Notícias

Advogado sequestrado e torturado pelo PCC sobrevive ao tribunal do crime – Conheça sua história de superação

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026
medo panico quem advogado sequestrado torturado pcc sobreviveu tribunal crime

Via @jornaloglobo | O advogado criminalista Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, foi sequestrado em junho depois de entrar na Justiça para defender os interesses de um empresário em uma disputa societária. O processo, segundo ele, envolvia um homem apontado como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC). No dia 11 daquele mês, Rafaell foi atraído para uma comunidade em Cubatão, na Baixada Santista, sob o pretexto de prestar um serviço jurídico. Acabou levado para um barraco, onde foi submetido a um “tribunal do crime” e mantido em cárcere por cerca de seis horas.

O caso é investigado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em parceria com a Polícia Militar, e deu origem à Operação Patrocínio Fiel, deflagrada em 12 de agosto.

Aos 36 anos, Rafaell é formado em Direito pela Universidade Santa Cecília, em Santos. Antes de atuar como advogado, estagiou na Prefeitura de Santos, entre 2012 e 2013, e na Defensoria Pública do Estado de São Paulo, de 2013 a 2014. Hoje, trabalha como advogado criminalista.

Disputa por empresa de pesca

A origem do caso está em uma disputa envolvendo uma empresa de pesca em Guarujá. Rafaell entrou com uma ação judicial em nome de um cliente que, segundo ele, foi retirado da sociedade por Wagner Rodrigues dos Santos, apontado como integrante do PCC.

O cliente e Wagner eram amigos de infância, disse o advogado à Folha de S. Paulo. Eles teriam mantido uma sociedade e, de acordo com Rafaell, Wagner prometeu pagar ao antigo sócio o valor correspondente à sua participação após sua saída. O pagamento, porém, não teria sido feito.

Convite para um serviço jurídico

Foi nesse contexto que Rafaell recebeu, em 11 de junho, uma ligação de William Nascimento Boaventura. Segundo seu relato ao g1, o homem disse precisar de assistência jurídica para tentar a libertação de um suposto integrante do PCC que estava preso.

O encontro foi marcado em uma comunidade na Vila Esperança, em Cubatão. Rafaell percebeu durante o trajeto que poderia estar sendo levado para uma armadilha. A confirmação veio quando chegou ao endereço e encontrou o grupo.

Ele foi levado para um barraco e permaneceu no local das 19h à 1h da madrugada seguinte. Cerca de 30 homens participaram presencialmente do chamado “tribunal do crime”. Outros acompanhavam a sessão por videochamada.

A exigência inicial era que Rafaell entregasse o endereço do cliente. Diante da recusa, os criminosos passaram a pressioná-lo para que desistisse da ação judicial. O celular do advogado também foi tomado. Ele foi obrigado a desbloquear o aparelho, e os criminosos vasculharam o conteúdo. Segundo Rafaell, arquivos pessoais e íntimos encontrados no telefone foram usados para ameaçá-lo.

Após horas de ameaças e pressão psicológica, ele concordou em abandonar o processo e foi libertado.

Denúncia ao Gaeco

A desistência da ação, no entanto, não encerrou o caso. Depois de deixar o cativeiro, Rafaell procurou o Ministério Público e relatou o sequestro. A partir da denúncia, o Gaeco passou a investigar o episódio. O advogado diz que ficou 15 dias sem dormir depois do crime e passou a desconfiar de ligações de números desconhecidos. Também relata episódios de medo e pânico e afirma que pessoas próximas se afastaram por receio de represálias.

Rafaell está mudando a rotina por razões de segurança e afirma ter tomado conhecimento de que teria sido condenado à morte pelo chamado “tribunal do crime”. Mesmo com medo, decidiu tornar o caso público.

— Eu tô com medo de morrer e eu gostaria que essas reportagens, a mídia reportasse isso para que algo acontecesse — afirmou à Folha de S.Paulo.

Relembre a Operação Patrocínio Fiel

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) realizou a operação para cumprir mandados de prisão temporária contra sete investigados por suspeita de envolvimento nos crimes de organização criminosa, sequestro, extorsão, tortura e ameaça praticados contra o advogado.Outros três alvos de mandados de prisão estão foragidos e um investigado morreu em suposto confronto com a Polícia Militar de São Paulo.

A Operação Patrocínio Fiel teve como objetivo interromper a atuação criminosa dos investigados, identificados como integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), preservar a integridade da vítima e assegurar a obtenção de provas fundamentais para o avanço das investigações.

Foram cumpridos também 19 mandados de busca e apreensão em diversos endereços localizados nos municípios de Guarujá, São Vicente, Praia Grande e Cubatão, no Estado de São Paulo, além de Florianópolis, em Santa Catarina.

As medidas judiciais envolveram residências dos investigados, estabelecimentos comerciais vinculados ao grupo criminoso e o imóvel apontado pelas investigações como o local onde a vítima teria sido mantida em cativeiro.

Por meio da prisão cautelar dos investigados, a operação buscou desarticular importantes lideranças do PCC com atuação na Baixada Santista. A operação tem a participação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP-SP e Batalhões de Choque da Polícia Militar.

— Essa operação mostra a força da integração entre as instituições no combate ao crime organizado. Nossas equipes atuaram de forma estratégica e simultânea para localizar os investigados, preservar a vítimas e retirar de circulação integrantes de um grupo envolvido em crimes de extrema gravidade. O objetivo sufocar a atuação dessas organizações e garantir que a população tenha cada vez mais segurança — afirmou o coronel Rogério Nery, comandante do Policiamento de Choque.

Por O Globo — São Paulo
Fonte: @jornaloglobo

Sobre o autor

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.