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Pesquisadora da UFMT falecida aos 33 anos tem trabalho premiado globalmente após sua morte

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2026

Uma tese desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) foi reconhecida como a melhor tese em língua portuguesa na conferência de 2026 da International Society for Humor Studies (ISHS), realizada em Niterói (RJ).

A pesquisa, intitulada “O país do absurdo: a teledramaturgia de Dias Gomes como forma de ler o Brasil em O Bem-Amado (1973)”, é de autoria de Iza Godoi Sepúlveda, que morreu no fim de junho. O trabalho recebeu o prêmio de melhor tese de 2025.

Na pesquisa, Iza analisou como a novela O Bem-Amado, escrita por Dias Gomes e exibida em 1973, utilizou o humor para construir críticas políticas e sociais durante a ditadura militar.

Humor como espaço para a crítica

Segundo a orientadora da tese, professora Thaís Leão Vieira, uma das principais contribuições do estudo é a formulação do conceito de “ação nas brechas”. A expressão descreve como artistas e intelectuais encontravam espaços para a manifestação política mesmo diante da censura e das pressões da indústria cultural.

A tese também contesta a interpretação de que as críticas presentes em produções como O Bem-Amado eram exibidas porque os censores não conseguiam identificá-las.

De acordo com Iza, os censores percebiam o conteúdo crítico, mas consideravam que o humor diminuía a seriedade da mensagem apresentada ao público.

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A análise aponta que determinadas críticas eram permitidas porque a comédia era vista como uma forma artística inferior ao drama. Essa avaliação, segundo o estudo, criava brechas para que o humor provocasse reflexão e expusesse aspectos políticos e sociais do país.

“Essa é uma das formulações mais originais do trabalho: ela mostra que aquilo que a censura tentava rebaixar como ‘comédia’ podia, justamente por sua ambivalência, abrir brechas para a crítica”, explicou Thaís.

Ainda conforme a orientadora, a censura não agia apenas por meio da proibição de conteúdos. Os censores também tentavam orientar a interpretação do público, controlar os efeitos das narrativas e enquadrar as produções em determinados padrões estéticos e morais.

Personagens expõem contradições do Brasil

A construção das personagens de O Bem-Amado também recebeu atenção na pesquisa. Odorico Paraguaçu, por exemplo, é analisado a partir da contradição entre o discurso e as atitudes.

Na tese, o personagem é apresentado como alguém interessado principalmente na manutenção do poder. A linguagem exagerada, os duplos sentidos e a relação estabelecida com a câmera permitem que o público reconheça o disfarce e o cinismo do político.

Já Zeca Diabo é inicialmente anunciado como uma ameaça, mas aparece cercado por contradições que despertam a simpatia dos espectadores. O medo dos moradores de Sucupira diante da chegada do personagem divide espaço com situações cômicas.

A partir dessa relação, a tese sustenta que o absurdo não interrompe o drama, mas funciona como uma das maneiras de narrar a realidade brasileira.

Pesquisa reuniu documentos e cenas da novela

Para desenvolver o estudo, Iza analisou documentos da censura, cenas da novela, entrevistas, revistas especializadas e debates sobre a recepção da obra.

Segundo Thaís, o trabalho demonstra que a televisão não apenas retratou conflitos existentes na sociedade, mas também participou da construção de sentidos relacionados à política, à moralidade e ao próprio Brasil.

“Sua leitura de O Bem-Amado amplia as possibilidades de investigação da teledramaturgia e reafirma o audiovisual como fonte e objeto relevante para a historiografia”, afirmou a orientadora.

A pesquisa também contribui para o reconhecimento da telenovela como objeto de investigação histórica. Primeira novela em cores exibida pela TV Globo, O Bem-Amado é uma das produções de destaque da teledramaturgia brasileira.

Ao analisar a obra, a tese discute temas como autoritarismo, cultura política, moralidade, consumo cultural, formação de públicos e construção da identidade nacional.

Fonte: primeirapagina

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