No coração do Pantanal, a vida de um herói de guerra do Brasil caminha na linha tênue entre fato histórico e lenda. Eternizado pela construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, em Corumbá, Frei Mariano de Bagnaia ficou conhecido mesmo pelo calote e pela suposta praga que jogou na cidade e até hoje impede a região de se desenvolver.
De acordo com o mito, Frei Mariano foi expulso de Corumbá no século XIX, mas, antes de sair, enterrou suas sandálias e avisou: enquanto elas não fossem encontradas, a cidade não prosperaria.
Verdade ou não, fato é que Frei Mariano é um dos personagens que vivem no imaginário do povo pantaneiro e, antes mesmo de ‘enterrar suas sandálias’, teve uma história digna de filme. Nasceu em 19 de janeiro de 1820 na Província de Viterbo, na Itália, com o nome de Saturnino Colonna, e veio ao Brasil como missionário em 1847.
Depois de alguns anos em Cuiabá e alguns meses no Rio de Janeiro, foi nomeado pároco de Miranda. O ano era 1859.
Na cidade sul-mato-grossense, a odisseia de Frei Mariano começou. Em 1865, a vila de Miranda foi invadida por tropas paraguaias; eram tempos de Guerra da Tríplice Aliança, o maior conflito armado da América do Sul, que teve o Paraguai contra a coalizão formada por Brasil, Argentina e Uruguai.
Preocupado com as consequências da invasão, Frei Mariano deixou o esconderijo em que estava às margens do rio e voltou para sua igreja. Conta a história de que, ao se deparar com o lugar praticamente destruído, encarou os inimigos e foi capturado.
Foram anos de cárcere. Frei Mariano foi feito refém ao lado de outros religiosos e, no tempo em que esteve nas mãos dos paraguaios, sofreu fome, sede e uma série de torturas. Conforme os relatos de soldados, muitas vezes foi deixado ao relento, em outras, mergulhado numa fossa comum e, no caso mais extremo, foi colocado em uma cova cheia de serpentes.
Sobreviveu aos horrores da guerra como prisioneiro e, quando estava marcado para morrer, foi resgatado pelo Exército Brasileiro. Isso aconteceu em 1869, quando a tropa nacional encontrou uma ala dos paraguaios e os venceu em conflito. Frei Mariano foi enviado para Cuiabá e, em 1870, retomou suas atividades em Corumbá.
No dia 25 de maio de 1870, lançou a pedra fundamental da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, que foi concluída em outubro de 1877. Enquanto cuidava da vida religiosa de Corumbá, Frei Mariano foi nomeado “pregador imperial e honras de Major do Exército Brasileiro”, por uma carta imperial de 8 de outubro de 1873.
Mesmo com o título de herói de guerra, continuou como pároco em novembro de 1884, também deu início à igreja do Ladário. Dois anos depois se envolveu no episódio que o transformou em lenda.
Em 1886, foi acusado de não pagar o relógio da igreja Matriz. A crise pela suposta dívida resultou na sua expulsão de Corumbá pelo bispo da época e, com ela, o início da lenda sobre a praga contra a cidade.
Longe de Corumbá, Frei Mariano ainda foi responsável por organizar a Catequese da província de São Paulo, mas, em 1888, sem controle dos danos mentais causados pela guerra, tentou tirar a própria vida. O ferimento causou sua morte menos de dois meses depois, em 9 de agosto daquele ano.
Até hoje, a lenda é tão viva na capital do Pantanal que Frei Mariano deu nome a um bloco de Carnaval. Há 20 anos, os foliões descem a ladeira da cidade em “busca” das sandálias do religioso.
Fonte: primeirapagina





