O cheiro de tinta fresca e madeira nova no casarão de número 65 da Praça do Rosário contrasta com a memória da fuligem que marcou o local desde 2018. Neste sábado (18), as chaves do imóvel foram devolvidas a uma família, oito anos após um incêndio ter destruído seu teto e acelerado o processo de deterioração que assombra grande parte do Centro Histórico da capital.
A entrega da obra, viabilizada por um mutirão que uniu academia, poder público e comunidade, serviu de vitrine para uma movimentação política que ocorreu no mesmo dia. Representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estiveram no gabinete do prefeito Abilio Brunini (PL) para discutir um pacto de desburocratização que visa acelerar intervenções semelhantes em toda a área.
O diálogo, que já vinha sendo conduzido com a superintendência estadual do órgão, agora ganha musculatura em nível nacional. A meta, segundo Abilio, é afrouxar as amarras burocráticas para atrair moradores e investimentos de volta aos becos e ruas da “capital velha”.
“O nosso sonho é transformar o Centro Histórico em um espaço novamente frequentado pela cuiabania e pelos turistas, onde a vida, a cultura e o lazer voltem aos becos e ruas da capital velha. Para isso, precisamos da colaboração de todos os entes, buscando soluções conjuntas e mais agilidade nos processos para garantir as intervenções necessárias”, afirmou.
A recuperação do casarão na Praça do Rosário não foi obra de uma grande empreiteira, mas sim da persistência acadêmica e comunitária. O imóvel, reduzido a paredes enegrecidas e sem cobertura desde o acidente de 2018, entrou na lista de prioridades do Canteiro Modelo de Conservação de Cuiabá (CMCC) , projeto de extensão da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em parceria com o Iphan, dentro do Programa Conviver.
Entre agosto de 2025 e abril de 2026, o endereço virou uma sala de aula a céu aberto. Oficinas, mutirões e aulas práticas mobilizaram mais de 100 participantes entre estudantes, profissionais e membros da comunidade, na missão de devolver a dignidade da moradia à família proprietária.
“Conseguimos recurso para fazer a recuperação de habitações para pessoas com renda de até três salários mínimos, que têm dificuldade de manter esses imóveis tombados. A principal importância é ajudar essas famílias e fixar moradores no centro, o que contribui para uma cidade mais compacta, dinâmica e segura, fortalecendo o comércio e as relações urbanas”, explicou a coordenadora do projeto, a professora doutora Luciana Pelaes Mascaro (UFMT).
A iniciativa é um contraponto concreto ao abandono que marca a paisagem do entorno da Igreja do Rosário e Capela de São Benedito, um dos cartões-postais mais emblemáticos da fé e da história cuiabana.
Para o presidente do Iphan, Deyvesson Israel Alves Gusmão, a entrega do casarão é a prova de que a preservação do patrimônio só se sustenta com a articulação da comunidade.
“O programa Conviver nasce da necessidade de interlocução do poder público com a sociedade na conservação de áreas históricas. A preservação só é efetiva com participação social, e o principal resultado é um centro histórico vivo, com pessoas morando e vivendo nesses espaços. A recuperação desses imóveis é voltada para famílias de baixa renda e contribui para o desenvolvimento social, econômico, estimula o turismo e fortalece a cidadania”, pontuou Gusmão.
Fonte: leiagora





