Golfinhos e outros animais marinhos são utilizados militarmente há décadas por diversos países. Na maioria das vezes, eles são treinados para localizar ameaças debaixo d’água, como explosivos, intrusos, objetos suspeitos e outros riscos.
O tema voltou às manchetes após uma reportagem do Wall Street Journal afirmar que o Irã estaria utilizando golfinhos para atacar navios americanos no Estreito de Ormuz. Atualmente, EUA e Irã firmaram um cessar-fogo oficial, mas episódios de tensão ainda são registrados.
Os “golfinhos kamikaze” seriam animais equipados com explosivos e treinados para se aproximar de navios inimigos e realizar ataques suicidas. O termo “kamikaze” faz referência aos pilotos japoneses que colidiam aeronaves carregadas de explosivos durante a Segunda Guerra Mundial. Esse tipo de uso suicida de golfinhos não é amplamente documentado por fontes oficiais na história militar.
Em uma coletiva de imprensa, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, foi questionado sobre a veracidade da informação. Ele negou a existência de golfinhos kamikaze iranianos, mas não descartou seu uso por parte dos EUA:
“Não posso confirmar nem negar que nós (EUA) temos golfinhos kamikaze, mas posso confirmar que eles (Irã) não têm”, afirmou.
Cinco países que já desenvolveram programas militares com animais marinhos:
A maioria desses programas possui informações sigilosas e, por isso, não há evidências sólidas do uso de “golfinhos kamikaze” no passado. Mesmo assim, sabemos do treinamento desses animais para outros fins.
- Reino Unido
Durante a Primeira Guerra Mundial, a Marinha britânica treinou leões-marinhos para localizar submarinos inimigos. O programa, no entanto, fracassou. Apesar do bom desempenho nos treinamentos – realizados em Gwynedd, no País de Gales –, os animais se distraíam ou se entediavam facilmente em mar aberto, dificultando a localização de submarinos.
- Suécia
Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, a Suécia criou uma unidade de treinamento de mamíferos marinhos no arquipélago de Estocolmo. O objetivo era treinar focas para localizar minas, submarinos e torpedos que erraram seu alvo.
O projeto foi liderado pelo cientista Valdemar Fellenius, que apostava no potencial das focas por sua inteligência, facilidade de treinamento e capacidade de mergulho prolongado em grandes profundidades.
Em 1943, a Suécia encerrou o programa e fechou a unidade devido a dificuldades técnicas, especialmente nos sistemas usados pelos animais para sinalizar alvos.
Fellenius discordou da decisão e seguiu com o projeto de forma independente até 1945, quando sua instalação foi encerrada, pois a guerra já caminhava para o seu fim. Atualmente, a Suécia não possui programas desse tipo.
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- EUA
Desde 1959, em plena Guerra Fria, os EUA mantêm o U.S. Navy Marine Mammal Program, (Programa de Mamíferos Marinhos da Marinha dos EUA) sediado em Point Loma, na Califórnia. Ele é responsável por treinar mamíferos marinhos para detectar ameaças subaquáticas, como minas navais (explosivos colocados debaixo d’água para destruir embarcações). Esses objetos são difíceis de detectar com sonares eletrônicos, principalmente em áreas movimentadas.
Os animais utilizam apetrechos tecnológicos, como localizadores. Eles também conseguem marcar e recuperar objetos no mar, realizar vigilância e até mesmo detectar e localizar nadadores e mergulhadores não autorizados.

Nos primeiros anos do programa, foram estudados diversos animais marinhos, como tubarões, raias e tartarugas, para identificar as melhores espécies para a função. Hoje, a marinha utiliza unicamente golfinhos-nariz-de-garrafa e leões-marinhos-da-califórnia, que são fáceis de treinar e se adaptam bem a diferentes ambientes marinhos. Além disso, possuem audição e visão altamente desenvolvidas. Até o momento, nenhum drone aquático se mostrou mais eficiente que esses animais.
De forma geral, os golfinhos realizam a detecção de minas, enquanto os leões-marinhos ajudam na recuperação de objetos, fixando cabos nos alvos para que possam ser retirados.
Para as missões, os animais podem ser transportados por barcos, aviões ou helicópteros, sempre acompanhados por veterinários e treinadores. Em trajetos curtos, eles são treinados para seguir as embarcações da Marinha, nadando ao seu lado no mar aberto.

Os objetivos do programa foram mantidos em sigilo até o início da década de 1990, o que gerou especulações sobre o uso dos animais como armas (como os golfinhos kamikaze). Segundo o Naval Information Warfare Center Pacific, que coordena o programa, os golfinhos nunca foram utilizados dessa forma.
Há evidências de que cinco golfinhos atuaram na Guerra do Vietnã (que ocorreu de 1955 a 1975), protegendo a Baía de Cam Ranh contra nadadores inimigos. Eles também foram utilizados na Guerra do Iraque (2003–2011), na identificação de minas.

- Ucrânia (com programa herdado da União Soviética)
Durante a Guerra Fria, a União Soviética também utilizou golfinhos militarmente e mantinha diversos programas com mamíferos marinhos. Após o fim do bloco soviético, a unidade de treinamento localizada próxima à cidade de Sebastopol, na Crimeia, passou ao controle da Ucrânia.
O país manteve o programa ativo. A Ucrânia utilizou seu “exército” de golfinhos no conflito de anexação da Crimeia.
Em 2014, a Rússia anexou a Crimeia e assumiu o controle da unidade, assim como de seus golfinhos. A Ucrânia tentou negociar o retorno dos animais, sem sucesso.
Em 2018, Boris Babin, representante da Ucrânia na Crimeia, afirmou que muitos desses golfinhos teriam morrido por se recusarem a obedecer aos treinadores russos e por deixarem de se alimentar. Ele afirmou que os animais morreram de forma patriótica. O político russo Dmitry Belik contestou a versão, alegando que os golfinhos foram vendidos ou morreram por causas naturais.
- Rússia
Após assumir estruturas na Crimeia, a Rússia intensificou seus programas com mamíferos marinhos. Em 2016, foi divulgado que o país havia adquirido cinco golfinhos, sem explicar oficialmente o motivo.
Em 2019, segundo o The Barents Observer, imag_ens de satélite indicaram a presença de baleias-beluga em instalações militares russas no Ártico. No mesmo ano, uma beluga com identificação russa foi encontrada na Noruega, levantando suspeitas de uso para espionagem.
Depois, em 2022, uma análise divulgada pela Marinha dos EUA indicou que golfinhos estavam sendo utilizados para proteger uma base naval russa próxima à Crimeia. Outras imagens de satélite mostraram recintos para os animais no Mar Negro.
Também há indícios de programas militares com mamíferos marinhos na Coreia do Norte e em Israel.
Fonte: abril





