Decerto em algum momento da vida, você, provavelmente, já ouviu a história que dizia assim: ele foi enterrado vivo por engano. Será verdade? Pode-se dizer que isso já foi possível, apesar de pouco provável. A possibilidade se deve a um distúrbio neurológico, que altera a capacidade cerebral de regular o ciclo natural do sono e vigília, conhecida como Narcolepsia.
As pessoas acometidas por este transtorno apresentam sonolência excessiva diurna, independente de terem tido ou não uma noite aparentemente boa de sono. Podem, inclusive, sofrer um ataque súbito de sono, em que necessitam deitar-se imediatamente ou terminam caindo ao solo ou sobre qualquer superfície em que estejam. Nesse caso particular acontece um fenômeno conhecido como Cataplexia em que ocorre perda súbita e temporária do tônus muscular. Aqueles que sofrem ataques de cataplexia sentem como se lhes faltassem as pernas, que lhes provocam queda brusca da própria altura, geralmente desencadeada por fortes emoções, tanto negativas como positivas. Os indivíduos portadores de cataplexia têm dificuldade de se manter despertos durante o dia.
Devemos distingui-la da Paralisia do Sono, que também pode estar presente nos quadros narcolépticos, em que há incapacidade temporária de mover-se ou falar, que ocorre sempre dentro do período do sono, ao adormecer ou ao despertar. Também podem fazer parte deste transtorno, as Alucinações Hipnagógicas e Hipnopômpicas, que são sonhos vívidos e assustadores ao adormecer e ao despertar. Ainda é comum que haja Fragmentação do Sono noturno, com muitos despertares durante a noite.
A Narcolepsia se apresenta de duas formas. A primeira é a Narcolepsia Tipo 1, em que há presença de Cataplexia e ao exame do líquor cefalorraquidiano está diminuída ou ausente a hipocretina (orexina), neurotransmissor indispensável à manutenção do estado de vigília. Ocorre, provavelmente, devido a uma doença autoimune, que seria instalada por fatores genéticos e ambientais, como infecções virais, por exemplo e causaria a perda de neurônios produtores de hipocretina (orexina).
Agora, respondendo melhor a pergunta do início deste texto, relacionada ao temor de ser enterrado vivo, sim, mas apenas no passado ou em locais onde não haja médico para diagnosticar a morte. A possibilidade existe porque a cataplexia, pode evoluir, muito raramente, com catalepsia, um estado grave, que simula o estado de morte aparente. Trata-se de uma ocorrência rara, porém possível.
O risco não é da sonolência diurna excessiva apenas, mas principalmente da cataplexia e, mais ainda, da catalepsia. Esta última alteração, em sua forma grave, ou seja, um ataque severo de catalepsia é capaz de paralisar completamente o corpo e imobilizar a pessoa por horas ou até mesmo dias. Nesse tempo, a respiração e os batimentos cardíacos diminuem consideravelmente, dificultando sua detecção a um exame superficial, o que pode simular um estado de morte aparente. Apesar disso, a consciência está preservada e a pessoa, acometida por essa condição, é capaz de ouvir tudo o que é falado ao seu redor, mas não consegue ter qualquer reação.
Apesar de simular o estado de morte aparente, a catalepsia não se confunde com o estado de morte verdadeira, uma vez que os avanços da medicina criaram protocolos confiáveis, extremamente precisos, utilizados para o diagnóstico de cessação da vida, unindo o exame clínico a avaliações eletroencefalográficas e eletrocardiográficas. Além disso, evita-se, dentro do possível, o enterro prematuro. A narcolepsia deve ser diagnosticada o mais cedo possível e adequadamente tratada para evitar este grave problema de saúde, que traz grandes prejuízos ao sono e, consequentemente, à saúde física e mental.
Fonte: primeirapagina





