Em 1948, as Nações Unidas adotaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, fundamentada na premissa de proteger a dignidade humana no mundo recém-moldado do pós-guerra. As pessoas modernas falam incessantemente sobre dignidade humana. Políticos a invocam, juízes a mencionam, universidades a celebram e organizações internacionais a consagram em declarações e cartas.

A expressão aparece com tanta frequência que adquiriu o status de um axioma moral. Mas uma questão curiosa se esconde por trás desse consenso quase universal: o que exatamente é a dignidade humana e por que os seres humanos a possuem?

O mundo moderno demonstra confiança em suas conclusões e uma notável hesitação em relação às suas premissas. Esse tipo de hesitação teria intrigado as gerações anteriores. Durante grande parte da história ocidental, a dignidade humana não era considerada autoevidente. Seu reconhecimento só se desenvolveu em nossa civilização e, mais recentemente, na estrutura de nosso direito. Sua aceitação como preceito de nossa civilização foi entendida como consequência de uma visão metafísica mais ampla.

Os seres humanos possuíam dignidade porque participavam de uma realidade que, em última instância, os transcendia. Seja articulada pela filosofia grega, pela teologia cristã ou pelo direito natural, a dignidade estava enraizada em uma concepção do que é o homem.

Curiosamente, em nossa época, muitos intelectuais desejam manter a ideia de dignidade humana, abandonando os fundamentos morais e metafísicos que outrora a sustentavam. Isso resulta em algo semelhante a uma curiosa tentativa de preservar o fruto muito tempo depois de a árvore ter sido cortada.

O mundo clássico não tinha noção de igualdade, seja jurídica, seja moral. A classe senatorial da Roma antiga gozava de uma espécie de dignidade, mas esta não era sinônimo de uma dignidade inata inerente à pessoa; era uma dignidade atribuída à classe. Da mesma forma, os escravos no Estado romano não tinham qualquer noção de valor atribuída além de sua capacidade para o trabalho físico. Nem mesmo a intelectualidade do mundo antigo era imune a essa crença.

Aristóteles observou, como se sabe, diferenças evidentes de inteligência, virtude e força entre os indivíduos e concluiu que alguns seres humanos nasciam inferiores. Eram, em sua expressão na Política (I, 5), “escravos por natureza”. Ele não estava sozinho nessa afirmação.

Hipócrates, o pai da medicina, observa, em Ares, Águas e Lugares, a fraqueza dos asiáticos, e Vitrúvio, o autor romano, em De Architectura, manifesta sua crença na natureza lenta do raciocínio dos “povos do norte”. Entre os antigos, os estoicos se destacaram por vários motivos. O principal deles era o argumento de que todo ser humano participava do logos, o princípio racional que permeia o cosmos.

Diversas doutrinas estoicas foram adotadas por São Paulo, que as incorporou à antropologia cristã. O cristianismo adotou a ideia da racionalidade universal de toda a humanidade e radicalizou a afirmação dos estoicos. Com base nos ensinamentos dos Evangelhos, o pobre, o deficiente, o escravo e o imperador possuíam um valor inato. Na cosmovisão cristã, a pessoa era amada por um Deus onipresente e misericordioso, sendo a Imago Dei, um ícone vivo da Divindade suprema.

Essa proposição do valor humano não estava condicionada a qualquer noção de conquista política ou terrena. A pessoa humana possuía um valor que transcendia sua óbvia utilidade material. Sua dignidade era inerente. Embora seja frequentemente negligenciada, essa doutrina antropológica provou ser historicamente revolucionária no mundo romano.

De fato, seu crescimento na consciência cultural do Ocidente ajuda a definir o fim do mundo da Antiguidade Tardia e serve como marca distintiva de uma nova época cristã na história ocidental. Essa proposição da dignidade humana universal forneceu os fundamentos morais da civilização ocidental e de inúmeros desenvolvimentos que o mundo contemporâneo considera naturais.

