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Descubra os 8 capítulos do Ciclo Épico de Troia: além de Odisseia e Ilíada!

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2026

O cavalo de Troia. O saque e a destruição da cidade. A flecha no calcanhar que matou Aquiles, o herói quase invencível. A trágica morte de Odisseu, assassinado pelo próprio filho. 

Provavelmente, você conhece alguns destes eventos relacionados à famosa Guerra de Troia, adaptada para as telonas recentemente no filme de Christopher Nolan. O que talvez você não saiba é que nenhum deles é contado em detalhes nem em A Ilíada nem em A Odisseia, os dois poemas épicos de Homero, considerados hoje duas das histórias mais antigas e importantes da literatura Ocidental.

O próprio truque do cavalo, por exemplo, é citado só brevemente por Homero. Muitos outros episódios centrais da história da guerra sequer aparecem nos textos. Eles fazem parte de outras obras literárias escritas nas décadas e séculos após os poemas homéricos.

A Ilíada e A Odisseia são só duas partes de uma saga muito maior, que aborda os antecedentes da Guerra de Troia, os detalhes do conflito em si e o que aconteceu com seus heróis depois. Essas histórias foram o que, hoje, é chamado de “Ciclo Épico” por estudiosos, e eram contadas (e cantadas por bardos) na Grécia Antiga.

O problema é que seis dessas narrativas se perderam ao longo da história; os dois poemas homéricos são os únicos que sobreviveram até hoje. Só sabemos das outras histórias por conta de resumos escritos por autores antigos e alguns fragmentos e citações que foram preservados em outras obras.

Das oito, somente a Ilíada e a Odisseia são atribuídas diretamente a Homero. Não sabemos se o autor existiu mesmo – é possível que as histórias tenham sido compostas e editadas por vários autores e cantores ao longo do tempo e que, em conjunto, receberam o título de “Homero” –, mas o fato é que ele era considerado o maior poeta pelos gregos antigos, e suas obras eram quase obrigatórias na formação das elites.

É talvez por esse motivo que seus poemas sobreviveram – eles eram frequentemente copiados em novos pergaminhos e livros.

Romanos usavam fóssil de trilobita como joia

Já os outros seis poemas são de outros autores e muito provavelmente posteriores às histórias homéricas. Eles possivelmente foram escritos para completar uma linha do tempo coerente da Guerra de Troia, já que a Ilíada narra apenas um pedaço do conflito, e a Odisseia conta a história da viagem de volta de Odisseu (interpretado por Matt Damon no filme) após o fim da guerra. 

É provável que essas obras também se baseiem em histórias que circulavam de maneira oral entre os gregos, talvez por séculos. Como foram escritas por pessoas diferentes, em épocas distintas, às vezes as histórias se contradizem.

Vamos conhecer os poemas do Ciclo Épico abaixo, na ordem cronológica das histórias que contam (e não na ordem em que foram escritas).

1 – Cypria

Mulher negra com cabelo crespo e molhado, usando um adorno dourado no cabelo, olha para o lado com expressão séria. Gotas de água cobrem seu rosto e cabelo. Ao fundo, um ombro com armadura e céu nublado
(Universal Studios/Reprodução)

Autor atribuído: Estacino de Chipre

Quando foi escrita: por volta do século 7 a.C.

O poema perdido conta a origem da Guerra de Troia. O príncipe Paris, da cidade de Troia, é escolhido como juiz para uma competição especial: escolher qual das deusas do Olimpo – Afrodite, Hera ou Atena – era a mais bela de todas.

Paris escolhe Afrodite, a deusa do amor, como a vencedora. Como prêmio, a deusa lhe concede o amor de Helena, a mulher mais linda do mundo. O problema é que Helena era casada com o rei de Esparta, Menelau.

Quando Paris leva Helena para Troia, os reis gregos se unem e declaram guerra à cidade. Inicia-se assim o conflito que levará dez anos para ser concluído. Antes de partir, Agamenon, rei de Micenas e líder dos gregos, sacrifica a própria filha, Ifigênia, para os deuses.

O poema narra a preparação para a guerra, as primeiras batalhas e o começo do cerco, além de outros eventos.

Alguns versos do poema original sobrevivem graças a citações feitas por outros autores. A maior parte do que sabemos sobre a história de Cypria vem de um resumo escrito por um autor pouco conhecido chamado de Proclo – que, aliás, escreveu uma sinopse de todos os poemas do Ciclo Épico. É graças a ele que sabemos a maior parte de suas histórias.

Uma curiosidade é que Aristóteles conhecia Cypria e criticava a obra, considerando-a aquém da qualidade literária de Homero.

