Música

Por que nosso gosto musical fica fixo na juventude? Saiba mais sobre essa curiosa preferência!

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2026

Quem frequenta o YouTube já sabe: basta acessar uma música com mais de dez anos de existência para encontrar comentários nostálgicos do tipo: “Isso sim é que é música, e não esse lixo que temos hoje”.

Talvez a qualidade da música realmente esteja caindo, mas também é fato que o gosto musical envolve aspectos subjetivos. As preferências nessa seara se cristalizam na juventude e mudam muito pouco ao longo da vida.

A constatação vem de um estudo recente, produzido por pesquisadores das universidades de Primorska, da Eslovênia, e Jönköping e Gotenburgo, da Suécia. Eles avaliaram os dados de mais de 40 mil usuários, de dezenas de países diferentes, cadastrados na plataforma de streaming Last.fm. Como o site solicita que os usuários informem a data de nascimento, foi possível estabelecer comparações de acordo com a idade.

Segundo os autores, os hábitos musicais se ampliam na transição da adolescência para a idade adulta. Na meia-idade, o espectro se estreita, enquanto as escolhas musicais se tornam mais pessoais e influenciadas por experiências anteriores.

Regulador de emoções

“Os resultados indicam que, com o passar dos anos, as preferências dos usuários mudam de conteúdo altamente diversificado e não personalizado para conteúdo menos diversificado, porém mais personalizado”, aponta o estudo. “Os ouvintes mais jovens preferem principalmente lançamentos recentes, mas essa preferência diminui com a idade, dando lugar a uma mistura de faixas recentes e nostálgicas. Aos 40 anos, os usuários se dedicam predominantemente à nostalgia, ouvindo músicas da adolescência”, sintetizam os autores.

O neurocientista Gabriel Gaudencio do Rêgo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que o estudo identificou um fenômeno real: “Quando jovens, estamos mais abertos a buscar novas informações e estímulos. Somos mais sensíveis às tendências culturais e aos estímulos sociais. Ou seja, acabamos nos expondo às novidades musicais, seja pela mídia ou por eventos a que vamos com amigos”, analisa.

Segundo Rêgo, a música exerce um papel importante na formação da identidade, um processo que se consolida justamente com o início da vida adulta. “Quando crescemos, vamos formando nossa identidade, somos menos propensos a novidades, e tendemos a usar a música para reforçar experiências identitárias (músicas que me lembrem ‘quem eu sou’ ou de eventos passados), assim como somos mais ‘especialistas’ em saber quais músicas geram o efeito desejado (a música como um regulador de emoções)”, diz ele.

Um fenômeno parecido acontece em outros aspectos da vida, afirma o professor. “Outro exemplo similar é o das nossas relações sociais. Somos mais propensos a buscar estimulação social quando jovens e tendemos a gostar de conhecer novas pessoas. Quanto mais velhos, tendemos a manter as amizades que já construímos para relembrar histórias passadas ou nos sentirmos bem”.

Mecanismos neurológicos

Outros levantamentos buscam explicar as mudanças neurológicas que ancoram estas mudanças.

Utilizando tomografia por emissão de pósitrons (PET) e ressonância magnética funcional (fMRI), um grupo de pesquisadores da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá, já conseguiu identificar os mecanismos neurológicos e hormonais vinculados à experiência de ouvir canções: o prazer provocado pela audição leva à liberação de dopamina, neurotransmissor que atua no cérebro para produzir as sensações de recompensa, prazer e motivação. “Nossos resultados ajudam a explicar por que a música é tão valorizada em todas as sociedades humanas”, apontam os autores do estudo, publicado em 2011.

Essa resposta é amplificada durante a adolescência, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas superiores, segue em formação até por volta dos 25 anos. Daí que, na transição para a vida adulta, as pessoas alcancem o chamado “pico de reminiscência”, o período em que seu senso de identidade está se formando e a música que toca durante essa formação se integra estruturalmente a ele. É, portanto, um período crucial para a formação do gosto musical para o restante da vida.

Posteriormente, os ouvintes mais velhos se restringem a ciclos cada vez mais específicos, quase inteiramente ancorados em músicas da adolescência e do início da vida adulta. Enquanto canções familiares garantem a liberação de dopamina sem custo de processamento de informações, as novas precisam ser repetidas diversas vezes para que o cérebro realize o reconhecimento de padrões necessário para que o circuito de recompensa seja ativado.

Em outras palavras, torna-se mais custoso alcançar a mesma recompensa quando se ouvem canções novas – ainda que seja possível, desde que a pessoa se dedique à exposição contínua e deliberada de novidades. A maior parte das pessoas mais velhas não embarca em uma jornada de exploração musical, mas ela é possível. Se não fizerem este esforço, na medida em que envelhecem, os ouvintes podem até interagir com novos lançamentos, mas retornam a músicas favoritas antigas com mais frequência do que os ouvintes mais jovens.

Oportunidade de melhoria

O trabalho dos pesquisadores baseados na Suécia e na Eslovênia teve como objetivo principal contribuir para a melhoria dos sistemas de recomendação de músicas. E aponta que um serviço que recomenda o mesmo tipo de música, da mesma forma, para todos, corre o risco de não encontrar o que diferentes grupos realmente desejam.

Do ponto de vista dos sistemas de recomendação, os achados representam uma grande oportunidade: se eles forem projetados levando em consideração como os gostos evoluem ao longo da vida, eles podem apoiar ativamente a identidade e o bem-estar das pessoas. Para os ouvintes mais jovens, podem promover a exploração e a descoberta.

Para os ouvintes mais velhos, as descobertas podem ajudar a equilibrar a nostalgia com material novo cuidadosamente selecionado, ajudando a música a permanecer uma fonte de reflexão e autorrealização ao longo da vida. “Algoritmos que ajustam a diversidade e a personalização com base na idade podem atender melhor às variadas preferências entre os diferentes grupos etários”, conclui o trabalho.

São propostas relevantes, quando se considera que, de acordo com a plataforma de dados Statista, mais de 700 milhões de pessoas no mundo consomem música utilizando serviços pagos de streaming – um volume que dá uma dimensão da importância que a música preserva junto a pessoas de diversas geografias e culturas. “Dentre as diversas funções da música, tais como as culturais, de lazer ou mesmo de interação social, uma que se destaca é sua capacidade de modular emoções”, afirma Rêgo. “Outra função importante é a de identidade: a música pode ressaltar ou nos conectar a certos aspectos de nossa história”.

O professor, aliás, diz que a própria experiência pessoal corrobora as descobertas dos cientistas: “No geral, ainda escuto as músicas da juventude”, diz.

Fonte: gazetadopovo

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