Saúde

Por que usamos os mesmos neurônios para olhar e imaginar? Descubra essa conexão fascinante!

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2026

Pense em uma maçã. Um móvel de sua casa. Seu primeiro animal de estimação. O rosto de uma pessoa querida. A não ser que você tenha algum grau de afantasia (condição de quem não consegue imaginar visualmente), é provável que uma projeção de todas essas coisas tenha aparecido sem muito esforço na sua cabeça.

Essa é uma das características mais curiosas da mente: olhamos para um objeto e depois, de olhos fechados, conseguimos formar uma imagem mental desse mesmo objeto, mais ou menos parecida com a coisa real, dentro da nossa cabeça. Mas os caminhos que o cérebro percorre para processar cada uma dessas imagens (real e imaginada) eram, até então, desconhecidos.

Agora, um novo estudo traz uma resposta a nível celular: os neurônios ativados quando vemos ou imaginamos um objeto são, em grande parte, os mesmos. Pesquisadores foram capazes de monitorar o comportamento de neurônios individuais dentro do cérebro de pessoas, e observaram que cerca de 40% dos neurônios ativados quando um objeto era visto eram reativados quando esse mesmo objeto era reconstruído dentro da mente.

O estudo publicado em abril no periódico Science reforça uma noção já corrente dentro das neurociências: a de que a percepção e a imaginação compartilham uma relação íntima dentro do nosso cérebro. Não só conseguimos imaginar as coisas que estão fora do alcance dos olhos, como também complementamos as lacunas nas imagens que vemos com criações de nossa mente.

Objetos são tridimensionais – ou seja, apenas algumas de suas faces ficam visíveis para nós quando os encaramos. Outras permanecem ocultas. Mas, nesse caso, a intuição dá um jeito de estimar o que está lá: olhando a base de uma maçã, é intuitivo imaginar que há um cabo do lado oposto.

Estudos anteriores com imagens cerebrais já sugeriam que a lembrança de um sentido específico (como a visão) reativava a mesma região do cérebro responsável por esse mesmo sentido. Os novos achados trazem pela primeira vez evidências dessa sobreposição sendo observada em neurônios individuais.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) examinaram a cabeça de 16 pacientes com epilepsia. Todos estavam hospitalizados e já contavam com eletrodos conectados ao cérebro – algo que, a princípio, ajudava os médicos a encontrar a origem das crises epilépticas, mas também permitiu com que os cientistas monitorassem a atividade de mais de 700 neurônios individualmente.

Eles focaram em uma área específica do cérebro – o córtex temporal ventral – que é ligada ao reconhecimento de objetos, faces e palavras. Primeiro, mostraram aos pacientes centenas de imagens em uma tela, incluindo animais, plantas, rostos e texto, enquanto monitoravam quais neurônios ficavam ativos, e quantas vezes eles disparavam.

A ideia era entender por quais caminhos neurais o cérebro processava objetos. Mais especificamente, os pesquisadores procuraram mapear o código de eixos distribuído – isto é, o mecanismo pelo qual o córtex temporal ventral interpreta as imagens. De forma simplificada, essa região do cérebro se divide em vários eixos especializados em características visuais específicas de uma imagem, como formato e cor. Lá dentro, cada neurônio tem seu eixo de preferência, e dispara mais quando esse eixo é observado.

Sabendo disso (e com a ajuda de redes neurais computadorizadas), os cientistas conseguiriam decodificar a interpretação feita pelo cérebro e, assim, reconstruir os objetos que os pacientes estavam vendo com base na atividade de seus neurônios.

Em outro experimento, os pesquisadores mostraram imagens aos pacientes e pediram para que fechassem os olhos, imaginando essas mesmas imagens. Assim, eles observaram que 40% dos neurônios que estavam ativos enquanto os pacientes viam um objeto reativavam com igual intensidade quando ele virava imaginação. A interrelação foi tão forte que os cientistas conseguiram identificar quais objetos estavam sendo pensados, com detalhes sobre tamanho e angulação.

Os achados do estudo trazem consigo uma série de possíveis aplicações bem práticas. Segundo os pesquisadores, esse é um primeiro passo para decodificar o funcionamento da memória no cérebro. “Se você realmente entende como a memória funciona, então pode começar a pensar em como podemos consolidar a memória ou evitar que ela seja deteriorada pelo Alzheimer e por outras doenças”, afirma, em nota, o neurobiólogo Varun Wadia.

Também é uma janela para que condições como a esquizofrenia, caracterizada por suas alucinações, sejam melhor entendidas; e também pode levar a criação de modelos computadorizados que simulem com precisão a visão humana – algo que, por sua vez, pode ser usado em próteses para restaurar a visão de pessoas.

Para a pesquisa, o próximo passo é encontrar de onde sai o “sinal gatilho” que faz os neurônios reativarem, e como outras regiões do cérebro também podem influenciar em todo o processo.

Um tema próximo, porém, não foi abordado pelo estudo: a afantasia, mencionada no início do texto. Essa é a condição que faz com que algumas pessoas não tenham a capacidade (ou tenham uma capacidade bem limitada) de imaginar qualquer coisa visualmente. Todos os pacientes do estudo, como os autores observam, obtiveram pontuações altas em questionários de vivacidade da imaginação visual.

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo