O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), caminham para embate histórico instigado pela corrida presidencial brasileira e que ultrapassa os limites de disputa jurídica, ganhando contornos políticos e diplomáticos.
O conflito, iniciado em torno das decisões do STF para censurar redes sociais e perseguir aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), envolve tribunais americanos, a Casa Branca e os principais candidatos ao Palácio do Planalto: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Os sinais de agravamento surgiram após a recente condenação à prisão do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) pela Primeira Turma do STF. O governo americano classificou o episódio como prova de perseguição e reiterou que as divergências políticas devem ser resolvidas pelo voto.
Trump se irritou com Lula e com a condenação à prisão de “Bolsonaro Jr”
A cúpula do G7 na semana passada expôs a tensão que voltou a dominar as relações entre Brasília e Washington. Em conversa com jornalistas, Trump relatou ter ouvido sobre a intenção de se prender “Bolsonaro Júnior”, além de expressar a sua visão do Brasil como um país “politicamente perigoso”.
Nesse contexto, a situação de Eduardo Bolsonaro tornou-se fator extra para a impressão de excessos judiciais no país, ampliando o desgaste diplomático. Lula busca lucro eleitoral com as reações de Trump e apresenta a narrativa de defensor da soberania frente a eventual ingerência dos EUA nas eleições.
A distância política ficou ainda mais evidente quando Trump se referiu a Lula como líder “volátil”, em declaração interpretada como crítica à postura internacional do presidente brasileiro. No centro desse atrito está Moraes, cujas decisões passaram a repercutir na relação bilateral de Brasil e EUA.
Decisões de Moraes podem ser julgadas à revelia em tribunal da Flórida
Na esfera judicial, a empresa de mídia de Trump e a plataforma Rumble mantiveram ação na Justiça da Flórida contra Moraes com a alegação de que as decisões do magistrado prejudicaram usuários nos EUA. Os autores sustentam que houve afronta às garantias da Constituição americana.
A disputa ganhou decisivo capítulo com o pedido das empresas para que Moraes seja julgado à revelia. Elas ressaltam que o ministro foi notificado por meios autorizados pela Corte americana, mas não apresentou resposta no prazo. Por isso, defendem que o processo seja julgado mesmo sem a manifestação formal dele.
O pedido amplia o constrangimento sobre Moraes. Um julgamento à revelia permitiria à Corte americana examinar acusações sem a defesa direta do réu, enquanto a Advocacia-Geral da União (AGU) tenta barrar o caso. O argumento da AGU é de que atos do STF não podem ser submetidos a tribunais estrangeiros.
Advogados de Trump alegam que Moraes abdicou de manifestar-se
O advogado Michael De Luca, do grupo de Trump, afirmou que Moraes não apresentou resposta formal dentro do prazo fixado, mesmo tendo recebido uma comunicação eletrônica do tribunal. Curiosamente, Moraes também usou desse meio para notificar empresas americanas de suas decisões.
De Luca classificou o comportamento institucional do ministro como uma “anomalia que gera conflito”. Ele sustentou que decisões com impacto sobre cidadãos e empresas americanas inevitavelmente despertariam reação dos tribunais dos EUA, o que eleva as tensões contra o Judiciário brasileiro.
Paralelamente ao confronto externo, Moraes permanece protagonizando controvérsias na Justiça brasileira. Sua decisão de suspender cautelarmente a Lei da Dosimetria, em favor de presos do 8 de janeiro, aprofundou o conflito. A nova lei foi confirmada pelo Congresso após a derrubada do veto presidencial.
PGR surpreende e se manifesta contra decisão de Moraes sobre dosimetria
No contexto da obstrução da execução da dosimetria, a Procuradoria-Geral da República (PGR) surpreendeu e se manifestou contra a suspensão da norma, o que acrescenta um novo ingrediente ao debate sobre os limites de atuação dos Poderes. A controvérsia reforça a impressão de ativismo judicial.
O ambiente de polarização foi ampliado ainda pela repercussão externa do julgamento de Eduardo Bolsonaro. Durante encontros e manifestações recentes de conservadores americanos, o caso foi apresentado como exemplo de perseguição, com críticas contra Moraes e ao papel do STF na política.
O pano de fundo da disputa entre Trump e Moraes é a eleição presidencial brasileira. A proximidade entre o entorno da Casa Branca e aliados de Bolsonaro faz com que decisões judiciais e declarações diplomáticas sejam tidas como fator eleitoral. Já Lula bate na tecla de ingerência externa.
Analistas divergem sobre o envolvimento de Trump nas eleições
Para Márcio Coimbra, presidente do Monitor da Democracia, as tensões entre Trump e Moraes provam que as fronteiras entre política doméstica, tecnologia e direito internacional tornaram-se mais difusas, o que permite que disputas nacionais se mudem para tribunais e instituições estrangeiras.
Nesse contexto, o cientista político vê ações judiciais, sanções e manifestações públicas do presidente americano como gestos que passam a produzir efeitos simultaneamente políticos e diplomáticos. Não por acaso, Trump recebeu os filhos de Bolsonaro em seu gabinete e deu publicidade.
Já o professor Daniel Afonso Silva, da USP, considera improvável que o Brasil ocupe posição prioritária na agenda estratégica da Casa Branca, diante de desafios envolvendo China, Oriente Médio e comércio internacional. Ainda assim, ele admite que a aproximação entre Trump e direita brasileira, somada às críticas dirigidas a Moraes, criam ambiente de desconforto crescente.
Se mantida a trajetória atual, o confronto poderá se transformar em um dos temas mais sensíveis da relação bilateral entre Brasil e EUA durante a campanha presidencial de 2026. Mas o professor entende que Trump sabe que a eventual interferência mais explícita em favor de Flávio ajuda o discurso de Lula.
Fonte: gazetadopovo





