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Mulheres na arquitetura: influência na construção brasileira

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A casa não é apenas um espaço físico. Ela traduz escolhas, reflete rotinas e acompanha transformações sociais. As mudanças na vida das mulheres têm redesenhado a forma de morar e, consequentemente, de projetar. Ao assumir novos papéis profissionais, liderar equipes e equilibrar múltiplas responsabilidades, elas também influenciam decisões que vão da planta à dinâmica dos ambientes. Arquitetas brasileiras compartilham suas experiências sobre protagonismo, desafios no mercado e como a vivência feminina impacta o modo de pensar os espaços hoje.

Arquitetura em transformação: o protagonismo feminino que redesenha o morar

Em muitos lares, essa transformação acompanha a nova dinâmica da vida feminina. Se antes a mulher era socialmente associada quase exclusivamente ao cuidado da casa, hoje ela ocupa espaços de liderança, constrói carreiras, empreende e participa ativamente das decisões dentro e fora do lar.

Essa autonomia – ainda em construção e longe de ser plenamente equilibrada – altera prioridades, redefine fluxos e transforma a lógica dos ambientes. Com jornadas múltiplas e responsabilidades que precisam ser compartilhadas, funcionalidade deixou de ser detalhe para se tornar prioridade.

Para a arquiteta Michelle Machado, o impacto é claro no cotidiano dos projetos. “O dia a dia precisa ser prático. A mulher não passa o dia todo em casa, e tudo precisa funcionar de maneira mais organizada.” Segundo ela, muitos diferenciais pensados no projeto são percebidos principalmente por quem vive essa rotina acelerada e precisa que a casa responda com eficiência.

Ana Carolina Queiroz observa que as mulheres hoje assumem um posicionamento mais firme nas decisões da casa, especialmente quando o assunto é funcionalidade. “A casa passou a ser entendida como um espaço onde a vida deve fluir com naturalidade.” Para ela, ambientes como a cozinha integrada ao living ganharam protagonismo, tornando-se ponto de encontro da família, enquanto áreas como a lavanderia passaram a ser planejadas de forma mais inteligente e estratégica.

Caroline Britto também percebe essa mudança como algo geracional. Empreendedora e gestora de equipes, ela se reconhece nesse movimento de multiplicidade. “O morar contemporâneo precisa acompanhar o ritmo de quem vive ali.” Casas mais integradas, flexíveis e preparadas para acomodar o trabalho remoto deixaram de ser tendência e passaram a ser necessidade. A estética continua importante, mas agora divide espaço com bem-estar real e propósito.

Já para Julyana Bortolotto, essa transformação envolve não apenas as mulheres, mas a dinâmica das famílias como um todo. “Projetar uma casa também passa por entender essas dinâmicas e criar ambientes que acompanhem o ritmo e as necessidades reais de quem vive ali.” Ela destaca que espaços de convivência, como varandas, salas íntimas e cozinhas, deixaram de ser apenas funcionais e se tornaram cenários de encontro.

As conquistas femininas, no trabalho, nas relações e na autonomia de escolha, entraram na planta, influenciam decisões e redefinem prioridades. A vida real, especialmente a de quem equilibra múltiplas frentes com responsabilidade e presença, passou a orientar o desenho dos espaços. E, para acompanhar essa transformação, os projetos precisaram se tornar mais práticos, mais sensíveis e mais conectados à forma como as pessoas realmente vivem.

Liderar obras ainda é um desafio

Se dentro de casa as transformações são visíveis, no canteiro de obras elas ainda avançam em ritmo mais lento. A arquitetura é uma das profissões com maior presença feminina nas universidades, mas, na execução, o cenário continua majoritariamente masculino.

Com mais de duas décadas de atuação, Michelle Machado reconhece que o caminho já foi mais difícil, mas não ignora que obstáculos permanecem. “Sempre me posicionei de maneira firme para conquistar meu espaço”, afirma. Para ela, quando surge qualquer resistência, a resposta está na competência técnica e na segurança das decisões.

A experiência também molda essa construção de autoridade. Julyana Bortolotto, com 25 anos de carreira, observa que, mesmo com avanços, os nomes masculinos ainda predominam quando se fala em grandes referências da profissão. Para ela, essa desigualdade é estrutural e ultrapassa a arquitetura. Ao mesmo tempo, destaca que respeito se consolida com clareza nas decisões e consistência no trabalho diário.

Entre firmeza e escuta, outras nuances aparecem. Ana Carolina Queiroz acredita que maturidade e aprendizado contínuo são parte essencial dessa trajetória. Ouvir equipes experientes, valorizar o conhecimento prático e manter postura segura fortalecem a atuação profissional. Ela também cita a parceria com a Concept Engenharia, liderada por Amanda Macedo, como exemplo de uma gestão que valoriza organização, acompanhamento próximo e diálogo constante com os clientes. Caroline Britto complementa: “A autoridade está na coerência entre discurso, conhecimento e prática.”

