Flávio Dino, André Mendonça e Alexandre de Moraes tornaram-se maestros involuntários de processos que têm o potencial de implodir palanques, asfixiar finanças partidárias e reconfigurar o equilíbrio de forças com impacto direto nas urnas Brasil afora. Os ministros do STF conduzem neste ano de eleição alguns dos casos mais explosivos da República:
Todos esses casos têm grande repercussão política tanto para a base do governo Lula (PT) quanto para a oposição. O momento de decisões específicas em cada um destes processos tem potencial de erguer ou sepultar candidaturas de forma fulminante.
O radar na destinação de emendas parlamentares
O embate do ministro Flávio Dino — que conduz os inquéritos sobre falta de transparência e eventuais desvios de bilhões em emendas parlamentares — com lideranças do Centrão não vem de hoje, e sim pelo menos desde 2024. O conflito ganhou ares dramáticos a pouco mais de dois meses do primeiro turno, com a mais recente decisão de Dino no caso.
No último dia 10, o ministro determinou a suspensão de emendas parlamentares que teriam sido indicadas irregularmente pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Ele é investigado pela suspeita dos crimes de desvio de dinheiro e de associação criminosa.
A Polícia Federal investiga se Costa Neto desviou R$ 119 milhões em emendas parlamentares por meio de um esquema clandestino — o ministro do STF determinou o bloqueio do mesmo valor em bens do dirigente partidário, que diz não possuir tamanho patrimônio.
Em entrevista à GloboNews no dia 14, o presidente do PL confirmou que decidiu o destino de emendas, defendeu as ações e diz que todos os dirigentes de partidos políticos com representantes no Congresso fazem o mesmo. “É lógico, a função do presidente é cuidar do partido”, disse.
“O deputado chega para mim e diz: ‘Valdemar, olha aqui, eu fiz as emendas, vai sobrar R$ 5 milhões das minhas emendas’. Aí, eu pego essas emendas, dou para os deputados que não têm mais emendas, que acabou com as emendas dele e precisa de atender mais cidades. Essa função é uma função normal. A liderança examina as condições e quem assina isso é o líder”, declarou.
As declarações de Costa Neto têm potencial de ampliar a crise, já que o ministro Dino considerou o expediente irregular e cobra explicações de outros líderes de partidos se o que o líder do PL disse sobre eles destinarem verbas de emendas parlamentares é verdade. O prazo para as manifestações no processo está aberto.
Desde então, Dino determinou o envio das manifestações de Valdemar Costa Neto e de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, à Polícia Federal, para que integrem as investigações, mantendo aberta a apuração sobre eventual participação de dirigentes partidários na destinação de emendas parlamentares.
Todos de olho em novas fases das operações relacionadas ao Master
Se as emendas asfixiam o varejo político, o avanço do caso Master no gabinete do ministro André Mendonça ameaça provocar um curto-circuito na alta cúpula dos maiores partidos do país, atingindo o topo da pirâmide governista e da oposição conservadora de forma simultânea. A relatoria do inquérito que investiga ramificações financeiras e supostas vantagens indevidas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso no âmbito da investigação, e ao Banco Master transformou Mendonça no homem mais temido e cortejado de Brasília.
A complexidade do caso reside na sua transversalidade ideológica. De um lado, a investigação alcançou o coração do governo Lula ao mirar o senador Jaques Wagner (PT), até então líder do governo Lula no Senado.
Alvo de mandados de busca e apreensão autorizados por Mendonça, Wagner se viu obrigado a vir a público tentar explicar transações imobiliárias e movimentações financeiras atribuídas por investigadores a pressões políticas em favor da instituição financeira. Ele é suspeito no inquérito da PF de ter recebido cerca de R$ 8 milhões de Vorcaro, e diz que não há nenhuma irregularidade nos negócios de familiares e pessoas próximas com o banqueiro.
Do outro lado do espectro, a mesma caneta de Mendonça mantém a corda no pescoço do senador Ciro Nogueira, cacique do Progressistas e um dos principais pilares da oposição de direita, também sob a lupa por supostos favorecimentos ao banco. A proximidade dele com o banqueiro preso está detalhada no inquérito da PF, que também já lhe rendeu uma operação de busca e apreensão, com mensagens e fotos dos dois juntos em viagens internacionais.