A Imago Dei serviria de base para a condenação do infanticídio, comum às esferas culturais de Roma, da Grécia e de Cartago. A dignidade humana levaria à criação de hospitais, a partir do século IV, para cuidar dos pobres urbanos do Império Romano do Oriente. E, por fim, culminaria no nascimento do liberalismo e do conceito de direitos humanos universais.

Reconhecer essa imensa herança moral e histórica não exige um Estado confessional. Seu valor para a nossa civilização tornou-se axiomático, muito além de qualquer limitação de credo eclesiástico

Mesmo entre aqueles que criticam a antropologia cristã, como o filósofo Friedrich Nietzsche, entendia-se que o humanismo contemporâneo nasceu de um resíduo moral cristão.

O ataque de Nietzsche à moral cristã baseia-se justamente nisso: ela apresentava a igualdade moral de toda a humanidade, denunciando a existência de supostos superiores. Ele não poupou palavras quando escreveu, em O Anticristo: “O cristianismo travou uma guerra mortal contra esse tipo superior de homem; colocou todos os instintos mais profundos desse tipo sob seu domínio”. Mas Nietzsche prognosticou que a Europa não poderia manter indefinidamente a ética cristã enquanto descartava sua metafísica fundamental. Ele suspeitava que, mais cedo ou mais tarde, as consequências chegariam.

Curiosamente, as discussões contemporâneas sobre a dignidade humana partem do pressuposto de que seu lugar é autoevidente, muitas vezes procedendo como se o conceito não exigisse justificativa filosófica adicional. A dignidade humana e, por extensão, os direitos humanos são tomados como preceitos que não requerem fundamentação adicional.

Na linguagem da Declaração de Independência dos Estados Unidos, eles são “autoevidentes”. Contudo, ao serem considerados apenas “autoevidentes”, esquece-se como passaram a ser concebidos dessa forma. Ou seja, a dignidade humana é tratada como uma intuição, em vez de ser entendida como a conclusão de uma antropologia moral complexa. Continuemos, porém, com essa mesma passagem da Declaração: “que todos os homens são criados iguais, dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis”. O texto completo refuta essa interpretação intuitiva. A dignidade humana é autoevidente na medida em que é conferida por um agente externo à própria humanidade.

Consideremos agora o desafio que o materialismo impõe a essa afirmação. Se os seres humanos são exclusivamente organismos biológicos altamente desenvolvidos e funcionais, produzidos por um processo evolutivo cego, em que sentido possuem algum valor intrínseco?

A evolução darwiniana representou um enorme avanço na compreensão dos mecanismos biológicos que orientam o curso do nosso mundo orgânico em constante desenvolvimento. Ela pode explicar a psicologia de por que valorizamos nossos descendentes, cooperamos em grupos maiores ou desenvolvemos um senso moral.

Em certa medida, também pode explicar por que a dignidade é uma crença útil e pró-social. Contudo, carece da competência filosófica para explicar por que a dignidade humana é objetivamente verdadeira, pois a dignidade é uma proposição metafísica, e não científica.

Uma visão dogmaticamente materialista da existência humana é plenamente capaz de descrever os comportamentos humanos, mas muito menos de fundamentar o valor humano.

A natureza, tal como a entendemos, parece ser em grande parte indiferente à ideia de dignidade. Os males naturais que assolam o nosso mundo — terremotos, doenças e inundações — não demonstram qualquer preocupação com os direitos humanos.

O universo, tal como descrito pelos naturalistas contemporâneos, contém muitas coisas de valor intelectual e científico, mas em nenhum momento surge entre elas um valor moral intrínseco. Isso porque o valor humano transcende o âmbito limitado da ciência empírica, que se ocupa dos fatos e dos dados observáveis. A dignidade humana não pode ser comprovada pelos instrumentos científicos comuns.

Em nossos dias, alguns teóricos e filósofos tentaram resolver esse problema localizando nossa dignidade em nossa autonomia como indivíduos: os seres humanos possuem valor porque podem fazer escolhas e são agentes independentes que atuam em um mundo mais amplo. Embora a conclusão seja verdadeira, o raciocínio é falacioso. Por que nossa autonomia, por si só, deveria possuir qualquer significado moral e implicar uma dignidade inata? Por que a capacidade de escolher seria inerentemente valiosa, em vez de apenas funcionalmente útil?

