As ediçÔes da Superinteressante mal chegavam ao salĂŁo de beleza da famĂlia, em Mogi das Cruzes (SP), e jĂĄ viravam motivo de briga. Assinada pelo pai, a revista tinha que passar primeiro pelas mĂŁos dos filhos, que competiam entre si.
As pĂĄginas cheias de descobertas, infogrĂĄficos coloridos e perguntas difĂceis foram âo primeiro contato com o mundo cientĂficoâ, conta Carolini Kaid Ă Super. âEles apresentavam os problemas aparentemente impossĂveis e mostravam como eles podiam ser resolvidos pela ciĂȘnciaâ.
Na escola, resolver problemas era justamente o que mais a atraĂa. Carol aprendia rĂĄpido e se entediava fĂĄcil. Uma professora de matemĂĄtica percebeu que ela terminava as atividades antes dos colegas e passou a lhe dar desafios extras, mais difĂceis, para mantĂȘ-la ocupada. Funcionou. âNĂŁo importava o problema, eu nĂŁo largava atĂ© resolverâ, diz.
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O interesse pela ciĂȘncia se consolidou com o passar dos anos. Ao prestar vestibular, conseguiu nota suficiente para cursar medicina e chegou a ganhar uma bolsa integral. Recusou. âQueria fazer ciĂȘncia realmente. Queria descobrir, gerar conhecimentoâ, afirma.
Passou em quatro universidades e escolheu o curso de CiĂȘncias BiolĂłgicas na USP pela proximidade com a pesquisa. Em seis meses, jĂĄ estava estagiando em um laboratĂłrio.
No mestrado e no doutorado â ambos pelo Instituto de BiociĂȘncias da USP â, Carol encontrou o âproblema impossĂvelâ que definiria sua trajetĂłria: tumores cerebrais pediĂĄtricos.Â
O alvo eram tumores com caracterĂsticas de cĂ©lulas-tronco, um tipo de cĂ©lula que funciona como matĂ©ria-prima do corpo. SĂŁo elas que, no embriĂŁo, dĂŁo origem a todos os nossos tecidos, do cĂ©rebro aos ossos.
O problema Ă© que, quando o cĂąncer se apropria dessa habilidade, elas viram uma espĂ©cie de raiz do tumor. Conseguem se multiplicar sem parar, gerar novas cĂ©lulas cancerosas e reconstruir o tumor mesmo depois de quimioterapia ou radioterapia.Â
Com o tempo, descobriu que essas cĂ©lulas estavam em uma fase intermediĂĄria do desenvolvimento do cĂ©rebro. NĂŁo eram cĂ©lulas-tronco âpurasâ, mas tambĂ©m nĂŁo eram neurĂŽnios prontos. Eram o que se chama de âprogenitores neuraisâ: cĂ©lulas jovens, em transição, que ainda conseguem se multiplicar.
Isso ajudava a explicar por que o tumor era tão agressivo. Era como tentar eliminar algo que ainda estava em formação e que sabia se reconstruir.
Para investigar essas cĂ©lulas, Carol precisou sair da bancada e ir atĂ© onde o tumor estava, no centro cirĂșrgico. Ela acompanhava cirurgias e esperava o momento em que o neurocirurgiĂŁo removia um fragmento do tumor. Esse pedaço, que normalmente seria descartado, virava matĂ©ria-prima da pesquisa.
Assim que recebia a amostra, colocava o material em um tubo com solução nutritiva, dentro de uma caixa tĂ©rmica, e ia direto ao laboratĂłrio â geralmente, de ĂŽnibus. âAinda bem que ninguĂ©m sabia que eu estava carregando um pedaço de tumor cerebralâ, brinca.Â
Em busca da solução
Durante quase dez anos, a rotina de Carol foi uma sequĂȘncia de tentativas frustradas. No laboratĂłrio, ela expunha as cĂ©lulas tumorais a todo tipo de ataque, mas nada funcionava.Â
A virada aconteceria fora do laboratĂłrio. Em 2015, estava grĂĄvida do primeiro filho quando o Brasil entrou em alerta por causa do vĂrus Zika. A epidemia se espalhou rapidamente, e logo vieram os casos de bebĂȘs que nasciam com microcefalia, uma mĂĄ-formação grave do cĂ©rebro. Como milhĂ”es de gestantes brasileiras, ela sentiu medo. Mas, como cientista, sentiu tambĂ©m curiosidade.