Nogueira também teria recebido cerca de R$ 6 milhões apenas entre 2024 e 2025 para defender os interesses do banqueiro no Senado. As investigações continuam, e o senador nega qualquer irregularidade na relação entre os dois.
O ingrediente que torna o caso Master ainda mais volátil é a presença colateral do principal pré-candidato à Presidência da República da oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no cenário. O senador foi exposto em vazamento à imprensa em troca de mensagens amistosas com Vorcaro, onde chega a chamar o ex-dono do Banco Master de “irmãozão”, e diz que “estarei contigo para sempre”.
Mensagens revelam que Flávio pediu R$ 134 milhões de financiamento ao banqueiro para a cinebiografia ainda não lançada do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), intitulada Dark Horse — o próprio senador confirma que recebeu parte do dinheiro para a produção cinematográfica, e nega qualquer possível irregularidade. O caso segue aberto no gabinete de Mendonça no STF.
Investigação sobre desvios de aposentadorias do INSS tem potencial de atingir campanha lulista
Paralelamente, corre na mesa de Mendonça no STF outro caso explosivo, com repercussões imprevisíveis para Lula e seus aliados às vésperas das eleições: o escândalo dos desvios bilionários de aposentadorias do INSS por meio de descontos indevidos, e a aparição do nome de Fábio Luiz da Silva, conhecido como “Lulinha” e filho do presidente da República, no meio das investigações.
“Lulinha” se tornou alvo da PF e da CPMI do INSS e teve os sigilos bancário, fiscal e telemático quebrados por suposto vínculo com o caso. Os dados sobre ele ainda estão em análise. A Polícia Federal teria informado ao ministro relator do caso [https://www.gazetadopovo.com.br/republica/investigacao-careca-do-inss-lulinha-trava-na-pf/] que as investigações estão atrasadas e devem ser prorrogadas significativamente.
Neste mês, a PF concluiu a primeira parte das investigações da operação “Sem desconto”, sobre os desvios. O relatório, de 265 páginas, foi apresentado pela PF ao ministro.
As conclusões serão encaminhadas à Procuradoria-Geral da República (PGR), que é a quem cabe apresentar a denúncia, pedir o arquivamento do caso ou solicitar novas diligências. Ao todo, até agora foram indiciadas 48 pessoas — o filho do presidente não está entre elas.
Operações e olhar do STF alterou estratégia para as eleições no RJ
Se no âmbito nacional e em outros estados os inquéritos conduzidos pelos ministros do STF são uma ameaça eleitoral constante, no Rio de Janeiro a situação já é de “terra arrasada” para o grupo do ex-governador e ex-pré-candidato ao Senado Cláudio Castro (PL). A PF e o STF têm conduzido operações interligadas no estado.
Os principais alvos são esquemas bilionários de lavagem de dinheiro, corrupção, desvio de emendas parlamentares e ligações de políticos com milícias e facções. Duas das operações de maior repercussão sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes são a “Unha e carne” e “Sem refino”.
Na primeira, a PF investiga a relação de agentes públicos e deputados estaduais do Rio de Janeiro com milícias e facções criminosas, além de lavagem de dinheiro. A operação revelou movimentações de bilhões de reais e listas com dezenas de políticos.
O ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e ex-candidato de Castro à sucessão no governo do Rio, Rodrigo Bacellar (União Brasil), foi preso e transferido para um presídio federal por ordem de Moraes.
Na segunda operação, que investiga um esquema de fraude e sonegação fiscal no ramo de combustíveis no estado fluminense, o próprio Castro é um dos alvos. Ele já estava condenado à inelegibilidade desde o ano passado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas pretendia concorrer ao Senado com recursos à Justiça.
Porém, após ser alvo de duas operações de busca e apreensão em menos de 15 dias por parte da PF em maio, o PL desistiu de lançar o ex-governador para o cargo. Além da operação “Sem refino” relatada por Moraes, motivo da primeira batida policial, Castro é investigado na 8ª fase da “Compliance zero”, relatada por Mendonça — que investiga aportes de R$ 3 bilhões do Rioprevidência em fundos ligados ao Banco Master. O ex-governador do Rio nega qualquer irregularidade nos dois casos.
Fonte: gazetadopovo





