Frustrados com a condução do projeto que prometia elevar a remuneração da categoria e acabou naufragando no Congresso, os trabalhadores apontam, agora, que as novas medidas de crédito anunciadas fazem pouco pela categoria e possuem apelo eleitoral.
Uma das apostas do Executivo, a linha de crédito de cerca de R$ 4 bilhões do programa Move Brasil [https://www.gazetadopovo.com.br/automoveis/move-brasil-programa-bilionario-lula-motoristas-fortalecer-montadoras-chinesas/], começará a operar em 27 de julho, após ter sido adiada por entraves bancários. O programa permitirá financiar motos e bicicletas elétricas para entregadores e mototaxistas, com prazo de até 48 meses e dois meses de carência.
Para Abel Santos, presidente da Associação dos Trabalhadores por Aplicativos e Motociclistas (Atam), o programa não beneficiará justamente quem mais precisa renovar a motocicleta para continuar trabalhando.
O ativista afirma que muitos entregadores já chegam ao programa com restrições de crédito ou elevado nível de endividamento, o que reduz significativamente as chances de aprovação do financiamento. “Oferecer empréstimos não resolve o principal problema dos entregadores, que é a baixa remuneração paga pelas plataformas”, diz.
O ceticismo da categoria também é reforçado pela experiência recente da linha de financiamento criada para motoristas de aplicativo, no valor de R$ 30 bilhões, anunciada em maio. Para testar a eficácia do programa, a Atam reuniu dez motoristas com nome limpo e bom histórico de crédito.
Todos foram aprovados na etapa inicial, mas ao procurar os bancos receberam ofertas de financiamento parcial do valor dos veículos, percentual insuficiente para concluir a compra.
“Quando chegou ao banco, ofereceram financiamento de no máximo 25% do valor do carro. Ninguém conseguiu efetivar o financiamento. Se não funcionou para os motoristas, a expectativa para as motos é zero”, diz.
Para Alexandre Santos, presidente da Associação União Maior, de Santa Catarina, as ações são vistas pelos entregadores como “eleitoreiras”.
“Não somos contra as medidas, mas elas chegaram tarde”, afirma. “O governo dialoga conosco desde o início do mandato e só agora, em período pré-eleitoral, começaram a aparecer essas iniciativas”, declara.
Para ele, o governo tenta resolver um problema de renda com mais crédito. “Sem melhorar a remuneração, oferecer crédito significa apenas criar mais endividamento. Crédito sem renda não resolve.”
Entregadores temem que programa do governo gere mais endividamento
Em meio à frustração com a atuação do governo em suas pautas, representantes dos entregadores apontam preocupação com o risco de endividamento por conta da linhas de crédito, num momento de instabilidade no mercado de delivery.
A chegada de novas plataformas chinesas elevou temporariamente a remuneração em algumas cidades, mas lideranças da categoria afirmam que esses ganhos costumam desaparecer poucos meses depois, tornando ainda mais arriscada a contratação de financiamentos de longo prazo.
Alexandre afirma que o aumento da concorrência trouxe uma melhora pontual na remuneração, mas insuficiente para mudar a realidade dos trabalhadores. “É uma melhoria, mas ela tem uma duração muito limitada. É coisa de meses, às vezes até de um mês.”
Segundo ele, as plataformas elevam os pagamentos na fase inicial para atrair entregadores e acelerar a expansão das operações. Depois de consolidada a base de trabalhadores, os valores voltam ao patamar praticado anteriormente.
Abel confirma: “A 99 chegou, por três meses pagou bem para chamar o trabalhador e depois já está igual ao iFood”. Para ele, a sensação de ganho, mesmo temporário, pode encorajar aumento do endividamento dos entregadores. “Ninguém pode contar com isso”, diz.
Projeto de regulamentação desgastou relação de entregadores com o governo
A frustração da categoria começou muito antes do lançamento das linhas de crédito. Durante a campanha de 2022, Lula prometeu regulamentar o trabalho por aplicativos e, já no governo, instalou um grupo de trabalho para construir uma proposta.
O projeto [https://www.gazetadopovo.com.br/economia/governo-reavalia-regulamentacao-trabalho-aplicativos-desgaste/?ref=busca], porém, enfrentou resistência tanto das plataformas quanto de parte dos próprios entregadores e acabou travado na Câmara. O principal impasse passou a ser a criação de uma remuneração mínima por entrega, defendida pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, mas rejeitada por empresas e contestada por lideranças da categoria.
Para o presidente da Atam, a condução das negociações deixou de lado reivindicações consideradas prioritárias pelos entregadores e gerou desgaste com o governo.
“O Lula sai horrivelmente desgastado”, diz Abel. “A pauta ficou concentrada na remuneração mínima de R$ 10 por entrega, que não solucionava o problema. Nós queríamos discutir proteção ao trabalhador, piso e jornada, e isso nunca foi debatido.”
Relação com ministro Boulos rachou base de entregadores
Além de gerar forte desgaste com empresas do setor [https://www.gazetadopovo.com.br/economia/governo-lula-ameaca-criminalizar-plataformas-entregas-por-regulamentacao-aplicativos/], a condução do governo acabou se transformando em um “tiro no pé” para o Planalto, com entregadores acusando o ministro Guilherme Boulos de instrumentalizar lideranças de trabalhadores para negociar um projeto rejeitado pela base para fins eleitorais.
Em fevereiro, o presidente da Atam declarou que Boulos usou outra entidade – a Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativo (Anea), uma das mais representativas do movimento, que participou das negociações – para atender seus interesses eleitorais.
“Ele instrumentou as lideranças, criou uma narrativa única sobre as reivindicações dentro da bancada e, no final, negociou apenas o INSS, deixando o trabalhador sem direito a nada”, diz.
O motofretista e ativista Paulo Roberto da Silva Lima, o “Paulo Galo”, ex-aliado histórico de Boulos e um dos principais nomes nas mobilizações da categoria, também rompeu com o ministro e passou a criticá-lo publicamente nas redes sociais.
Na avaliação do representante da Atam, a sequência de iniciativas deixou uma imagem negativa do governo entre os entregadores, que dificilmente será revertida apenas com programas de crédito lançados às vésperas da campanha eleitoral. “Se ele precisar de um voto da categoria para vencer o segundo turno, ele não vai ter”, afirma Abel.
Fonte: gazetadopovo





