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Festa tradicional do Pantanal: como um ritual religioso se tornou um dos eventos mais populares do Brasil

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2026

O Banho de São João é uma das mais fortes expressões de fé e identidade cultural do Pantanal, uma celebração que mistura religiosidade, tradição e pertencimento às margens do Rio Paraguai, em Corumbá. Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, a festa atravessa gerações e traduz, em rituais e encontros, a relação profunda entre o povo pantaneiro, a fé e as águas que moldam sua história.

A tradição, que remonta ao final do século XIX, conserva no rio o seu principal elo simbólico. Segundo a Diretora-Presidente da Fundação da Cultura de Corumbá, Wanessa Pereira, a festa nasceu das raízes portuguesas dos festejos juninos à beira de rios, mas ganhou identidade própria no Pantanal. 

No momento mais aguardado, entre a noite de 23 e a madrugada do dia 24 de junho, o cotidiano se transforma em rito de devoção e ressignificação.

“O rio Paraguai é o elo de sacralidade entre os devotos. Há uma transmutação simbólica em que o Rio Paraguai passa a representar o Rio Jordão, palco do batismo de Jesus Cristo. Momento em que se ressignifica os papéis, aqui é o povo quem banha aquele que batizou Jesus”, apontou Wanessa Pereira.

O gesto carrega significado espiritual profundo: devotos acreditam que a água recolhida após o ritual tem propriedades de cura, proteção e bênçãos para o restante do ano.

Tradição que atravessa gerações

A tradição não pertence apenas ao espaço público, ela nasce dentro das casas e atravessa gerações familiares.

Esse sentimento de continuidade ganha rosto e voz na história de Carlos Diniz, devoto de 81 anos que carrega a experiência de uma vida dedicada ao São João. Ele resume com simplicidade o que para muitos é complexo.

“Nós descemos com o andor e vamos até o rio Paraguai dar banho no santo, com muito respeito. Eu tenho 81 anos, o corpo já está cansado, mas quando chega a festa me dá força para descer cantando, pedindo saúde e bem-estar para todos”, conta Diniz.

A relação com a festa começou ainda na infância e cresceu com o tempo, e se transformou em missão pessoal de manter a devoção viva na família. 

“Eu participo desde os 5 anos de idade, fui levado pelos meus pais e vizinhos. A partir de 2012, eu comecei a fazer a festa na minha casa, com três dias de reza, e depois descemos os andores com a imagem. Hoje meus filhos e meus netos seguem comigo, eu fiz até um andor para os meus bisnetos. Essa é a nossa história”, disse Carlos.

O testemunho revela como o Banho de São João se sustenta na transmissão familiar. A continuidade não está apenas no ritual coletivo, mas nos laços que se renovam dentro de cada família.

Confira um trecho da entrevista com Carlos Diniz:

Aos 81 anos, Carlos Diniz mantém tradição de dar banho em santo e mobiliza gerações no Pantanal. (Vídeo: IPHAN)

Sincretismo religioso

A singularidade do Banho de São João vai além do ritual do banho no rio e se consolida na diversidade de crenças que se encontram em um mesmo espaço. A fusão de diferentes tradições religiosas é um dos traços mais marcantes da festa e se revela de forma simbólica na descida dos andores pela histórica Ladeira Cunha e Cruz.

Conforme destaca a diretora-presidente da Fundação da Cultura de Corumbá, a celebração promove um encontro raro entre religiões e práticas culturais distintas.

“Religiões cristãs, espíritas e de matrizes africanas se encontram, se reconhecem e se cumprimentam”, afirma Wanessa Pereira.

O gesto se concretiza no momento em que os andores se cruzam na ladeira. Festeiros interrompem o trajeto para fazer o cumprimento entre os santos, em um ato de profunda reverência que simboliza comunhão, respeito e convivência entre diferentes expressões de fé.

Ao longo das décadas, a festa ganhou dimensão pública e turística, mas preserva o caráter comunitário que sustenta sua essência. O arraial montado no Porto Geral amplia o alcance da celebração e fortalece o turismo cultural, sem romper com a origem familiar da tradição.

Cada comunidade mantém seus próprios rituais antes da grande descida. Novenas, levantamento de mastros e preparo de comidas típicas continuam a acontecer nos quintais, mantendo viva a prática transmitida entre gerações.

“Ser corumbaense é ter a memória ligada ao cheiro do mastro de São João, ao som dos cururueiros e à imagem da Ladeira Cunha e Cruz iluminada, repleta de pessoas e andores em devoção”, destaca Wanessa.

O reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, concedido em 2021, reforça o valor dessa manifestação. A titulação garante instrumentos de preservação e legitima uma celebração marcada pela diversidade religiosa, ao mesmo tempo em que projeta Corumbá no cenário do turismo cultural.

Mais do que um reconhecimento formal, o título ajuda a manter viva a tradição, que depende diretamente do envolvimento das pessoas. A festa é sustentada pela fé, troca de conhecimentos e práticas que passam de geração em geração.

Rito e programação 2026

A programação deste ano mantém a força do ritual e amplia a oferta cultural com shows e apresentações no Porto Geral. As festividades começam no dia 19 de junho e seguem até o dia 24. O ponto alto ocorre no dia 23, com a tradicional descida dos andores e o banho no Rio Paraguai.

Confira a programação completa do Banho de São João:

Sexta-feira (19)
A abertura da programação acontece nesta sexta-feira com um dos momentos mais simbólicos do arraial: o tradicional Concurso de Andores, a partir das 19h, no Circuito do Arraial, em Corumbá. Na sequência, o público acompanha a transmissão do jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. A noite termina em ritmo de festa com o show nacional do cantor Panda, às 23h30.

Sábado (20)
O sábado é marcado pela valorização das tradições juninas e da cultura local. Às 19h, o público acompanha o Concurso de Quadrilhas Juninas Infantis. A programação segue com show da dupla Leandro e Galeano às 21h30 e, logo depois, o grupo Alma Serrana sobe ao palco às 23h.

Domingo (21)
No domingo, a programação abre espaço para artistas da região, com apresentações locais a partir das 19h. Às 21h30, o palco recebe a dupla Kaio e Gabriel. A noite segue com show de Victor Gregório e Marco Aurélio, às 23h30.

Segunda-feira (22)
A segunda-feira concentra uma das atrações mais aguardadas pelo público: o Concurso de Quadrilhas Juninas, a partir das 19h. Em seguida, às 20h30, há apresentação musical local. O encerramento da noite fica por conta do show da dupla Alex e Yvan, às 23h30.

Terça-feira (23)
O dia mais esperado do Banho de São João reúne fé, tradição e um dos rituais mais marcantes do Pantanal. A partir das 17h, ocorre o encerramento do ciclo de novenas na Ladeira Cunha e Cruz. Às 18h, começa a descida dos andores em direção ao Rio Paraguai, onde acontece o simbólico banho das imagens de São João.

A noite segue com apresentações culturais e musicais. Às 23h, ocorre o Rito de Salvaguarda e a Erguida do Mastro, acompanhados por roda de cururu e apresentação de siriri, reforçando a preservação da tradição. O encerramento fica por conta do show nacional de Clayton & Romário, às 23h30.

Quarta-feira (24)
As festividades se encerram no dia 24 de junho com a missa de encerramento às 18h, na Igreja Nossa Senhora da Candelária, reunindo fiéis para fechar o ciclo de celebração.

Entre fé, memória e celebração, o Banho de São João reafirma, ano após ano, seu papel como uma das manifestações culturais mais autênticas do Brasil — onde o rio, o santo e o povo se encontram em um mesmo gesto de devoção.

Fonte: primeirapagina

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