Ser mãe nem sempre começa da mesma forma. Às vezes, nasce no parto. Outras, em uma decisão difícil, em uma adoção, em um tratamento de reprodução assistida, na criação de um neto, no cuidado diário de uma criança que chegou sem aviso ou até no recomeço depois de um susto. Mas, em todas essas histórias, há algo em comum: o amor que se constrói na presença.
Neste Dia das Mães, diferentes trajetórias mostram que não existe um único jeito de maternar. Há mães solo, mães adotivas, mães por inseminação, mães homoafetivas, mães trans, mães atípicas e avós que assumem o papel de mãe. Cada uma, à sua maneira, carrega desafios, renúncias, alegrias e a certeza de que maternidade também é escolha, entrega e construção diária.
A avó que virou mãe desde a maternidade
Aos 63 anos, Joceli Morato de Maceno se define como mãe e avó de Anthony, hoje com 13 anos. Ela acompanha o menino desde o nascimento. Com apenas três dias de vida, ele saiu do hospital direto para a casa dela. Para Joceli, foi como se ela mesma tivesse dado à luz.
“Quando nasceu, já veio para os meus braços”, lembra.
Anthony chegou à vida dela em um momento em que os pais, segundo Joceli, ainda não tinham condições emocionais e maturidade para cuidar do filho. Ela, então, assumiu a criação do neto e reorganizou a própria vida em torno dele.
Separada, Joceli conta que abriu mão de relacionamentos e de muitos planos pessoais para se dedicar ao menino. Os dois chegaram a morar em Fortaleza e depois passaram três anos em Jijoca, no Ceará, período que ela descreve como um dos mais felizes da vida.
Anthony tem TDAH e traços de autismo, o que tornou a rotina mais desafiadora, mas também cheia de descobertas. Para Joceli, ele é “um presente de Deus”. Hoje, o menino mora com o pai, mas o vínculo entre os dois permanece marcado por afeto, respeito e gratidão.
“Para mim, não tem presente melhor de Deus do que ter colocado o Anthony na minha vida”, diz.
Mãe depois dos 40: o filho que chegou quando ela já não esperava
Maria Rosa se tornou mãe aos 47 anos. Durante boa parte da vida, ela não se imaginava vivendo a maternidade. Ser mãe era algo distante, impensado e, em alguns momentos, nem desejado.
Tudo começou a mudar depois de um relacionamento que também surgiu de forma inesperada. Cerca de dois anos depois, Maria conta que teve um sonho em que uma voz dizia que ela teria um filho, um menino. Mesmo sendo cristã, não levou a mensagem tão a sério naquele momento, mas guardou no coração.
Hoje, ela é mãe de Welinton Júnior, de 9 meses.
Para Maria, a maternidade se divide em dois tempos: o antes, quando a ideia de ser mãe parecia impossível, e o depois, quando o filho se tornou o maior presente da vida.
“Me tornar mãe foi a melhor coisa que já me aconteceu. É algo maior do que qualquer diploma universitário que eu tenha”, afirma.
Ainda hoje, ela diz que às vezes olha para o filho e se emociona com a própria realidade. O menino, que um dia parecia apenas uma possibilidade distante, agora está nos braços dela.
Mãe solo: entre o susto, a pandemia e a força de seguir
Rosi Meire da Silva Carvalho, de 45 anos, é mãe solo de Kamilly Mirella Silva, de 11 anos. Ela conta que sempre teve medo da maternidade, por entender que ser mãe exige muito. A gravidez veio de forma inesperada, durante um relacionamento.
No começo, foi um susto. Depois, virou alegria.
Após cinco anos em uma relação conturbada, Rosi se separou do pai da filha. Desde então, passou a criar Kamilly com o apoio da própria mãe. A fase mais difícil veio durante a pandemia, quando precisou deixar a menina na casa da avó para conseguir trabalhar.
A distância partia o coração das duas. Kamilly queria ficar com a mãe, mas a rotina não permitia.
“Isso me entristecia muito, deixava meu coração partido”, lembra.
Com o fim do período mais crítico da pandemia, mãe e filha puderam ficar mais próximas novamente. Hoje, Kamilly entra na adolescência, e Rosi segue enfrentando os desafios da criação solo com amor, apoio familiar e resiliência.
“Não é fácil, até porque o pai ajuda quando dá. Mas o importante é que nós estamos bem”, diz.