2 – Ilíada

Dois guerreiros com armaduras e elmos se encaram, um com penacho preto e outro com penacho vinho, em um campo de batalha com soldados ao fundo
(Universal Studios/Reprodução)

Autor atribuído: Homero

Quando foi escrita: século 8 a.C.

O poema que narra parte do último ano da Guerra de Troia. Foca no herói Aquiles, que, após uma briga com Agamenon, decide abandonar a luta.

Patróclo, amigo (e por vezes interpretado como amante) de Aquiles, é morto pelo príncipe troiano Heitor, o que faz o herói voltar à luta. Aquiles desafia Heitor para um combate e o mata. 

O poema acaba com o rei de Troia, Príamo, implorando para que Aquiles devolva o corpo de seu filho para ser sepultado formalmente, um pedido que é atendido.

A história, é claro, está preservada na sua integridade até hoje.

3 – Etiópida

Armadura antiga de guerreiro, com capacete e crista laranja, semi-enterrada na areia de um deserto. Ao fundo, mais armaduras e armas espetadas na areia, e fumaça no horizonte.
(Universal Studios/Reprodução)

Autor atribuído: Arctino de Mileto

Quando foi escrita: provavelmente no século 7 a.C.

Uma sequência direta da história da Ilíada. A história conta com a chegada de aliados de Troia para batalhar contra os gregos.

Primeiro, chegam as amazonas, lendárias guerreiras mulheres da mitologia grega. A rainha delas, Pentesileia, é morta por Aquiles em combate. 

Depois, chega o exército liderado pelo rei etíope Mêmnon para lutar contra os gregos. Mêmnon mata o herói grego Antíloco, causando ira em Aquiles, que o vinga matando o rei etíope.

O auge desse poema, no entanto, é a própria morte de Aquiles, atingido por uma flecha disparada por Paris, o príncipe troiano.

O poema termina com o funeral de Aquiles e com uma disputa sobre quem deverá herdar sua armadura e suas armas: Odisseu, rei de Ítaca, ou Ajax, outro herói grego importante. 

Poucos versos do poema original sobrevivem. Sabemos da história graças a um resumo escrito por Proclo.

4 – Pequena Ilíada

Silhuetas de dezenas de pessoas puxando cordas conectadas a uma grande estrutura escura em forma de cavalo, parcialmente submersa na água do mar, em uma praia arenosa com ondas ao fundo e céu claro
(Universal Studios/Reprodução)

Autor atribuído: Lesques

Quando foi escrita: possivelmente século 7 a.C.

Conta a história dos eventos após a morte de Aquiles. É aqui que o episódio do Cavalo de Troia é contado em detalhes.

Na disputa entre Odisseu e Ajax para herdar os equipamentos de Aquiles, os gregos julgam que Odisseu é o merecedor, e Ajax se suicida diante da vergonha da derrota.

Paris, príncipe de Troia, é assassinado pelo herói grego Filoctetes.

Os gregos recebem uma profecia de que Troia jamais cairá enquanto uma estátua da deusa Atena continuar dentro da cidade. Odisseu e Diomedes, outro herói grego, se disfarçam de pedintes e se infiltram na cidade murada; lá, roubam a estátua de Atena e trazem-na para o acampamento grego. 

Logo depois, seguindo os conselhos de Atena, os gregos constroem o famoso cavalo e fingem rendição. Aparentemente, o poema termina com os troianos trazendo o cavalo para dentro da cidade.

Vários versos originais da Pequena Ilíada sobrevivem por causa de citações, e sua história completa é, novamente, resumida pelo autor Proclo.

5 – Iliupersis ou O Saque de Troia

Guerreiros em silhueta correm em meio a um cenário noturno de destruição, com edifícios antigos em chamas e fumaça densa subindo ao céu
(Universal Studios/Reprodução)

Autor atribuído: Arctino de Mileto

Quando foi escrita: provavelmente no século 7 a.C.

Conta, finalmente, a destruição de Troia.

O poema começa com os troianos discutindo o que fazer com o cavalo deixado pelos gregos. Alguns defendem queimá-lo ou jogá-lo do penhasco, outros oferecê-lo para a deusa Atena. A segunda opinião prevalece.

Os troianos vão então festejar a aparente vitória. Quando a noite chega, os gregos são avisados pelo soldado grego Sinon (um personagem que aparece no filme A Odisseia, interpretado por Elliot Page), que estava fora do cavalo. Eles abrem o portão de Troia silenciosamente e a cidade é invadida pelas forças gregas.

O poema narra a destruição em Troia, incluindo o massacre de civis e a destruição de casas e templos. O rei de Troia, Príamo, é morto pelo herói grego Neoptólemo em cima de um altar de Zeus, algo que é considerado uma profanação. Menelau recupera sua esposa Helena.

