Marcando dois gols no segundo tempo, a seleção brasileira ganhou de virada contra o Japão na partida que aconteceu nesta segunda-feira (29) pela fase eliminatória da Copa do Mundo 2026. O placar final foi de 2 a 1, a primeira derrota do Japão na atual edição do torneio.
Na partida, a seleção japonesa deixou sua marcante camiseta azul de lado e entrou em campo usando um uniforme reserva, em cor branca com finas listras pretas e coloridas. O traje é outro, mas o brasão continua o mesmo: um corvo-de-três-pernas segurando uma bola vermelha em uma de suas patas, como o sol nascente que estampa a bandeira japonesa.
O mascote foi adotado pela Associação de Futebol do Japão em 1931, mas precede a seleção por alguns bons milênios. Trata-se de Yatagarasu, um mensageiro da deusa do sol Amaterasu Omikami. No xintoísmo, a espiritualidade tradicional do Japão, serve como símbolo da orientação.
Em algumas interpretações, o corvo é, em si, uma encarnação do Sol. A lenda conta que Yatagarasu teria sido enviado por Amaterasu para auxiliar Jimmu, o primeiro imperador do Japão, durante suas investidas militares ao leste. Do céu, a criatura teria guiado as tropas imperiais pelas regiões montanhosas de Kumano, numa jornada de conquista que, na mitologia, representou a fundação do Japão.
(Essa é a versão mitológica. Não existe quase nenhuma evidência de que o imperador Jimmu de fato existiu, então ele, assim como o corvo, são considerados lendas.)
A figura mítica do corvo-de-três-patas teve suas primeiras representações na arte da cultura Yangshao, uma cultura neolítica do Norte da China que existiu entre 5.000 e 3.000 a.C. Lá, ele recebia o nome de sanzuwu ou yangwu, e já marcava presença nas vestes imperiais.
A versão propriamente japonesa, porém, só foi aparecer depois, no século 8 d.C., já no contexto do xintoísmo. Mais especificamente, como um kami, um tipo de espírito ou deidade que toma a forma de seres, forças da natureza, paisagens ou mesmo de pessoas mortas.
Foi essa criatura, a partir de então nomeada Yatagarasu, que veio a ser incorporada pelo emblema da seleção japonesa.
A primeira versão do escudo da Associação de Futebol do Japão a conter o corvo foi adotada em 1931. O desenho era de autoria do Jitsuzo Hinago, mas quem deu a ideia do mascote foi o técnico Tairei Uchino, um dos fundadores da Associação. Desde então, o emblema passou por alguns redesigns (no mais recente, em 2017, foram tiradas as linhas que separavam os gomos da bola de futebol, que ficou ainda mais parecida com o sol da bandeira), mas o corvo mítico e sua bola vermelha apareceram em todas as versões.
O contexto histórico também foi um fator importante na adoção do emblema. Em 1931, o Império Japonês invadiu a região da Manchúria, na China. Isso porque, no decorrer dos anos 1930, o governo Japão passava por uma transição de um modelo de democracia parlamentar em direção a um regime militar centrado na figura do imperador, com a ascensão de ideologias ultranacionalistas e expansionistas. Nessa época, a mitologia do xintoísmo, então religião oficial do país, era usada para legitimar a autoridade do imperador e a expansão do império. Muito por isso, figuras como o corvo-de-três-pernas estavam em alta.
Fonte: abril