Uma caracterĂstica do vĂrus chamou sua atenção: ele atacava o cĂ©rebro em desenvolvimento. Logo os estudos começaram a explicar por quĂȘ. O Zika nĂŁo infectava qualquer cĂ©lula. Ele tinha como alvo preferido justamente os progenitores neurais, ou seja, o mesmo tipo de cĂ©lula que Carol estudava nos tumores.
Se o vĂrus consegue invadir e destruir essas cĂ©lulas saudĂĄveis em fetos, ele pode fazer o mesmo com as versĂ”es cancerosas? Ela decidiu testar.
âEra um experimento simples. Eu jĂĄ tinha as cĂ©lulas e coloquei o vĂrus em contatoâ, relembra. TrĂȘs dias depois, abriu a incubadora e olhou as placas. As cĂ©lulas estavam mortas.
âMinha primeira reação foi: alguĂ©m cuspiu aqui e as matouâ, diz. Afinal, contaminaçÔes acidentais acontecem no laboratĂłrio. Bastava uma bactĂ©ria, um fungo ou um erro tĂ©cnico para arruinar tudo. Mas havia um detalhe: o controle, a placa idĂȘntica que nĂŁo tinha recebido o vĂrus, estava intacto.
Carol correu para chamar o orientador. Repetiu o experimento. Depois, de novo. E de novo. O resultado se confirmava.
O trabalho virou capa da revista cientĂfica Cancer Research, uma das mais importantes da ĂĄrea, e rendeu a ela o PrĂȘmio Capes de Melhor Tese do Brasil em 2020. Foi a primeira demonstração de que o vĂrus Zika poderia ser usado como arma contra tumores cerebrais pediĂĄtricos.
A notĂcia começou a circular e famĂlias passaram a procurar o laboratĂłrio em que ela trabalhava. Alguns vinham de longe. âEra pai com criança batendo na porta. AtĂ© teve um paciente que veio acamado do Recife. Ele pegou um aviĂŁo especial para chegar.â
Eles queriam tratamento, mas ainda era uma pesquisa bĂĄsica, muito longe de virar terapia. NĂŁo existia medicamento, nem ensaio clĂnico, nem sequer previsĂŁo de começar um.Â
E havia um outro obstĂĄculo para eventuais testes: o vĂrus que matava as cĂ©lulas tumorais no laboratĂłrio era o mesmo que, fora dali, podia causar uma doença grave. NĂŁo dava para simplesmente injetĂĄ-lo em um paciente. âEra preciso transformĂĄ-lo num vĂrus sintĂ©ticoâ, diz. Ou seja, reconstruir o Zika do zero.
Brincando de Lego
Todo vĂrus Ă©, em resumo, uma sequĂȘncia de RNA com instruçÔes biolĂłgicas. Algumas dessas instruçÔes permitem que ele invada cĂ©lulas. Outras fazem com que ele se replique e, assim, cause a doença. Carol começou a desmontar esse cĂłdigo, pedaço por pedaço.
âEra como brincar de Legoâ, conta. Ela removeu os trechos ligados Ă doença e manteve o que interessava: a capacidade quase Ășnica do Zika de encontrar cĂ©lulas do cĂ©rebro e entrar nelas. O resultado foi uma espĂ©cie de vĂrus âesburacadoâ.
Carol passou a preencher esse âburacoâ com novas instruçÔes. No começo, a ideia era provar que o vĂrus modificado ainda conseguia entrar nas cĂ©lulas. Para isso, inseriu um gene marcador, que fazia as cĂ©lulas infectadas brilharem em verde. Funcionou, e tambĂ©m revelou algo maior.
