Mais de 12 mil pessoas aguardam por atendimento oftalmológico na rede pública de Cuiabá, enfrentando uma espera que, em muitos casos, ultrapassa meses e até anos. A demora pode agravar doenças oculares, comprometer a visão e afetar diretamente a qualidade de vida dos pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).
A realidade é vivida de perto pela aposentada Marilene Aparecida da Silva. Diagnosticada com retinopatia diabética, ela aguarda desde 8 de outubro de 2024 por um exame essencial, que custa cerca de R$ 800 na rede particular.
Sem condições de arcar com o valor, ela segue na fila, sem previsão de atendimento. “Tá na fila, tem que aguardar. É a única resposta que eu ouço. O meu grau maior é longe, o perto é menos. Aí, se eu não me esquecer e não pôr os óculos para ver de perto, é perigoso até cair. Eu já torci meu pé, tô com o tendão rompido por conta disso”, conta.
Em momentos de dor intensa, ela recorre ao atendimento de urgência no Hospital Municipal de Cuiabá, onde passa por procedimentos paliativos para aliviar o problema, mas sem resolver a causa principal.
“Eles tiram uma membrana que cria dentro do meu olho e é muito dolorido. Só quem tem e quem passa por isso sabe o quanto é difícil você ficar aguardando uma coisa que nunca vai chegar. Talvez quando eu estiver morta, aí talvez chegue”, afirma.
O caminho até uma consulta especializada começa nas unidades básicas de saúde, passa pelo sistema de regulação e depende da oferta de vagas por prestadores credenciados. Atualmente, o município conta com parcerias como o Instituto Lions da Visão e o Hospital Universitário Júlio Müller, que disponibilizam atendimentos por meio de contratos administrativos. Ainda assim, a demanda supera a capacidade de atendimento.
Segundo a diretora de Controle e Regulação da Saúde de Cuiabá, Gabrielly Taques, neste momento estão sendo chamados pacientes que entraram na fila em agosto de 2025.
“Tem a proposta de abrir um novo edital de credenciamento para o programa Fila Zero. Então, o custeio hoje do programa Fila Zero atrai novas empresas e, com isso, a gente consegue ampliar os serviços. A gente publica um edital e, em torno de 30 a 60 dias, a gente já tem como concluir esse processo de credenciamento”, finaliza Gabrielly.
Enquanto isso, especialistas alertam para os riscos da espera prolongada. Doenças oftalmológicas podem evoluir de forma silenciosa e, quando não tratadas a tempo, causar danos irreversíveis. Entre os problemas mais comuns estão os erros de refração, como miopia e astigmatismo, que podem ser corrigidos com acompanhamento adequado.
“Existem outros problemas mais graves que podem inclusive levar à cegueira em última instância, como por exemplo, a retinopatia diabética, degeneração macular relacionada à idade e o próprio glaucoma, sendo que o glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível em todo o mundo”, explica o oftalmologista, Jair Giampani.
Para quem está na fila, o tempo segue como principal inimigo. Sem previsão de atendimento, pacientes continuam aguardando por um serviço que, muitas vezes, é decisivo para preservar a visão e garantir autonomia no dia a dia.
Fonte: primeirapagina





