O adjetivo “destro” deixa duas coisas subentendidas. Primeiro, que o tal sujeito destro tende a manusear as coisas melhor com a mão direita. Segundo, consequência do primeiro, é que o sujeito necessariamente tem, do lado direito do corpo, uma mão. Mas uma criatura extinta, sem mãos, que viveu mais de meio bilhão de anos atrás, está aí para provar que nada nunca é tão simples.
O Spriggina floundersi foi um animal marinho semelhante a uma sanguessuga, não maior que um dedão, que rastejou pelo fundo dos oceanos durante o período Ediacarano, há cerca de 550 milhões de anos. Uma nova análise de seus fósseis revela que, enquanto rastejava, ele tinha uma preferência muito maior por se virar à direita, fazendo dele o exemplo mais antigo já registrado de um animal destro.
No estudo publicado nesse dia 9 de julho, pesquisadores dos Estados Unidos analisaram um conjunto de fósseis excepcionalmente bem preservados encontrados na Austrália Meridional, no Parque Nacional Nilpena Ediacara. Muitos deles estavam dobrados, e, para a surpresa dos cientistas, a maioria se inclinava para a direita.
“Quando falamos em ser destro ou canhoto, a maioria das pessoas provavelmente pensa em como segura um lápis ou chuta uma bola de futebol. Mas nossa pesquisa mostra que um animal sem mãos nem pés, que viveu há mais de 500 milhões de anos, pode ter tido sua própria versão da lateralidade”, disse em comunicado o paleontólogo Scott Evans, que liderou o estudo.
A pesquisa foi publicada no periódico Scientific Reports, da Nature, trazendo indícios de que animais evoluíram uma preferência por um lado ou outro do corpo muito antes do que se pensava. Logo quando os organismos começaram a ter dois lados, para começo de conversa.
“Assim que surge algo como um lado esquerdo ou direito, como o Spriggina tem, você começa a ver evidências dele preferindo um lado sobre o outro”, disse Evans ao New York Times.
Essa preferência é o que os cientistas chamam de lateralidade, isto é, quando um ou outro lado do corpo de um organismo se torna especializado em fazer certas funções. Ela surgiu depois que certos organismos começaram a ter corpos simétricos, divididos em duas metades mais ou menos idênticas – um espelhamento chamado de simetria bilateral.
O Spriggina foi um dos primeiros animais a apresentar essa simetria, durante o Ediacarano, entre 635 milhões e 538 milhões de anos atrás. Foi nesse período geológico que seres microscópicos se transformaram em organismos multicelulares maiores, capazes de comportamentos mais complexos, como se mexer e rastejar pelo ambiente. Logo depois, com a Explosão Cambriana, a vida na Terra se diversificaria aceleradamente até chegar a níveis similares aos atuais.
No meio disso tudo, o Spriggina surgiu, medindo apenas alguns centímetros, com um corpo alongado e composto de vários segmentos simétricos. O da ponta, que seria como uma cabeça, era maior e tinha a aparência de um capacete em formato de lua crescente.
Esses detalhes ficam claros nos fósseis do Parque Nacional Nilpena Ediacara, que, assim como toda região dos Montes Flinders e da Austrália Meridional, servem como grande registro de um momento no Ediacarano. Em algum ponto há cerca de 550 milhões de anos, alguns dos estranhos organismos do fundo do mar que ocupavam todo o chão dessa região acabaram soterrados durante tempestades. Hoje, seus contornos estão registrados em baixo relevo nas pedras.
Os pesquisadores analisaram mais de cem espécimes contidos nesses registros fósseis. Primeiro, fotografaram o relevo das rochas, onde fica visível a pose que os animais estavam fazendo em seus momentos finais. Depois, fizeram modelos 3D a partir das fotografias, o que deu a eles a oportunidade de medir o quanto que a curvatura de cada Spriggina se desviava de uma linha reta.
Os resultados revelaram algumas coisas diferentes sobre o movimento desses animais. Primeiro, que eles provavelmente conseguiam se mexer mais do que antes se pensava, contorcendo-se de maneiras parecidas às minhocas de hoje. Segundo, e mais importante: elas favoreciam muito mais o lado direito na hora de se virar. Quase duas vezes mais, no total.
No total, o número de fósseis que estavam se inclinando para a esquerda era o dobro dos que estavam se virando para a direita. Como esses fósseis registram imagens espelhadas do que de fato aconteceu, então a preferência ficava claramente no lado direito. Sendo assim, o Spriggina se torna um dos animais mais antigos já registrados a demonstrar lateralidade a nível de população.
Além disso, os novos achados também podem trazer indícios de como esses animais percebiam o mundo. “Sabemos que animais atuais com esse tipo de lateralidade, de insetos a polvos até aves e mamíferos, possuem capacidades sensoriais complexas”, afirmou Scott Evans, no comunicado. “Então isso pode estar nos dizendo que o sistema nervoso do Spriggina era relativamente complexo e mais semelhante ao daqueles animais que conhecemos atualmente.”
Fonte: abril