Mãe atípica: celebrar até as pequenas vitórias
Thais Sabino é mãe de dois filhos atípicos: Otávio Augusto, de 22 anos, diagnosticado com TEA nível 1 de suporte e TDAH, atualmente cursando o 5º semestre de Medicina; e José Alberto, de 8 anos, que tem TEA, TDAH e TOD.
A trajetória dela é marcada por desafios que vão além do cuidado dentro de casa. No caso de Otávio, Thais enfrentou barreiras para garantir que o filho não apenas entrasse na universidade, mas conseguisse permanecer nela com dignidade.
Segundo ela, ainda há falta de preparo, compreensão e acolhimento em muitos espaços. Muitas vezes, a luta pelo direito de continuar estudando exigiu mais do que diálogo.
“Eu tive que entender que, às vezes, é necessário buscar a Justiça, porque só com conversa não ia conseguir”, relata.
A maternidade atípica também ensinou Thais a valorizar conquistas que, para outras famílias, podem parecer simples: uma manhã tranquila, uma adaptação bem-sucedida, um avanço na rotina, um dia em que tudo fica bem.
Ela também precisou aprender a cuidar de si. Após enfrentar depressão e as mudanças da menopausa, encontrou na atividade física, feita no único horário possível, enquanto os filhos dormiam, uma forma de permanecer de pé.
“Eu aprendi a aproveitar cada momento em que eles estão bem. Cada vitória, por mais simples que seja”, conta.
Adoção: a filha que chegou pela aldeia e mudou uma vida
Marilza Anacleto Molossi sempre soube que queria ser mãe. O sonho, no entanto, não aconteceu por meios biológicos. O que ela não imaginava era que a maternidade chegaria de outra forma, por meio de Luana, uma criança indígena que precisava de cuidados médicos.
Marilza soube da história da menina por uma amiga. Luana vivia em uma aldeia, em uma família que enfrentava muitas dificuldades e não tinha condições de oferecer o tratamento de saúde necessário. Depois de uma conversa com os familiares biológicos, ficou combinado que Marilza e a família levariam a criança para casa.
O primeiro encontro aconteceu em 18 de abril de 2024. Luana tinha 1 ano e 10 meses e pesava pouco mais de 7 kg, peso considerado abaixo do esperado para a idade.
Sem documentos, Marilza precisou organizar o registro da criança junto à mãe biológica. Depois, entrou com o pedido de guarda. Seis meses mais tarde, veio a guarda definitiva, acompanhada de um parecer da Funai que a emocionou: a família biológica havia declarado a impossibilidade de cuidar da menina, e o processo de adoção poderia seguir.
Marilza reconhece a dor dessa decisão. Para ela, foi um ato de amor difícil, porque a família de origem gostaria de manter Luana por perto, mas não podia oferecer o cuidado necessário.
“Eles abriram mão dela para nós. Eu fico pensando na dor deles ao tomar uma decisão tão difícil”, afirma.
Hoje, o processo de adoção ainda está em andamento, mas Marilza não tem dúvida: tornou-se mãe no dia em que levou Luana para casa. A menina cresceu, recuperou a saúde e é descrita como inteligente, amorosa e muito apegada à mãe.
Marilza faz questão de manter viva a história de origem da filha e preserva o vínculo com a família biológica, que acompanha o crescimento da criança sempre que possível.
Mãe trans: o filho que nasceu duas vezes
Cristina Silva, de 51 anos, é mãe de Kleveson Silva Souza, de 25. Ele foi morar com ela quando tinha cerca de 1 ano, após o desmame. Mas, segundo Cristina, o cuidado começou desde o nascimento.
Na juventude, ela ainda não pensava em maternidade. O amor, porém, foi se formando naturalmente diante daquele bebê. Com o tempo, Kleveson passou a viver com ela, e Cristina assumiu todos os cuidados.
Foi ela quem organizou o primeiro aniversário, contratou decoração e preparou as comemorações seguintes, até o momento em que o filho cresceu e não quis mais festas. A presença dela também foi decisiva em um dos momentos mais difíceis da vida dos dois.
Por volta dos 22 anos, Kleveson sofreu um grave acidente de moto e teve traumatismo cranioencefálico. Ficou acamado, precisou de reabilitação e enfrentou um longo processo de recuperação.
Cristina esteve ao lado dele em todas as etapas. Buscou tratamentos, acompanhou fisioterapias, se internou com o filho no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, referência em reabilitação neurológica, e continua acompanhando a evolução dele, que hoje já está em casa.
