Nas terras indígenas Munduruku, no Pará, a atividade de garimpo vem passando por uma transformação significativa. Garimpeiros têm substituído grandes maquinários por equipamentos menores e menos potentes, em resposta ao aumento das operações de retirada de invasores em territórios indígenas.
Segundo pesquisadores, essa mudança não indica necessariamente uma redução da atividade, mas sim uma adaptação estratégica para evitar a fiscalização e manter a exploração de ouro e outros minerais.
As conclusões fazem parte do relatório O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão, elaborado pela Universidade do Estado do Pará em parceria com o Instituto Mãe Crioula. O estudo aponta que os povos Munduruku, assim como Yanomami e Kayapó, estão entre os mais afetados pela mineração ilegal no país.
A pesquisa também destaca a relação entre o garimpo e estruturas financeiras complexas. De acordo com o levantamento, redes que envolvem fundos de investimento, lavagem de dinheiro e até conexões com organizações criminosas sustentam a cadeia de exploração mineral. Operações policiais recentes têm revelado a atuação desses esquemas em diferentes níveis da economia ilegal.
O estudo identificou que a mão de obra do garimpo ilegal no Pará é formada majoritariamente por trabalhadores vindos do Maranhão. Esse fluxo migratório interno, iniciado ainda na década de 1990, envolve pessoas que alternam entre atividades agrícolas e o garimpo em busca de renda.
Municípios como Jacareacanga e Itaituba foram analisados pelos pesquisadores. Nessas regiões, a presença indígena é expressiva e marcada por denúncias constantes de violações de direitos relacionados à exploração territorial.
Os pesquisadores apontam que o funcionamento do garimpo depende de uma rede econômica local que vai além da extração mineral. Pequenos comércios e prestadores de serviços acabam integrados a esse sistema, criando uma relação de dependência econômica definida como minero-dependência.
Em alguns casos, indígenas também aderem ao garimpo por falta de alternativas econômicas. Essa realidade tem contribuído para transformações sociais, como o surgimento de áreas periféricas em municípios da região.
Dados do Censo indicam que os Munduruku representam mais da metade da população de Jacareacanga, evidenciando a forte presença indígena no território.
Pesquisadores alertam que o deslocamento de indígenas para áreas urbanas precárias tem gerado condições sociais semelhantes às de periferias de grandes cidades.
Outro ponto destacado é a percepção das novas gerações indígenas, que muitas vezes veem a agricultura como uma atividade menos atrativa diante da maior rentabilidade do garimpo, apesar das condições de trabalho serem igualmente difíceis.
Estudos econômicos mostram ainda que a renda média na região cresceu nos últimos anos, acompanhada por aumento de empregos formais e expansão do comércio local.
Crescimento econômico e ações do governo
Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas indicam crescimento significativo na infraestrutura local, com aumento da frota de veículos, expansão do PIB municipal e crescimento de estabelecimentos comerciais e de serviços.
O governo federal tem intensificado ações de combate ao garimpo ilegal em terras indígenas. Entre as operações recentes, estão ações da Polícia Federal que resultaram no bloqueio de recursos e investigação de esquemas financeiros ligados à extração ilegal de ouro.
O relatório analisado foi desenvolvido com base em dados entre 2017 e 2023 e busca compreender como o garimpo ilegal se reorganiza diante de ações de fiscalização e desintrusão em territórios indígenas da Amazônia.
Fonte: cenariomt




