhece o sítio arqueológico como patrimônio histórico e cultural afro-brasileiro.

A adaptação do antigo prédio das Docas está orçada em R$ 77 milhões, com recursos do orçamento da União. A previsão é que as obras tenham duração de três anos.

Prédio homenageia engenheiro negro

O imóvel também abrigará o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana e o Memorial André Rebouças, em homenagem ao engenheiro responsável pelo projeto da construção.

O prédio foi erguido em 1871, durante o período imperial, quando era chamado de Armazém Dom Pedro II. O nome André Rebouças foi adotado em 2025.

Natural da Bahia, André Rebouças foi o primeiro engenheiro negro do país e teve atuação destacada no movimento abolicionista. A construção que leva seu nome não utilizou mão de obra escravizada.

Pesquisa poderá levar décadas

Segundo o presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Santos Rodrigues, a dimensão do acervo exigirá um longo trabalho de pesquisa, identificação e catalogação.

“Vai ser ao longo de 20 anos, 30 anos, que vai se dizer o que tem. Vamos precisar de equipe de todo o mundo pesquisando, identificando, trazendo à tona”, afirmou.

Entre os objetos já identificados estão anéis, cachimbos, peças de vestuário e iscas de pesca. Parte desse material já estava exposta em outros museus.

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, classificou a iniciativa como uma forma de reparação histórica diante dos séculos de escravidão no país.

“Todo mundo, pretos, brancos e indígenas, precisa estar unido nesse processo, porque o Brasil só será um país com democracia cidadã quando essa justiça for feita”, declarou.

Participação da sociedade civil

O Cais do Valongo é acompanhado por um comitê gestor formado por representantes das três esferas de governo e da sociedade civil.

Entre os integrantes está Nilson Moreira, representante da Casa da Tia Ciata, organização localizada na Pequena África. Para ele, a transformação do prédio será importante para apresentar a história do sítio aos visitantes.

“É muito importante para que a pessoa que ainda não conhece a história do Cais do Valongo tenha um resumo já na frente da escavação”, afirmou.

Moreira também destacou que o novo espaço poderá ampliar o acesso às informações sobre a cultura negra e a formação histórica da região. Ele é trineto de Tia Ciata (1854-1924), baiana reconhecida como uma das matriarcas do samba carioca.

Na avaliação do representante, a atuação do comitê gestor também busca preservar a identidade dos imóveis e da própria região portuária.

Pequena África reúne pontos históricos

A Pequena África ocupa uma área da região portuária do Rio de Janeiro marcada pela presença e pela influência da população africana e de seus descendentes. O território se tornou um importante circuito turístico e histórico da cidade.

Além do Cais do Valongo, a região reúne locais relacionados à memória e à cultura afro-brasileira. Entre eles estão o Quilombo da Pedra do Sal, o Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab) e o Cemitério dos Pretos Novos.

O Cemitério dos Pretos Novos era utilizado para sepultar pessoas escravizadas que morriam depois da chegada dos navios negreiros à Baía de Guanabara ou logo após o desembarque, antes de serem vendidas.

Nas proximidades do futuro Centro de Interpretação da Herança Africana do Cais do Valongo, a Prefeitura do Rio de Janeiro também constrói o Centro Cultural Rio-Áfricas. O projeto será dedicado à valorização da ancestralidade afro-diaspórica, com exposições, mostras, formação artística e atividades educativas.

Fonte: cenariomt

Sobre o autor

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.