Em 1976, em meio ao regime de ditadura militar no Brasil, um prédio construído com recursos públicos em Foz do Iguaçu (PR), destinado à rede municipal de ensino, foi repassado à iniciativa privada pouco antes de sua inauguração. A estrutura passou a ser administrada pelo Colégio Anglo-Americano, contratado para atender filhos de trabalhadores da Usina de Itaipu.
A escola havia sido projetada para reduzir o déficit educacional local, que deixava cerca de 3 mil crianças fora das salas de aula. No entanto, uma decisão vinda da Secretaria de Educação do estado determinou a entrega do prédio à instituição privada, gerando constrangimento entre autoridades locais que já haviam anunciado a abertura da unidade para a população.
O contrato envolvia Itaipu, o consórcio de empreiteiras responsável pela usina e o colégio. As empresas garantiam o pagamento de pelo menos mil vagas, com mensalidades custeadas com recursos públicos. No primeiro ano, porém, o número de alunos ultrapassou 10 mil, chegando a mais de 14 mil durante o auge das obras.
Especialistas apontam que o modelo foi altamente lucrativo para a instituição privada. Além da infraestrutura completa financiada por Itaipu, não havia risco de inadimplência. Estudos acadêmicos classificam o acordo como desvantajoso para o setor público, já que os investimentos beneficiaram diretamente a expansão da rede privada.
Antes do contrato, o Anglo-Americano possuía cerca de 500 alunos no Rio de Janeiro. Com a operação em Foz do Iguaçu, a instituição registrou crescimento expressivo, ampliando sua atuação para outras regiões e firmando novos contratos com estatais, incluindo projetos no Brasil e no exterior.
O processo de contratação não apresenta registros de licitação pública, segundo pesquisas realizadas em arquivos oficiais. A ausência de documentação reforça a hipótese de uma escolha baseada em articulação política.
Além da expansão do ensino privado, o modelo adotado evidenciou desigualdades sociais. Havia unidades distintas para alunos de diferentes classes: filhos de trabalhadores com maior renda tinham acesso a estruturas completas, enquanto estudantes de famílias operárias frequentavam escolas com infraestrutura limitada e sem acesso ao ensino médio.
Durante o período, o crescimento populacional acelerado de Foz do Iguaçu agravou os desafios educacionais. Em uma década, a população quadruplicou, enquanto dezenas de escolas foram desativadas devido às obras da usina. A rede pública precisou adotar medidas emergenciais, como a criação de turnos reduzidos para atender a demanda.
A Itaipu afirmou, em nota, que a criação da estrutura educacional foi necessária diante da chegada massiva de trabalhadores e destacou a qualidade do ensino oferecido. Já pesquisadores avaliam que os investimentos destinados à rede pública foram insuficientes diante dos recursos canalizados para a instituição privada.
O caso ilustra como decisões tomadas durante a ditadura contribuíram para a consolidação de um modelo de expansão do ensino privado com apoio estatal, deixando impactos duradouros na educação brasileira.
Fonte: cenariomt





