A realeza feminina do Egito Antigo nĂŁo estava circunscrita Ă s atividades religiosas e Ă diplomacia, como se pensava. Um estudo publicado na Ăşltima sexta-feira, 17, encontrou evidĂŞncias que sugerem que princesas egĂpcias do perĂodo de 1850–1700 a.C usavam e dominavam armas como arcos, flechas e adagas.
Seus restos mortais apresentaram sinais de suas vivĂŞncias. Os membros superiores bem desenvolvidos, por exemplo, sugerem que elas realizavam ações repetitivas e de alta intensidade, compatĂveis com o tiro com arco e o uso de armas. O uso contĂnuo da musculatura tambĂ©m levou a alterações visĂveis no espessamento de seus ossos.Â
Na verdade, arqueĂłlogos já tinham descoberto que a elite era sepultada ao lado de armas: em 1894, restos mumificados de princesas foram escavados em Dashur, uma das necrĂłpoles (famosos cemitĂ©rios construĂdos para garantir a vida apĂłs a morte) da elite egĂpcia. Acontece que, durante muito tempo, os itens foram interpretados como meros sĂmbolos de seu status ou como equipamentos utilizados em rituais funerários.Â
Todas essas mĂşmias acabaram no subsolo do Museu EgĂpcio, onde ficaram sem ser examinadas por mais de um sĂ©culo. Em 2020, os restos mortais foram redescobertos e, por fim, analisados. Esses resultados foram publicados na revista Frontiers in Environmental Archaeology.
Os indivĂduos foram identificados como Princesa Ita, Princesa Khenmet, Princesa Itaweret, filhas do faraĂł Amenemhat II, da 12ÂŞ Dinastia do Egito Antigo (1991–1802 a.C.) – perĂodo de auge do ImpĂ©rio. Havia ainda a Princesa Noub-Hotep, que provavelmente tinha algum grau de parentesco com as outras e uma mulher desconhecida, suspeita de ser a Princesa Sathathormeryt. Â
Dominando as armasÂ
Quando a equipe de arqueĂłlogos redescobriu os restos mortais, muitos dos ossos estavam embrulhados em jornais do inĂcio dos anos 1900 e ainda tinham as etiquetas originais fixadas pelos escavadores.Â
Logo, eles perceberam que os crânios das princesas se perderam no inĂcio do sĂ©culo 20.Â
“Os corpos mumificados encontrados nas escavações de Dahshur apresentavam, em geral, um processo de mumificação deficiente em comparação com os exemplares tebanos posteriores. Nesses sepultamentos, a carne frequentemente se decompunha, transformando-se em uma substância semelhante a uma resina marrom que se desintegrava em pĂł ao toque, deixando os ossos Ă mostra”, explicam os pesquisadores no artigo.Â
A esperança dos pesquisadores estava nos outros ossos. Eles os acharam em bom estado, o que permitiu que estimassem a idade, a estatura e o sexo das mulheres no momento da morte, alĂ©m de descobrir indĂcios de doenças ou lesões.
Assim, arqueĂłlogos puderam observar trĂŞs principais caracterĂsticas nos restos mortais: estresse fisiolĂłgico, lesões e a validação de práticas rotineiras, graças Ă s marcas repetitivas nos ossos. A Princesa Nub-Hotep, por exemplo, tinha alterações esquelĂ©ticas que se alinham com a presença de flechas em seu sepultamento. O estresse fisiolĂłgico, no seu caso, foi provocado pela repetição de movimentos.
Os ossos tambĂ©m mostraram sinais de lesões que, segundo os pesquisadores, foram causadas por atividades de alto impacto, como caça ou treinamento militar.Â
Mais marcante, talvez, sejam as marcas da atividade habitual. A Princesa Ita parece ter tido fortes mĂşsculos nas mĂŁos, desenvolvidos por anos empunhando armas como adagas. Enquanto isso, a princesa Itaweret apresentava os ossos do antebraço mais espessos, o que pode ter resultado do ato repetido de puxar e estabilizar um arco.Â
Outro detalhe tambĂ©m chama a atenção: as princesas apresentavam esqueletos com anomalias espinhais congĂŞnitas. Para pesquisadores, esses marcadores biolĂłgicos apoiam a existĂŞncia de consanguinidade, ou endogamia, dentro da linhagem real da 12ÂŞ Dinastia egĂpcia.Â
Fonte: abril





