Há algum tempo o ser humano vive à frente das telas dos computadores, iPads e smartphones. Isso tem suas vantagens e desvantagens, prós e contras. Em outras palavras é bom e é ruim, ou talvez melhor dizendo não é tão bom, mas também não é tão ruim. O problema é que por trás das telas, nasceu ela, nossa malvada favorita, que vem evoluindo a cada ano, hoje está adulta, mas seu desenvolvimento não tem fim, cresce dia após dia.
Estou falando dela, que tem seu nome abreviado em apenas duas letras, que não traduzem o seu tamanho nem sua capacidade. Refiro-me à IA, este ser ou não ser, hoje adulto, desenvolvido, que nos facilita a vida ou nos dificulta o modo de viver.
Cada movimento que fazemos, cada palavra que escrevemos ou falamos, cada link que abrimos, cada coisa que façamos, seja o que for, permite que nossos pensamentos, nossos desejos sejam expostos, como se a máquina lesse nossa mente e, por incrível que pareça, ela consegue fazer essa leitura acertadamente e a partir daí ela nos bombardeia com o que almejamos, seja real ou falso.
É quando a armadilha se constrói e segue em constante aperfeiçoamento. Surge um fluxo interminável de perfeições: são imagens, carreiras, corpos, famílias. É um fluxo constante e intenso, que na maioria das vezes é irreal, que infelizmente atinge o ser humano que vive a realidade da imperfeição e sofre por não conseguir alcançar o que vê nas telas.
O problema é que nosso cérebro não atenta para a possibilidade de que determinado fluxo é falso. Há uma distância perigosa entre o real e o que é postado nas redes, há um risco digital para a saúde emocional coletiva. A autoestima é a grande comprometida, é o amor-próprio de pessoas que usam e abusam dos filtros de beleza nas redes sociais e vivem inconformados com sua aparência real diante do espelho. São pessoas que, apesar de usarem filtros, agem como se acreditassem fielmente nas postagens de outras pessoas, também com imagens irreais.
É um comportamento doente onde a própria imagem real “imperfeita” compete com a imagem irreal, “perfeita” do outro. Cria-se a cultura da insatisfação com o seu próprio ser. Pior ainda é que a comparação muitas vezes se torna um hábito, na verdade um hábito cruel, porque quanto mais se usa filtro, maior passa a ser a insatisfação com a própria imagem original.
É importante observar que a comparação não se limita à estética corporal, vai muito além, atinge nossas conquistas, carreiras, escolhas, sucessos, em relação ao melhor que vemos do outro. É bem sabido que a comparação sempre existiu entre membros da espécie humana e, atualmente, no meio digital não é diferente, comparamos o nosso real cotidiano com o cotidiano de outra pessoa, que nem sempre é real; comparamos nossos defeitos, fracassos e imperfeições com a vida maravilhosa, perfeita e bem-sucedida de outros internautas.
Nos dias de hoje temos pessoas que buscam procedimentos estéticos para ficar iguais às suas imagens filtradas. O resultado pode ser frustração, ansiedade, transtornos de imagem corporal e até ideação suicida.
Todos estamos sujeitos aos impactos das redes, porém os adolescentes são os mais sensíveis à validação social. Precisamos reconhecer as armadilhas digitais, ou pelo menos duvidar das perfeições postadas nas redes. E mais que isso, precisamos nos aceitar por completo, incluindo nossas imperfeições.
Fonte: primeirapagina