O mercado mudou, amadureceu e ampliou espaços, mas ainda há caminhos a percorrer para que liderança feminina deixe de ser exceção. Nas obras, projetos e em diferentes setores, mulheres não apenas participam, elas conduzem, assinam, gerenciam e decidem. E fazem isso com firmeza e preparo, em um cenário que avança, mas que ainda exige posicionamento.

Entre presença e reconhecimento: o que ainda precisa evoluir

Embora a presença feminina seja expressiva nos escritórios e nas obras, o mesmo avanço não se reflete nos espaços de consagração e decisão do setor. Os grandes prêmios, os projetos de maior escala e os cargos estratégicos ainda concentram, em sua maioria, nomes masculinos. A desigualdade, nesse caso, não está na entrada na profissão, mas na consolidação da autoria e da visibilidade.

Ana Carolina Queiroz lembra que o Prêmio Pritzker, considerado o “Nobel da Arquitetura”, foi criado em 1979 e premiou sua primeira mulher apenas em 2004. Desde então, os nomes femininos ainda são minoria. O dado revela que, embora as mulheres estejam presentes na profissão há décadas, o reconhecimento autoral não acompanhou esse ritmo.

Para Julyana Bortolotto, a mudança passa também pela forma como o mercado comunica e evidencia essas trajetórias. “A mídia tem um papel importante em evidenciar cada vez mais a atuação feminina na arquitetura. Dar visibilidade aos trabalhos, às trajetórias e às conquistas ajuda a criar novas referências e ampliar o reconhecimento”, pontua. Ampliar referências femininas não é apenas uma questão simbólica, mas estratégica: cria repertório, inspira novas gerações e fortalece a percepção de autoridade.

Caroline Britto acrescenta que é preciso reconhecer a diversidade de perfis femininos na arquitetura. “Não existe um único modo de exercer liderança.” Mulheres atuam como técnicas, gestoras, estrategistas, criativas e empreendedoras – e essa pluralidade ainda precisa ganhar mais espaço em projetos de grande escala e nos centros de decisão.

Embora o setor tenha avançado, liderança, remuneração justa, autoria reconhecida e participação estratégica são etapas de um processo que está em curso, e que depende tanto de posicionamento individual quanto de transformação coletiva.

Mulheres que inspiram: referências dentro e fora da arquitetura

Por trás de cada trajetória profissional existe uma rede de influências, exemplos e histórias que moldam escolhas e posturas. Referências femininas não são apenas símbolos de representatividade, mas estruturas de apoio e inspiração. Ao ocupar espaços, assinar projetos e liderar equipes, essas arquitetas também se tornam exemplo para outras mulheres que ingressam na profissão.

Para Michelle Machado, a força vem de dentro de casa. Ela lembra da avó, que imigrou jovem, enfrentou adversidades e criou uma família de mulheres decididas. Essa herança de coragem e autonomia atravessa gerações e, de certa forma, também se traduz na forma de conduzir projetos e equipes.

Julyana Bortolotto também encontra inspiração na própria história familiar. Sua avó materna, empreendedora e à frente do seu tempo, construiu uma empresa por meio da costura. Ao mesmo tempo, a profissional reconhece a importância de mulheres que romperam barreiras na arquitetura e no design, como Lina Bo Bardi e Charlotte Perriand, nomes que enfrentaram contextos dominados por homens e, ainda assim, deixaram legado autoral transformador.

Ana Carolina Queiroz amplia esse repertório ao citar referências nacionais e internacionais que marcaram sua formação. De Zaha Hadid às arquitetas do Grafton Architects, passando por Lina Bo Bardi, Carla Juaçaba e tantas outras, ela reforça como a visibilidade feminina constrói caminhos para as próximas gerações. Conhecer essas trajetórias é entender que presença e autoria precisam ser constantemente reafirmadas.

Caroline Britto, por sua vez, fala da força das conexões. A mãe como primeira referência, as colegas de graduação como parceiras de crescimento e a admiração por Lina Bo Bardi mostram que a construção profissional também acontece nas trocas. “A formação é construída nas relações”, reforça ao destacar a importância da admiração e do respeito mútuo entre mulheres.

À medida que mulheres ampliam sua presença, consolidam autoridade e redefinem prioridades, os espaços também se transformam. O que antes era invisível ganha forma, função e assinatura. E, ao projetar casas mais conectadas à vida real, essas profissionais não apenas desenham ambientes, como ajudam a redesenhar o próprio mercado.

Para conhecer a trajetória de outra profissional que imprime identidade e sensibilidade em sua relação com projetos, vale conferir também o trabalho de Camila Giosa e entender como diferentes olhares femininos seguem transformando a arquitetura brasileira.

Fonte: tuacasa

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