Depois da vitória, os gregos sacrificam a princesa troiana Polixena, filha de Príamo, na tumba de Aquiles.

A violência e a profanação dos gregos são tamanhas que até a deusa Atena, até então aliada dos gregos, decide puni-los nas suas viagens de volta.

6 – Nostoi, ou Retornos

Guerreiros com armaduras escuras correm por uma colina gramada em direção a barcos antigos no mar azul, sob um céu claro
(Universal Studios/Reprodução)

Autor atribuído: incerto, possivelmente Eumelo

Quando foi escrita: incerto, possivelmente século 8 a.C. ou 7 a.C.

Esse poema conta a história da viagem de volta de vários heróis gregos após a vitória na Guerra de Troia e a destruição da cidade. Por motivos óbvios, tem muitos paralelos com A Odisseia, que conta a história de retorno especificamente de Odisseu.

Com os deuses irados com os gregos devido às barbaridades e profanações cometidas no saque de Troia, vários dos heróis enfrentam desafios e maldições no retorno para a casa.

Menelau, rei de Esparta, tenta voltar para a casa, mas os ventos desfavoráveis enviados pelos deuses fazem com que ele fique preso no Egito por anos.

A história mais famosa é de Agamenon, rei de Micenas e líder das tropas gregas na batalha. Ao chegar em casa, ele é assassinado pela própria esposa, Clitemnestra, que no intervalo de dez anos da guerra arrumou um amante. Mais tarde, o filho de Agamenon, Orestes, mata a própria mãe e seu amante para vingar a morte do pai.

No fim do poema, todos os heróis gregos da Guerra de Troia voltaram para a casa ou morreram, com uma única exceção: Odisseu.

7 – A Odisseia

Homens com armaduras e capacetes antigos, um com penacho vermelho, desembarcam de um barco de madeira na praia, com o mar azul ao fundo
(Universal Pictures/Divulgação)

Autor atribuído: Homero

Quando foi escrita: século 8 a.C.

Essa história você já conhece. O ciclope, a feiticeira Circe, os monstros Caríbdis e Cila, a ilha de Calypso e uma jornada de dez anos.

8 – Telegonia

Mulher de meia-idade com cabelos escuros e expressão preocupada, mãos unidas, vestindo roupa escura. Ao fundo, dois homens barbudos em armaduras e uma fogueira acesa no canto inferior direito, em ambiente escuro
(Universal Studios/Reprodução)

Autor atribuído: incerto, possivelmente Eugamón

Quando foi escrita: incerto

Uma sequência direta da Odisseia, e uma das histórias mais esquisitas do Ciclo Épico.

Nesse poema, descobrimos que Odisseu teve um filho com a feiticeira Circe no ano em que passou em sua ilha: Telégono. É ele que dá o nome ao poema.

Quando Circe conta para o jovem Telégono quem é seu pai, ele decide sair da ilha e navegar em busca de Odisseu para conhecê-lo.

Enquanto isso, o poema também narra várias aventuras de Odisseu após seu retorno à Ítaca. Ele viaja para a terra de Tesprócia. Lá, se casa com a rainha local, Calídice, e tem um filho com ela. (Penélope, sua esposa original interpretada por Anne Hathaway no filme, ainda está viva em Ítaca.) Ele também participa de uma guerra contra um reino vizinho de Tesprócia. Depois, volta para Ítaca e deixa seu jovem filho governando o local.

Uma tempestade faz com que Telégono chegue a uma ilha desconhecida no meio de sua jornada. Lá, ele rouba o gado do local, e por isso entra em conflito com o dono dos bois. Na batalha, Telégono fere mortalmente o homem usando uma lança mágica envenenada (presente de sua mãe Circe). Só então ele percebe que a ilha em questão é Ítaca e que o homem que estava morrendo na sua frente era Odisseu, seu pai.

Os dois se reconhecem nos momentos finais e lamentam a tragédia. Depois disso, Telégono decide levar o corpo de seu pai para ser enterrado na ilha de Circe. Junto dele também vão Penélope, esposa de Odisseu, e Telêmaco, seu filho (interpretado por Tom Holland no filme).

Lá, a feiticeira Circe concede imortalidade aos três mortais. E aí vem o ponto mais bizarro: Penélope se casa com Telégono e Telêmaco casa com Circe. Sim, a rainha de Ítaca se casa com o filho do seu falecido esposo, e o filho de Odisseu se casa com a amante de seu pai.

Novamente, sabemos de tudo isso graças a Proclo. Obrigado, Proclo. 

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo