O “escudo magnético” que protege a Terra da radiação solar tem um imenso “buraco” – que, nos últimos anos, tem crescido cada vez mais. E não é a primeira vez que algo assim acontece, segundo um novo estudo.
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul (Amas), como esse buraco é chamado, está localizada entre a África e a América do Sul, passando inclusive pelo Brasil (veja na ilustração acima). Ele é o ponto fraco e mais extenso de todo o campo geomagnético da Terra. Nessa região, as partículas ionizantes do espaço conseguem chegar mais perto da superfície terrestre, expondo satélites e missões espaciais a níveis ainda maiores de radiação.
Essas variações no campo magnético terrestre ocorrem por conta do movimento dos metais líquidos no núcleo do planeta. A Amas, por exemplo, tem se expandido em direção à África. Contudo, cientistas não sabiam ao certo se essa expansão recente era algo excepcional ou um efeito comum das dinâmicas magnéticas da Terra.
Um novo estudo publicado no periódico PNAS no começo de maio tenta responder a essa questão. No artigo, uma equipe internacional de pesquisadores demonstra que fenômenos com padrões similares à Amas foram recorrentes ao longo da história, e acontecem há pelo menos dois mil anos.
Para chegar nisso, o grupo liderado por cientistas espanhóis analisou materiais arqueológicos encontrados no noroeste da Argentina, próximo ao centro da anomalia. Trata-se de uma técnica chamada arqueomagnetismo, que estuda as mudanças no campo geomagnético com base em artefatos arqueológicos feitos de argila.
Uma vez expostos a altas temperaturas (durante, por exemplo, a queima de cerâmicas), esses objetos são capazes de armazenar assinaturas magnéticas que guardam informações sobre o estado do campo magnético da Terra naquele momento. Com base nisso, os pesquisadores tiraram 41 medições dos artefatos argentinos.
Os resultados traçam a trajetória da atual anomalia sobre o Oceano Atlântico. De acordo com os pesquisadores, ela teria surgido no Oceano Índico, por volta do ano 1000. Com o tempo, ela teria se deslocado para o oeste, avançando sobre o continente africano e alcançando, por fim, a América, até atingir sua configuração atual.
Essa não é a descoberta mais surpreendente. Ainda segundo o estudo, a Amas não foi a primeira a traçar esse trajeto: outra anomalia magnética teria seguido a mesma jornada ao oeste a partir do Índico entre o ano 1 e 850 d.C.

“Nossos resultados mostram que regiões de campo geomagnético fraco semelhantes à atual Anomalia do Atlântico Sul já existiram no passado e, além disso, seguiram uma evolução comparável”, explica Miriam Gómez-Paccard, principal autora do estudo, em nota. “Isso indica que a SAA é provavelmente a expressão mais recente de um processo geomagnético recorrente que opera em escalas de milênios.”
O estudo indica que as anomalias magnéticas poderiam estar ligadas à interação entre o manto e o núcleo externo, as duas camadas mais superficiais entre as quatro camadas do interior da Terra. Nessa linha, a recorrência desse fenômeno no hemisfério sul indica que há algum fator geológico por trás da repetição – mas ele ainda é incerto.
“Até não muitos anos atrás, na geofísica, tratávamos o campo magnético como um produto do movimento do núcleo externo do planeta. E agora o que está em debate é a possibilidade de haver algo mais”, disse a pesquisadora em entrevista ao jornal espanhol ABC.
Uma hipótese tem a ver com as Grandes Províncias de Baixa Velocidade de Cisalhamento (LLSVPs, na sigla em inglês), duas massas rochosas gigantescas no manto inferior da Terra sob a África e o Oceano Pacífico, grandes o suficiente para gerar perturbações no campo magnético. Mesmo assim, mais estudos são necessários para apontar a real causa da anomalia.
Estudos passados já haviam explorado as origens da Amas usando outros métodos. Em 2024, para um artigo publicado na Nature, cientistas da Unicamp analisaram rochas na Ilha de Trindade, a 1.000 quilômetros da costa do Espírito Santo. Os cientistas descobriram que anomalias magnéticas como a Amas acontecem na Terra há pelo menos 10 milhões de anos.
A diferença é que, enquanto o novo estudo se atém a manifestação mais recente desse fenômeno magnético, o trabalho dos brasileiros procura ocorrências similares em escalas geológicas bem maiores.
“O nosso estudo utilizou principalmente dados paleomagnéticos de origem vulcânica, que permitem investigar intervalos de tempo muito antigos, mas com resolução temporal relativamente menor. Já o estudo dos colegas espanhóis utiliza dados arqueomagnéticos, que possuem resolução temporal muito mais alta, embora cubram apenas os últimos milhares de anos”, escreve para a Super o pesquisador Gelvam Hartmann, que participou do estudo na Nature.
Ou seja, a lógica dos dois estudos é parecida – quando uma rocha é aquecida e resfriada, ela armazena registros do campo magnético. A diferença é a abrangência de tempo: enquanto um avalia um período maior, a outra se concentra em escalas menores.
Em março, os pesquisadores também lançaram um estudo em que revisam os dados arqueomagnéticos da América do Sul referentes aos últimos cinco milênios. Os resultados estão disponíveis no periódico JGR Solid Earth.
Fonte: abril




