Saúde

Polilaminina: avanço da ciência brasileira na regeneração da medula espinhal

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A possibilidade de recuperação após uma lesão na medula sempre esteve entre os maiores desafios da neurologia. Lesões medulares completas, ou seja, quando há perda total de movimentos e sensibilidade abaixo do trauma, raramente apresentam reversão espontânea.

Nesse cenário, a polilaminina, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), surge como uma das mais promissoras apostas da ciência brasileira na área de terapia regenerativa.

Desenvolvida ao longo de 25 anos pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pelo Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, a pesquisa tem como base o estudo da laminina, uma proteína obtida a partir da placenta humana.

Professora Doutora Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pelo desenvolvimento do estudo com a polilaminina.Professora Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pelo desenvolvimento do estudo com a polilaminina. (Foto: HugoCarval | Wikimedia Commons)

Essa molécula exerce papel central na modulação do comportamento celular e na organização dos tecidos, especialmente durante o desenvolvimento embrionário e nos processos de regeneração do sistema nervoso.

A substância avançou dos estudos laboratoriais para a fase inicial de avaliação clínica regulatória no Brasil. Ainda não há tratamento aprovado, mas os resultados preliminares reacenderam o debate sobre o futuro da regeneração medular.

A iniciativa se tornou um dos exemplos mais relevantes de ciência brasileira aplicada à inovação terapêutica em neurologia.

O que é a polilaminina e como ela foi descoberta?

A polilaminina é uma versão polimérica e estável da laminina, proteína fundamental da matriz extracelular – especialmente ativa durante o desenvolvimento embrionário. A laminina funciona como um “andaime biológico”, favorecendo a adesão celular, o crescimento de neurônios e a formação de conexões nervosas.

Em adultos, no entanto, a presença dessa proteína no sistema nervoso central é limitada, sobretudo em áreas lesionadas. A partir dessa constatação, pesquisadores da UFRJ passaram a investigar formas de restaurar artificialmente essa estrutura.

O grupo conseguiu recriar, em laboratório, a organização tridimensional natural da laminina, dando origem à polilaminina, produzida a partir de proteínas extraídas da placenta humana. A placenta é rica em laminina e normalmente seria descartada após o parto, tornando-se uma fonte viável de matéria-prima.

Em entrevista ao CBN Rio, em outubro de 2025, Tatiana Coelho de Sampaio explicou que a poliaminina é uma “proteína natural que na natureza já tem esse papel de induzir o crescimento axonal”

Segundo ela, a proteína recupera a função motora. “A polilaminina, que foi efetivamente o que a gente descobriu, era uma forma melhorada da laminina, que não era suficiente na lesão”, afirmou.

O projeto recebeu apoio de agências de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Além disso, estabeleceu parceria com o Laboratório Cristália para padronização farmacêutica da substância.

Como a polilaminina atua no sistema nervoso?

A hipótese científica é que a polilaminina funciona como uma matriz bioativa no local da lesão. Ao ser aplicada diretamente no tecido medular lesionado, ela forma uma rede tridimensional capaz de induzir o crescimento de axônios, favorecer as reconexões neurais, reduzir a inflamação local e limitar a perda de tecido nervoso.

A base científica da polilaminina parte do entendimento de que o ambiente pós-trauma é hostil à regeneração, mas ao reintroduzir uma estrutura semelhante à do desenvolvimento embrionário, os pesquisadores podem “recriar” um microambiente permissivo à regeneração.

Quais evidências já foram obtidas com o tratamento da polilaminina?

Pesquisas anteriores realizadas com roedores indicaram que a substância é capaz de atenuar a resposta inflamatória, preservar tecido nervoso e estimular o crescimento de axônios em diferentes modelos experimentais de lesão na medula espinhal.

Já em cães paraplégicos com lesões crônicas, um estudo publicado em agosto de 2025 na revista Frontiers in Veterinary Science avaliou seis animais que não apresentavam melhora após cirurgia e fisioterapia. Após aplicação da polilaminina, quatro voltaram a dar passos, dois apresentaram melhora discreta e não houve efeitos adversos graves registrados. Esses resultados fortaleceram a base experimental para o avanço da pesquisa.

