A Colômbia terá novamente, a partir desta sexta-feira (7), um presidente de direita, com a posse de Abelardo de la Espriella. O novo mandatário assume o cargo prometendo reverter as políticas do presidente de esquerda Gustavo Petro, recuperar o controle de áreas dominadas pelo crime organizado e restabelecer uma aliança mais estreita entre a Colômbia e os Estados Unidos.

A cerimônia de posse ocorrerá sob forte esquema de segurança, após uma sequência de ameaças atribuídas a dissidências das Farc e outros grupos armados e da explosão de um caminhão-bomba nas proximidades de uma unidade policial em Cúcuta (leia mais abaixo).

O evento será realizado na cidade de Cali, no sudoeste colombiano, uma mudança simbólica em relação à tradição de posse presidencial no Congresso, na capital Bogotá. Segundo De la Espriella, seu objetivo é já iniciar um processo para “retomar a soberania” sobre regiões que, na avaliação dele, foram entregues por Petro aos narcoterroristas.

O sudoeste da Colômbia concentra atualmente áreas de produção de coca, corredores do tráfico de drogas e territórios disputados por dissidências das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

A posse contará com a presença de líderes como o rei Felipe VI, da Espanha, e os presidentes Javier Milei, da Argentina; Daniel Noboa, do Equador; Santiago Peña, do Paraguai; José Antonio Kast, do Chile; e José Raúl Mulino, do Panamá. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não deve comparecer, mas o Brasil enviará representantes. Delegações dos Estados Unidos, de Israel e de outros países também deverão acompanhar a transmissão de poder.

Mudança após quatro anos de Petro

De la Espriella chega à Presidência com uma agenda totalmente oposta à de Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da história recente da Colômbia. Durante seu mandato, iniciado em 2022, Petro apostou em negociações com guerrilhas e organizações criminosas por meio da política conhecida como “paz total”. O projeto buscava negociar acordos de paz, cessar-fogo ou submissão à Justiça com diferentes grupos armados. A estratégia, no entanto, terminou cercada por críticas diante da expansão territorial das organizações criminosas e do aumento dos ataques contra policiais, militares e comunidades.

De acordo com dados da Fundação Ideias para a Paz, think tank sobre segurança pública de Bogotá, citados pela imprensa colombiana, o número de integrantes de grupos armados cresceu 23,5% em 2025 e chegou a 27.121 pessoas, considerando combatentes e integrantes de redes de apoio logístico e financeiro.

O Clan del Golfo, maior organização criminosa do país, teria aproximadamente 9.840 integrantes. Em seguida aparecem o Exército de Libertação Nacional (ELN), com 6.810 membros, e o Estado-Maior Central (EMC), principal dissidência das Farc, com pouco mais de 4 mil integrantes.

De la Espriella prometeu substituir a política de negociação de Petro por uma ofensiva militar contra as organizações que se recusarem a entregar as armas. O presidente eleito já deu até o prazo de um mês para que os grupos criminosos iniciem um processo de submissão ao Estado.

“Em meu governo não haverá ofertas generosas nem concessões inaceitáveis como as que receberam do regime que está chegando ao fim”, afirmou o próximo presidente ao apresentar sua política de segurança.

O comando dessa nova política ficará sob responsabilidade do general da reserva Jorge Eduardo Mora, escolhido para o Ministério da Defesa. De la Espriella também anunciou mudanças na cúpula das Forças Armadas e da Polícia Nacional, além da criação dos chamados Blocos de Segurança Urbana, grupos especializados no combate a roubos, extorsões, lavagem de dinheiro e crime organizado.

A nova política deverá começar a ser colocada em prática já no sábado (8), um dia depois da posse, inicialmente nas principais cidades colombianas.

Economia em baixa

A economia colombiana até cresceu 0,8% em 2023, 1,5% em 2024 e 2,6% em 2025, favorecida sobretudo pelo consumo das famílias, pelo comércio e pelos serviços. Já o investimento estrangeiro direto seguiu trajetória inversa. O Ministério da Fazenda colombiano aponta que este tipo de investimento teve uma queda de 14,1% frente ao ano de 2024, que, por sua vez, já havia registrado retração de 15% na comparação com 2023.

A inflação encerrou 2025 em 5,1% e, seis meses depois, já dobrava a meta oficial de 3%, ao atingir 6,14% no acumulado até junho deste ano. Diante do cenário, o Banco da República, o Banco Central da Colômbia, optou por manter a taxa básica de juros em 12%, na tentativa de conter o avanço dos preços.

O déficit fiscal fechou 2025 no equivalente a 6,4% do PIB, enquanto a dívida pública somou 1,167 trilhão de pesos colombianos, cerca de US$ 373,85 bilhões, ou 60% do Produto Interno Bruto do país (PIB). O cenário deixa pouco espaço de manobra para o novo governo financiar mais investimentos ou até ampliar programas sociais, caso tenha interesse.

Durante a campanha, De la Espriella prometeu reduzir o tamanho do Estado e cortar despesas consideradas desnecessárias como uma das vias para aliviar as contas públicas. O novo governo pretende diminuir em até 40% os gastos da administração pública até 2030, embora tenha afirmado que os principais programas sociais serão preservados.

Polícia encontra ônibus com explosivos em Cali

A transição de poder ocorre em meio a uma nova escalada de atentados e ameaças atribuídas a grupos armados. Nesta quarta-feira (5), a polícia desativou um ônibus carregado com cerca de 420 quilos de nitrato de amônio em uma estrada do departamento de Cauca, região próxima a Cali.

De acordo com a Polícia Nacional, os explosivos estavam distribuídos em sete cilindros e seriam utilizados contra instalações militares e policiais. As autoridades atribuíram o plano ao Estado-Maior Central, maior dissidência das Farc, comandada pelo líder criminoso Néstor Gregorio Vera, conhecido como “Iván Mordisco”.

Segundo a investigação, o atentado teria como objetivo sabotar a posse e demonstrar capacidade militar do grupo ao novo governo. O ônibus, os cilindros e as plataformas que seriam utilizadas para lançar os explosivos foram apreendidos.

O episódio ocorreu poucos dias depois da explosão de um caminhão-bomba ao lado de uma unidade policial em Cúcuta, perto da fronteira com a Venezuela. O ataque deixou oito policiais e três civis feridos, além de causar danos a residências e estabelecimentos comerciais.

O ministro da Defesa do governo Petro, Pedro Sánchez, afirmou que existe uma ameaça “latente” de ataques durante a cerimônia de posse de De la Espriella em Cali. Segundo ele, organizações criminosas podem tentar atingir o evento para desafiar o Estado e desestabilizar o início do novo mandato.

Mais de 11 mil militares e policiais participarão do esquema de segurança da posse em Cali. O plano inclui bloqueios de estradas, vigilância aérea, helicópteros armados, aviões de inteligência, restrições ao porte de armas e a proibição do uso de drones na cidade e nos municípios vizinhos.

A preocupação com drones ocorre porque grupos guerrilheiros passaram a utilizar esses equipamentos para transportar e lançar explosivos contra unidades policiais e militares. As autoridades também montaram um plano de segurança no aeroporto internacional de Cali para receber as delegações estrangeiras.