“Deus me deu esse presente duas vezes: quando ele nasceu e quando ele renasceu para mim”, diz, emocionada.
Hoje, Kleveson está consciente, consegue realizar atividades e segue em recuperação. Para Cristina, ele é o maior amor da vida.
Dupla maternidade: duas mães, uma bebê e uma rotina reinventada
Jackeline Jardim Mendonça, de 38 anos, e Yara Galvão Carvalho, de 36, vivem a maternidade com a pequena Elisa, de 6 meses. Para elas, ser mãe tem sido a experiência mais desafiadora das vidas e também do relacionamento.
A chegada da bebê transformou tudo: rotina, prioridades, cansaços, planos e a própria dinâmica do casal. Ao mesmo tempo, trouxe mais amor, parceria e sentido ao cotidiano.
Como vivem uma dupla maternidade, Jackeline e Yara compartilham os cuidados, as descobertas e os desafios. A maternidade era um sonho antigo das duas, conversado desde o início da relação.
A chegada de Elisa foi planejada por meio de reprodução assistida. Justamente por isso, dizem elas, o processo envolveu conversas, expectativas e preparação emocional.
“O maior desafio tem sido a mudança de rotina, de prioridades, de absolutamente tudo”, contam.
Mesmo dividindo as tarefas, elas reconhecem que a maternidade exige muito física e emocionalmente. Mas também afirmam que viver essa construção juntas torna tudo mais especial.
Inseminação: a maternidade que venceu o medo, o luto e o tempo
Sílvia Letícia da Silva sempre sonhou em ser mãe. Aos 35 anos, começou a considerar a possibilidade de fazer fertilização in vitro. Na época, porém, enfrentou resistência da família, especialmente da mãe, que sonhava ver a filha casada e com filhos concebidos de forma tradicional.
Para não contrariá-la, Sílvia desistiu do plano.
Pouco tempo depois, a mãe dela morreu de forma repentina. A perda abalou profundamente Sílvia. Um mês e meio após o luto, veio outro impacto: ela descobriu um cisto no ovário e ouviu do médico que, se quisesse engravidar, teria cerca de um ano para tentar. Havia o risco de novos problemas e até de perda de outro ovário.
Foi nesse contexto de urgência, dor e desejo antigo que Sílvia retomou o sonho da maternidade por meio da reprodução assistida. Hoje, é mãe de Jorge Luiz da Silva, de 9 anos.
O menino cresceu cercado pelo carinho da mãe, do avô e dos tios. Para ela, a maternidade não veio pelo caminho que muitos esperavam, mas veio do jeito possível, desejado e cheio de amor.
Madrasta: relação construída com respeito e amor
Maribel entrou na vida de Maurício quando ele ainda tinha 3 anos. Na época, a mãe biológica enfrentava problemas de saúde e ele passou a morar com o pai e a madrasta. Com o tempo, o carinho virou vínculo de mãe e filho.
Maribel acolheu Maurício como parte da família e acompanhou seu crescimento ao lado das filhas. “Eu aceitei e fomos convivendo juntos. Tenho ele como um amor de filho”, relembra.
Hoje, ela diz se orgulhar da relação construída ao longo dos anos e da união entre os irmãos. A convivência também fortaleceu os laços com a mãe biológica de Maurício, que é grata pelo cuidado e carinho dedicados ao filho.
Atualmente, Maurício mantém uma boa relação com as duas mães, em uma história marcada por afeto, respeito e parceria.
O que todas elas ensinam
As histórias de Joceli, Maria Rosa, Rosi, Thais, Marilza, Cristina, Jackeline, Yara e Sílvia mostram que a maternidade não cabe em um único modelo. Ela pode nascer de um parto, de uma assinatura judicial, de um tratamento médico, de uma decisão familiar, de um cuidado assumido, de uma relação de afeto ou de uma luta diária.
Ser mãe, para elas, não se resume a gerar. É criar, proteger, recomeçar, abrir mão, insistir, aprender e celebrar pequenas vitórias. É estar presente mesmo quando o caminho é difícil. É amar de um jeito que transforma a vida de quem cuida e de quem é cuidado.
Neste Dia das Mães, essas trajetórias lembram que toda maternidade construída com amor merece respeito. Porque cada mãe carrega uma história. E cada história, do seu jeito, é extraordinária.
Fonte: primeirapagina