Em humanos, os primeiros dados foram divulgados como preprint no medRxiv em fevereiro de 2024. O estudo clínico com polilaminina incluiu oito pacientes com lesão medular completa e aguda. Os participantes receberam uma única injeção intraparenquimatosa de polilaminina dentro de um intervalo médio entre 2 e 3 dias após o trauma.

Seis sobreviveram, e todos demonstraram algum grau de contração voluntária abaixo do nível da lesão, resultado considerado incomum nesse tipo de quadro. A avaliação utilizou escalas neurológicas padronizadas e exames eletrofisiológicos.

O número reduzido de participantes, porém, impede conclusões definitivas sobre eficácia. Um dos participantes, Bruno Drummond, tetraplégico após um acidente de carro, foi um dos primeiros a manifestar melhora.

Em seu Instagram, Bruno gravou uma série de relatos de como foi receber o tratamento com polilaminina aproximadamente vinte e quatro horas após um acidente que o deixou sem movimentos do pescoço para baixo.

Em um dos vídeos, ele explica como entrou no estudo “Uma pessoa que ia fazer meu atendimento comentou com o meu tio sobre o estudo da UFRJ. Meu tio basicamente deu uma lida rápida, conversou com a minha tia que é neurocirurgiã e em conjunto chegaram em um consenso de que pior não tinha como ficar. E aí eles aprovaram a minha entrada no estudo. Foi um ensaio clínico, não tinha patente”, afirmou.

Drummond enfatizou a rapidez com que recebeu a injeção da poliaminina após o acidente: “Todas as estrelas ali se alinharam para que eu fizesse parte do estudo e tivesse bons resultados e uma boa recuperação”.

Aprovação da Anvisa em 2026

Recentemente, os estudos clínicos entraram em uma nova etapa: a Anvisa autorizou o início da fase 1 regulatória, voltada à avaliação de segurança. Essa fase deve incluir cinco voluntários adultos com lesão completa da medula na região torácica, ocorrida há até 72 horas.

A aplicação será feita durante procedimento cirúrgico indicado. Novos critérios dependerão dos resultados da fase 1 e da progressão para fases subsequentes.

É importante destacar que a polilaminina ainda não é um tratamento aprovado, e que a fase 1 avalia segurança, não eficácia. Novas fases (2 e 3) ainda serão necessárias para comprovar benefício clínico. A autorização representa avanço regulatório, mas não significa disponibilidade para pacientes fora de protocolos de pesquisa.

A permissão da Anvisa ocorreu por meio do Comitê de Inovação da própria agência, instância criada para acelerar a análise de tecnologias classificadas como estratégicas. A previsão é que o estudo tenha início em breve, assim que forem definidos os hospitais que irão conduzir a pesquisa.

No comunicado, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha afirmo que a descoberta “é um marco importante para a saúde, especialmente para pessoas com lesão medular aguda e crônica”.

“A aprovação, pela Anvisa, de um estudo desenvolvido em uma universidade pública tem potencial para revolucionar o tratamento no SUS e no país”, disse ele.

Quais são as expectativas para o futuro?

Apesar dos resultados promissores, especialistas reforçam cautela. Entre os principais desafios, é preciso confirmar eficácia em estudos maiores e controlados, entender completamente o mecanismo de ação, avaliar estabilidade farmacológica e segurança a longo prazo, além de verificar impacto em lesões crônicas ou degenerativas.

“Para lesão crônica, para pessoas que têm já lesões que não foram tratadas nas primeiras horas, existe a possibilidade. Porque, a princípio, o axônio, os neurônios que estão vivos podem crescer de novo. […] Mas é um pouco mais complexo porque a gente precisa dar conta de vencer essa cicatriz que ficou ali”, afirmou Tatiana Coelho de Sampaio à Ello TV.

O caminho regulatório até eventual incorporação ao SUS pode levar anos. Ainda assim, dentro do campo de inovação em neurocirurgia, a polilaminina é considerada uma das linhas mais relevantes de pesquisa em tratamento de lesão na medula.

Fonte: gazetadopovo

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