Poucos ingredientes atravessaram tantos séculos cercados por fama medicinal quanto o alho. Presente desde civilizações antigas até receitas contemporâneas, ele sempre ocupou um espaço curioso entre tempero e “remédio natural”. Agora, a ciência moderna começa a entender por que esse pequeno bulbo ganhou reputação tão poderosa ao longo da história.
Boa parte dos efeitos está ligada aos compostos sulfurados liberados quando o alho é cortado ou amassado —especialmente a alicina, substância responsável pelo cheiro intenso característico. Além dela, o alimento concentra antioxidantes como flavonoides e selênio, capazes de atuar em diferentes processos metabólicos.
Os estudos mais recentes apontam efeitos promissores sobre colesterol, glicose, circulação sanguínea e proteção cardiovascular. Mas os pesquisadores fazem uma ressalva importante: alho não substitui medicamentos nem funciona como solução isolada para doenças crônicas.
O impacto no colesterol e no fígado
Uma das áreas mais estudadas envolve a relação entre alho e metabolismo das gorduras. Pesquisas mostram que o consumo regular pode ajudar a reduzir níveis de colesterol total e LDL, o chamado colesterol “ruim”, especialmente em pessoas que já apresentam taxas elevadas.
Os compostos sulfurados parecem atuar em duas frentes: diminuindo parte da absorção intestinal do colesterol e interferindo na produção da substância pelo fígado.
Esse efeito também chama atenção para outro ponto importante: a saúde hepática. Como o fígado participa diretamente do controle do colesterol e do metabolismo das gorduras, reduzir sobrecarga inflamatória pode ajudar a proteger o órgão ao longo do tempo.
Além disso, antioxidantes presentes no alho combatem o estresse oxidativo, processo ligado ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de doenças metabólicas.
Pode ajudar no controle da glicose
O alho também vem sendo investigado como aliado metabólico em pessoas com diabetes ou resistência à insulina. Uma revisão publicada em Food and Nutrition Research observou que pequenas doses diárias (de 0,05 g a 1,5 g) podem contribuir para reduzir os níveis de glicose sanguínea após 12 semanas de consumo contínuo.
A alicina parece facilitar a entrada da glicose nas células e diminuir compostos inflamatórios que prejudicam proteínas e tecidos em quem convive com diabetes.
Embora os efeitos sejam modestos quando comparados a medicamentos, eles reforçam o potencial do alimento como parte de uma alimentação cardioprotetora.
Pressão arterial: promissor, mas ainda em análise
O alho também desperta interesse por seu possível efeito vasodilatador. Na prática, isso significa que alguns compostos ajudam os vasos sanguíneos a relaxarem, favorecendo a circulação e reduzindo parte da resistência nas artérias.
Meta-análises recentes encontraram pequenas reduções tanto na pressão sistólica quanto na diastólica em pessoas hipertensas. Apesar dos resultados animadores, pesquisadores alertam que ainda faltam estudos maiores e mais consistentes para confirmar o impacto clínico em larga escala.
O coração pode ser um dos maiores beneficiados
Talvez o efeito mais promissor esteja justamente na soma de vários mecanismos atuando ao mesmo tempo. O alho possui ação antioxidante e anti-inflamatória, fatores importantes para proteger o endotélio, a camada interna que reveste os vasos sanguíneos.
Quando essa estrutura sofre inflamação constante, o colesterol oxidado tende a se acumular com mais facilidade, formando placas de gordura associadas à aterosclerose.
Alguns estudos também apontam que extratos de alho envelhecido podem reduzir marcadores ligados à formação de coágulos, diminuindo o risco de obstruções vasculares.
O resultado potencial é uma combinação interessante: melhora da circulação, redução inflamatória e menor desgaste cardiovascular ao longo dos anos.
E o câncer?
As pesquisas nessa área ainda caminham com cautela. Estudos observacionais sugerem associação entre maior consumo de alho e menor risco de alguns tipos de câncer, como os de estômago, pulmão, mama e colo do útero.
Os compostos sulfurados parecem proteger o DNA contra danos celulares e ajudar no controle de processos inflamatórios ligados ao surgimento de tumores. Mas há uma limitação importante: a maioria das pesquisas mostra apenas associação estatística, sem comprovar relação direta de causa e efeito.
Por isso, especialistas consideram o alho um possível aliado dentro de um padrão alimentar saudável, e não um alimento “anticâncer”.
Como consumir para aproveitar melhor os compostos
A forma de preparo interfere bastante na atividade química do alho. Quando ele é picado ou amassado cru, ocorre a liberação da alicina, considerada um dos principais compostos bioativos do alimento. Por isso, muitos especialistas sugerem deixar o alho descansando por alguns minutos após cortar antes de aquecer, permitindo maior formação da substância.
Consumir cerca de um dente por dia já pode fornecer compostos suficientes para integrar uma dieta equilibrada. Dá para misturar em saladas, molhos ou pastas, preferencialmente junto às refeições para evitar irritações no estômago.
O alho cozido continua oferecendo benefícios, embora parte da alicina seja perdida no calor. Em compensação, surgem outros compostos sulfurados também considerados interessantes para a saúde.
Já suplementos exigem cautela. Pessoas que usam anticoagulantes ou estão em pré e pós-operatório devem buscar orientação médica, já que o alho pode interferir na coagulação sanguínea.
No fim das contas, a ciência parece confirmar parte da sabedoria popular: o alho realmente tem propriedades biológicas relevantes. Só não funciona como milagre — e talvez esse seja justamente o segredo mais importante por trás dele.
*Com informações de reportagem publicada em 20/02/2020.
Fonte: uol




