Saúde

Peixe Elétrico Amazônico: Como Ele Cria Eletricidade para se Localizar no Escuro

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2026

I

magine que você está em um jardim, encantando-se com a luz que atravessa as folhas, o cheiro da terra, o calor do sol e o roçar do vento na pele. Talvez ainda dê para ouvir os pássaros ou o zumbido característico de uma cigarra. 

Essa é a vida na Terra para os humanos. Esse é o mundo que nossos sentidos nos permitem conhecer. O biólogo e filósofo Jakob von Uexküll (1864-1944) chamava isso de umwelt.

Mas há outros mundos, outros umwelts. Naquelas mesmas plantas, as abelhas enxergam sinais ultravioleta nas flores, indicando o melhor lugar para pousar e obter pólen. Algumas aves percebem o campo magnético da Terra e sabem se localizar com precisão, como se navegassem numa malha invisível de batalha-naval.

Certos insetos podem saber que a cigarra está por perto pela vibração das superfícies. As formigas seguem ordens em uma rígida hierarquia e infinitas trilhas a partir das informações obtidas pelos feromônios que deixam umas para as outras. É um sinalizador potente: 1 miligrama de feromônio da formiga-cortadeira-do-texas bem espalhado seria suficiente para guiá-las em três voltas ao redor da Terra (1). 

No mesmo jardim, pode ser ainda que o focinho de um cachorro encontre pistas úteis sobre dieta, fertilidade, capacidade física e estresse de outros cães das redondezas.

Para saber que essas coisas – comprimentos de luz que não enxergamos, vibrações mínimas, feromônios – existem, nós precisamos de instrumentos. Eles funcionam como tradutores: falta nos humanos o órgão para sentir as ondas magnéticas, mas você pode entendê-las se forem convertidas em um número ou um desenho no seu campo de visão. 

Nossa visão, aliás, é uma das melhores e mais elaboradas dentre todas as espécies. Nós amamos enxergar: transformamos quase tudo em coisas que podem ser entendidas com os olhos. É o caso desta matéria (e de todas as outras da revista). 

Sendo assim, ajuste os seus olhos para, nas próximas linhas, imaginar outros mundos.

Este texto é parte da reportagem “Já é sensação”, da edição 485 da Super. Confira os outros textos aqui.


Em 1859, Charles Darwin publicou A Origem das Espécies. Nele, o britânico apresentou a ideia de seleção natural: indivíduos mais adaptados ao ambiente tendem a sobreviver e deixar mais descendentes. Ao longo de milhões de anos e muitas gerações, esse processo pode levar ao surgimento de novas espécies.

Como um bom cientista, cético, Darwin dedicou um capítulo inteiro aos pontos fracos de seu argumento. “Os órgãos elétricos dos peixes oferecem outro exemplo de dificuldade especial; é impossível conceber por quais etapas esses órgãos maravilhosos foram sendo produzidos […]”, escreveu. 

Entretanto, Darwin defendia que nenhum órgão poderia surgir do nada. Os mecanismos dos peixes-elétricos tinham, então, de ter algum antecessor mais rudimentar, de campo elétrico mais fraco. 

O problema é que ele ainda não tinha ouvido falar de nenhum peixe assim. Para piorar, não conseguia imaginar como um campo elétrico fraco poderia ser útil para a sobrevivência de uma espécie. 

Levou quase um século para que o zoólogo ucraniano Hans Lissmann identificasse um potencial elétrico fraquinho, de menos de 1 volt, produzido pelo peixe africano aba-aba (Gymnarchus niloticus). Existem centenas de peixes assim.

Evolutivamente, os órgãos elétricos surgiram a partir de músculos modificados. Nos músculos comuns, sinais elétricos fazem as fibras se contraírem. Nos peixes-elétricos, células especializadas amplificam esses sinais e geram um campo elétrico ao redor do corpo, que pode ser contínuo ou emitido em pulsos. 

Receptores espalhados por toda a pele desses animais conseguem detectar quando o campo elétrico sofre alguma interferência e, a partir das diferenças na condutividade, classificar o obstáculo. Se conduz pouco, pode ser uma pedra. Se conduz muito, pode ser um outro peixe, cheio de água e sais.

Quanto do fundo do oceano já vimos? Muito menos do que você imagina

A eletrolocalização é como um supertrunfo dos sentidos: funciona no escuro, em águas movimentadas, no barulho, e é indetectável para a maioria. Nada, nem ninguém, consegue se esconder de quem é capaz de se orientar assim.

É um mecanismo muito sensível – o ituí-cavalo, por exemplo, consegue usá-lo para reconhecer (e capturar) presas de 2 mm. Manter essa bateria ligada, porém, consome muita energia – por isso, esse radar tem uma contrapartida: só funciona a curtas distâncias, detectando objetos a cerca de 1 cm do corpo (1). Para reagir a algo tão próximo, o ituí-cavalo compensa com um nado extremamente ágil, capaz de se mover com precisão em várias direções, inclusive para trás e de cabeça para baixo.

Ilustração multicolorida de um peixe-eletrico.
(Tayrine Cruz/Superinteressante)

Para além de navegar e caçar, o ituí-cavalo também usa a eletricidade para “conversar”. Ao modular suas descargas elétricas, ele cria sinais chamados chirps, que funcionam como pequenos piados elétricos.

Diante de um chirp alheio, os peixinhos analisam quão rápido a frequência da descarga elétrica mudou, qual é a nova frequência e quanto tempo ela dura. Com isso, eles sabem informações essenciais sobre o emissor, como sexo, agressividade e disposição para cortejos sexuais (2).

Se dois indivíduos estiverem muito próximos e seus sinais elétricos forem muito parecidos, pode rolar uma confusão – como duas estações de rádio tentando operar na mesma frequência. Nesses casos, eles instintivamente ajustam a frequência de descarga elétrica para evitar os “ruídos” no radar. Um papo eletrizante.

Fontes (1) artigo  “Identification of the trail pheromone of a leaf-cutting ant, Atta texana”; (2) artigo “Prey capture in the weakly electric fish Apteronotus albifrons: Sensory acquisition strategies and electrosensory consequences”; (3) artigo “Diversity in the structure of electrocommunication signals within a genus of electric fish, Apteronotus”.

Fonte: abril

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