âEle tinha transformado o vĂrus em um vetor viral. Ou seja, podia entregar qualquer coisa para o cĂ©rebro, tipo um Uber. VocĂȘ coloca o passageiro e entrega o que quiser para o cĂ©rebroâ, diz.
No cĂąncer, ele ainda funciona como arma, jĂĄ que invade a cĂ©lula tumoral e a destrĂłi por dentro. Mas, se estiver carregando um gene terapĂȘutico, pode substituir proteĂnas defeituosas, corrigir falhas genĂ©ticas, tratar doenças atĂ© entĂŁo sem solução. Ă uma segunda utilidade para esse vĂrus-Frankenstein.Â
Inclusive, um dos outros projetos que Carol estĂĄ envolvida mira uma forma rara e grave de autismo causada por mutaçÔes no gene Shank3, essencial para a comunicação entre neurĂŽnios. Sem ele, a criança perde habilidades que jĂĄ tinha desenvolvido e pode sofrer crises epilĂ©pticas severas. A estratĂ©gia Ă© usar o vĂrus como transporte.
âNo vetor, colocamos o gene dessa proteĂna que estĂĄ mutada. Dessa forma, fazemos uma reposição proteicaâ, explica. A ideia Ă© que o paciente receba uma injeção na corrente sanguĂnea. A partir daĂ, o vĂrus faz o que sabe fazer melhor: encontra o cĂ©rebro.
PrĂłximos passos
Apesar dos resultados promissores em laboratĂłrio e em animais, a tecnologia ligada ao cĂąncer ainda estĂĄ na fase prĂ©-clĂnica (ou seja, nĂŁo foi testada em pacientes, etapa essencial para saber se um tratamento funciona).Â
O principal obstĂĄculo Ă© que transformar uma descoberta em medicamento exige mais do que pesquisa. Ă preciso produzir o vĂrus em escala, seguindo padrĂ”es industriais rĂgidos, com controle de qualidade e aprovação da Anvisa â um processo chamado manufatura.
Esse tipo de desenvolvimento, que pode durar um par de anos, nĂŁo costuma acontecer dentro da universidade, que Ă© voltada Ă produção de conhecimento cientĂfico. Por isso, Carol deixou o mundo acadĂȘmico e fundou sua primeira startup, entrando em um ramo novo e, segundo ela, hostil.
âO ambiente de negĂłcios Ă© extremamente machistaâ, destaca. Ela percebeu que reuniĂ”es eram dominadas por homens e que sua posição era frequentemente questionada.
Em sua primeira empresa, entrou em conflito com investidores que queriam vender a tecnologia ao exterior. Recusou. Acabou deixando a firma e fundando outra, mantendo o objetivo original.
Hoje, sua equipe desenvolve versĂ”es sintĂ©ticas do vĂrus em condiçÔes industriais, etapa essencial para que ele possa ser testado em pacientes. Seu objetivo Ă© levar a terapia atĂ© o sistema pĂșblico e, depois, alĂ©m. âMeu sonho Ă© esse: a primeira tecnologia brasileira, desenvolvida no Brasil, para o mundo.â
Esse trabalho levou Carol a ser uma das premiadas da 6ÂȘ edição do programa 25 Mulheres na CiĂȘncia, promovido pela 3M AmĂ©rica Latina. A edição teve como tema âMulheres na Manufaturaâ, justamente a ĂĄrea que ela passou a dominar para tirar a tecnologia da bancada e levĂĄ-la aos hospitais.
âFomentar a participação da mulher nesse campo fortalece a capacidade do setor de entregar melhorias contĂnuas â e este projeto foi projetado para reconhecer e apoiar issoâ, declarou Ana Sbaglia, lĂder do Grupo de Liderança Feminina da 3M Brasil, em comunicado.
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Fonte: abril