Outros também tentaram localizar a dignidade em diferentes aspectos abstratos, como a consciência, a racionalidade ou a autoconsciência. Embora essas propostas estejam certamente relacionadas à dignidade inerente da pessoa humana, elas enfrentam dificuldades próprias.

Se a dignidade depende das capacidades cognitivas, então o valor humano parece existir em um espectro de capacidade cognitiva. Intelectuais, e até mesmo adultos, possuiriam mais dignidade do que uma criança; o adulto saudável valeria mais do que o paciente que sofre nos estágios finais de uma demência grave. Tais conclusões dificilmente podem ser aceitas, mas parecem difíceis de evitar quando a dignidade é atrelada a algo prosaico como as habilidades funcionais.

A fragilidade dessas alternativas filosóficas reside no fato de o discurso contemporâneo ter pouca base própria e frequentemente recorrer a pressupostos morais de tradições que já não aceita plenamente. Talvez este seja o teste decisivo para toda a pós-modernidade: manter a lei e descartar o legislador.

Continuamos a insistir que todo ser humano possui igual valor, mesmo quando nos tornamos cada vez mais incertos quanto ao fundamento moral dessa convicção

Esse dilema não se restringe aos tribunais e às universidades. Ele é endêmico à estrutura da nossa civilização e às suas instituições. Questões morais relativas ao propósito e à legitimidade da eutanásia, do aborto, da biotecnologia, da inteligência artificial e da engenharia genética pressupõem que tenhamos alguma definição operacional do que é um ser humano. Como regra geral para qualquer empreendimento, antes de determinarmos o que deve ser feito, é necessário determinar sobre que tipo de criatura estamos agindo. Ou seja, “o que é o homem”?

Por essa razão, a metafísica tem o hábito de retornar justamente quando os intelectuais acreditam tê-la superado. É possível rejeitar as concepções tradicionais relativas à natureza humana. Contudo, é impossível evitar a adoção de alguma tese filosófica alternativa. Não há como recorrer a uma certeza empírica. A ciência é eloquente quanto a esse ponto.

A questão nunca foi se devemos empregar a metafísica; a questão é se devemos reconhecer que a empregamos. O século XX ofereceu uma lição sóbria sobre esse aspecto. Regimes totalitários frequentemente negaram concepções universais do valor humano e as substituíram por concepções utilitaristas.

Os indivíduos foram reduzidos a critérios raciais, econômicos ou ideológicos. O valor dos seres humanos limitou-se à sua utilidade como instrumentos de um suposto progresso histórico. Entre tais Estados, observou-se que, uma vez que a dignidade deixa de ser intrínseca, torna-se condicional, e o que é condicional sempre pode ser revogado.

Isso não prova que toda visão de mundo secular conduza rapidamente à tirania. Mas sugere que as sociedades precisam de mais do que meras platitudes morais para se manterem e preservarem seu conjunto de virtudes. Elas precisam de razões para suas virtudes. Coletivamente, podemos considerar algo bom, mas, se não houver uma justificativa racional para sustentar essa crença, ela acabará se dissipando, da mesma forma que desaparecem as modas morais.

Uma cultura que invoca continuamente a dignidade enquanto se recusa a discutir seus fundamentos pode descobrir que o conceito gradualmente perde sua coerência interna. Se o ser humano possui um valor único e inviolável, então a própria realidade deve conter alguma explicação para esse fato.

Dr. D.P. Curtin é psicólogo, tradutor e teólogo irlandês-americano. Possui diplomas da Universidade Villanova, do Chestnut Hill College e da Universidade Chatham. Seus trabalhos foram publicados em First Things, VoegelinView, Public Orthodoxy, Touchstone e Catholic Exchange. Ele também é editor-chefe do Scriptorium Project.

©2026 Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Human Dignity without Metaphysics? [https://www.thepublicdiscourse.com/2026/07/101404/]