Além de ter um dos maiores mercados consumidores do mundo, o Brasil dispõe de forte vocação empreendedora. Mas a elevada mortalidade empresarial sugere que a disposição para empreender, por si só, não é suficiente para superar os obstáculos estruturais de criar e manter negócios no país.

Segundo os dados mais recentes do IBGE, seis em cada dez empresas brasileiras fecham as portas nos cinco primeiros anos de operação.

Contribuem para esse cenário um ambiente de negócios complexo, em que a burocracia, a carga tributária elevada, a insegurança jurídica e o alto custo do crédito se transformam em obstáculos ao desenvolvimento de praticamente qualquer negócio.

Como explica Vanderlei Garcia Jr., especialista em Direito Civil e Negociação, o empresário brasileiro precisa dedicar uma parcela significativa do seu tempo e dos seus recursos para lidar com exigências regulatórias, obrigações acessórias e constantes mudanças legislativas.

“Em muitos casos, a energia que deveria estar concentrada na expansão dos negócios acaba sendo direcionada para garantir que a empresa permaneça em conformidade com um sistema altamente complexo”, afirma.

(Esta reportagem faz parte da série Brasil Rico, que aborda as escolhas erradas que travam o avanço da economia e os caminhos para transformar o país em uma nação de alta renda. Confira aqui os outros textos da série [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/brasil-rico/]).

Burocracia consome tempo e recursos das empresas

Para Luís Garcia, administrador de empresas pela FGV e sócio do Tax Group, o desafio de empreender no Brasil é estrutural. Além de enfrentar um ecossistema marcado pela burocracia excessiva, o empresário ainda precisa lidar com uma política fiscal que prioriza a arrecadação em vez de fomentar o desenvolvimento.

Entre 1988 e 2024, o país editou mais de 7,8 milhões de normas, sendo 517 mil na esfera tributária. Isso equivale a mais de duas novas regras fiscais por hora útil ao longo de quatro décadas. Os dados são do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação.

A complexidade regulatória acaba trazendo custos invisíveis para o ambiente de negócios no Brasil. A complexidade tributária do país, explica Garcia, leva, muitas vezes, ao recolhimento excessivo de impostos por parte das empresas.

“Ocorre que raramente a empresa é alertada sobre o erro”, diz Garcia, que também é advogado tributarista. Como o custo de errar para menos é muito superior ao de pagar indevidamente a mais, mantém-se um certo “silêncio arrecadatório”, em que quem perde é o empreendedor.

Em paralelo, enquanto empresas em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – o chamado “clube dos países ricos” –, gastam cerca de 200 horas por ano para cumprir obrigações fiscais, no Brasil, esse número ultrapassa 1.500 horas [https://www.gazetadopovo.com.br/economia/relatorio-doing-business-impostos-brasil-2021-banco-mundial/], segundo um estudo do Banco Mundial divulgado em 2021, o que impacta diretamente a produtividade.

APESAR DO ESTADO: Confira a série especial de reportagens [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/serie-apesar-do-estado/] que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo.

Pressão e incerteza pesam sobre empresários

Além dos custos financeiros, Vanderlei Garcia afirma que o ambiente de negócios brasileiro também impõe uma carga emocional aos empreendedores. “Empreender no Brasil exige resiliência, numa realidade de insegurança compartilhada por grande parte do setor produtivo”, pontua.

A exigência de manter empregos, honrar compromissos financeiros, lidar com oscilações econômicas e administrar riscos que, muitas vezes, fogem ao controle do empreendedor representa uma pressão constante. 

Nesse cenário, a falta de previsibilidade – alterações frequentes de regras, mudanças de interpretação por órgãos fiscalizadores e instabilidade regulatória – torna-se um dos principais entraves.

Por outro lado, diz Garcia, o ambiente empresarial necessita de segurança jurídica para que investimentos sejam realizados e planejamentos de longo prazo possam ser executados. “A incerteza afeta desde pequenos empreendedores até grandes companhias”, pontua.

Apesar dos obstáculos, desejo de empreender cresce entre brasileiros

Mesmo diante de todas as dificuldades, o empreendedorismo segue em alta no país. Relatório do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025 demonstra que o sonho de ter um negócio próprio ocupa a segunda colocação no ranking de desejos dos brasileiros, com 39,7% – atrás apenas do sonho da casa própria. Em 2024, o percentual era de 34,3%, ocupando a terceira posição.

A percepção de oportunidade e a ausência de medo de fracassar também aumentaram. Segundo a pesquisa, 64,7% dos participantes percebem boas oportunidades para empreender nas proximidades de onde vivem. Além disso, 51,3% afirmaram que o medo de fracassar não os impediria de iniciar um novo empreendimento.

Grande parte dos aspirantes aos negócios inicia como microempreendedores individuais (MEIs). O otimismo, porém, nem sempre se traduz em sucesso: a pesquisa Panorama Econômico Trimestral dos Pequenos Negócios, lançada em janeiro deste ano, revela que a maior parte dos fechamentos de pequenos negócios em 2025 permaneceu concentrada entre MEIs.

Para o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, esse movimento faz parte da dinâmica do empreendedorismo. “O MEI é a porta de entrada para o empreendedorismo no Brasil e, muitas vezes, ajuda a avaliar se o empreendedor tem perfil adequado”, explica.

Pequenas e médias empresas seguem liderando os negócios no país

Não por acaso, o volume de abertura de pequenos negócios no país atingiu a marca histórica de 5,1 milhões de empresas em 2025. Desse total, 4,9 milhões são pequenos negócios, dos quais cerca de 74% são MEIs. 

De acordo com levantamento do Sebrae, as pequenas empresas representam 95% de todos os negócios brasileiros e respondem por 26,5% do PIB. As micro e pequenas empresas ainda são responsáveis por 50% dos empregos formais gerados no Brasil e por aproximadamente 40% da massa salarial paga, o equivalente a R$ 51,5 bilhões.

Empreendedores que vencem o “custo Brasil”

Para o presidente do Sebrae, os empreendedores que evitam o fechamento precoce diferenciam-se pela proatividade e pelo planejamento adequado. São aqueles que realizam pesquisas de mercado, fazem mapeamento rigoroso da concorrência e calculam com precisão o capital de giro necessário para sustentar a operação durante os primeiros meses.

“A sobrevivência de longo prazo está ligada à capacidade de monitorar diariamente os custos, implementar a digitalização de processos operacionais e ajustar rapidamente o portfólio de produtos de acordo com as mudanças de hábito do consumidor”, afirma Soares.

Para Garcia Jr., mais do que concentrar esforços na geração de valor, inovação e crescimento, vencer o chamado “custo Brasil” é um exercício de coragem.

“O paradoxo é claro: somos uma das economias com maior potencial do planeta, mas seguimos colecionando obstáculos que impedem quem produz de crescer e gerar empregos”, conclui Luís Garcia.